Copom deve cortar Selic pela 1ª vez em 2 anos sob pressão do petróleo

Da redação de LexLegal
O Comitê de Política Monetária do Banco Central decide nesta quarta-feira (18) se começa a reduzir a Selic, a taxa básica de juros da economia, após dois anos sem cortes. A aposta majoritária do mercado é de uma redução de 0,25 ponto percentual, de 15% para 14,75% ao ano, mesmo com a guerra no Oriente Médio pressionando o preço do petróleo e reacendendo temores sobre inflação.
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A decisão sai em um momento de tensão dupla. De um lado, o Banco Central tenta calibrar o início do afrouxamento dos juros, isto é, o começo de uma queda gradual da taxa. De outro, o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã elevou o preço da energia e embaralhou o cenário que, até pouco tempo atrás, indicava espaço maior para um corte mais forte.
Hoje, a Selic está em 15% ao ano, o maior patamar desde julho de 2006, quando havia atingido 15,25%. Entre setembro de 2024 e junho de 2025, a taxa subiu sete vezes seguidas. Nas quatro reuniões seguintes, ficou parada. Agora, o mercado vê chance de o Banco Central iniciar a virada.
O ambiente, porém, ficou mais instável nas últimas semanas. Na ata de janeiro, o Copom havia sinalizado que pretendia começar a cortar os juros em março. Com a escalada da guerra e a alta do petróleo, parte das instituições passou a rever o tamanho desse movimento e até cogitou adiar a redução.
Segundo o boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central com analistas do mercado financeiro, a expectativa dominante é de corte de 0,25 ponto percentual. Antes do agravamento do conflito, a projeção mais comum era de queda de 0,5 ponto. O recuo das apostas mostra como fatores externos voltaram a pesar sobre a política monetária brasileira.
A Selic funciona como referência para os juros cobrados em toda a economia. É com base nela que se forma o custo de empréstimos, financiamentos e aplicações financeiras. Quando sobe, o crédito tende a ficar mais caro, o consumo perde força e a atividade esfria. Quando cai, o dinheiro tende a circular mais, o que pode estimular empresas e famílias, mas também dificulta o controle dos preços se a inflação já estiver pressionada.
O Banco Central usa a taxa básica como principal ferramenta para tentar manter a inflação dentro da meta. No dia a dia, a autoridade monetária opera comprando e vendendo títulos públicos para deixar os juros de mercado perto do nível definido pelo Copom. É por isso que a reunião desta quarta vai muito além de um número. Ela sinaliza como o BC está lendo a economia daqui para frente.
A inflação, no entanto, segue sem dar tranquilidade plena. A prévia do índice oficial, o IPCA-15, subiu 0,7% em fevereiro, puxada principalmente por educação. Em 12 meses, porém, ficou em 3,81%, abaixo de 4% pela primeira vez desde maio de 2024. Esse dado ajudou a sustentar a expectativa de início de corte da Selic, mas o choque do petróleo voltou a embaralhar as contas.
O próprio Focus mostrou deterioração nas projeções para 2026. A estimativa de inflação subiu de 3,8% para 4,1%, movimento atribuído ao impacto do conflito no Oriente Médio. Ainda é um número dentro do limite aceito pelo sistema de metas, mas já mais próximo da faixa superior tolerada pelo Conselho Monetário Nacional.
Desde janeiro de 2025, o país passou a operar com a chamada meta contínua de inflação. Na prática, isso significa que o alvo de 3% deixou de ser observado apenas no fechamento de dezembro e passou a ser acompanhado mês a mês, sempre com base na inflação acumulada em 12 meses. O intervalo de tolerância é de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Assim, a inflação pode variar entre 1,5% e 4,5% sem que a meta seja considerada formalmente descumprida.
Esse novo sistema tenta dar leitura mais constante sobre o comportamento dos preços, sem concentrar toda a cobrança em um único mês do ano. Em março de 2026, por exemplo, a inflação acumulada desde abril de 2025 é comparada com a meta. Em abril, a conta anda um mês para frente. O método ficou mais contínuo, mas também mais sensível a choques repentinos, como guerra, energia cara e desorganização de cadeias globais.
A reunião desta quarta também terá um componente político e institucional. O Copom estará incompleto porque os mandatos dos diretores Renato Gomes e Paulo Pichetti venceram no fim de 2025, e os substitutos ainda não foram indicados ao Congresso. Ainda assim, a decisão será tomada com base na diretoria remanescente do Banco Central.
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O corte esperado pelo mercado é pequeno, mas carrega um recado importante. Se vier, marcará o primeiro passo de alívio nos juros depois de um ciclo pesado de aperto monetário. Se não vier, o Banco Central deixará claro que vê na guerra, no petróleo e na inflação riscos suficientes para adiar a flexibilização. Em qualquer cenário, a decisão desta noite deve redesenhar o humor do mercado e a trajetória dos juros no Brasil nas próximas semanas.