Copa virou laboratório global de gestão de riscos no futebol

Maria Eduarda Kormann*
Calor extremo, ameaças terroristas, surtos sanitários e tensões geopolíticas colocam a Copa do Mundo de 2026 no centro de um dos maiores desafios contemporâneos de gestão de riscos e impõem ao mercado segurador a necessidade de soluções cada vez mais sofisticadas.
Com 48 seleções, 104 partidas e sedes distribuídas entre Estados Unidos, Canadá e México, a próxima edição do torneio será a maior da história. Segundo estimativas do Bank of America, o evento deve movimentar mais de USD 41 bilhões e gerar cerca de 800 mil empregos.
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Muito além do espetáculo esportivo, a Copa do Mundo tornou-se uma plataforma global de negócios, mídia e entretenimento. E justamente por sua dimensão econômica, operacional e reputacional, o torneio exige uma estrutura robusta de prevenção, mitigação e transferência de riscos. Nesse contexto, seguros deixam de ser mera formalidade contratual e passam a ocupar posição estratégica na sustentação do evento.
O calor como risco jurídico e econômico
O primeiro grande desafio já está definido no calendário: os jogos ocorrerão durante o verão do hemisfério norte. Estudos apontam que parte relevante das partidas poderá ser disputada sob temperaturas acima dos limites considerados seguros pela FIFPro — Federação Internacional das Associações de Jogadores de Futebol Profissionais. Em cenários extremos, a própria entidade recomenda o adiamento das partidas.
E um adiamento, em um evento dessa magnitude, desencadeia impactos econômicos imediatos em cadeia. Torcedores podem precisar prolongar hospedagens e remanejar voos; patrocinadores correm o risco de perder ativações planejadas para datas específicas; emissoras precisam reorganizar grades de programação e contratos publicitários; fornecedores e operadores locais enfrentam desequilíbrios logísticos e financeiros. A complexidade contratual envolvida é gigantesca.
A arquitetura dos interesses seguráveis
A FIFA concentra os principais interesses econômicos do torneio como receitas de transmissão, licenciamento e patrocínio. Os comitês organizadores locais assumem o risco operacional direto: gestão dos estádios, contratação de fornecedores, segurança e execução do evento.
Emissoras comprometem cifras bilionárias em direitos de transmissão, enquanto patrocinadores estruturam campanhas globais vinculadas a jogos e calendários específicos. Na ponta final da cadeia está o torcedor, que frequentemente mobiliza economias pessoais para acompanhar a sua seleção.
Em todos esses níveis há interesses seguráveis distintos — e, consequentemente, exposições contratuais distintas. Não existe solução securitária única capaz de absorver toda essa multiplicidade. A adequação entre risco assumido, interesse segurado e cobertura contratada torna-se elemento central da estratégia jurídica e financeira de cada player envolvido.
No mercado de eventos, apólices tipicamente contemplam como cobertura básica a responsabilidade civil do organizador por danos a terceiros. Riscos relacionados a cancelamento, interrupção, adiamento ou transferência costumam depender de contratação de cobertura adicional e negociação específica.
Na Copa do Mundo de 2026, contudo, a equação vai muito além disso: aos riscos tradicionais de produção somam-se ameaças climáticas, sanitárias, geopolíticas, terroristas e cibernéticas.
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Saúde, geopolítica e segurança: riscos que se acumulam
A memória da pandemia de Covid-19 ainda influencia diretamente o mercado segurador global. Nesse cenário, novos surtos de Ebola no continente africano adicionam camadas de preocupação logística e sanitária para delegações, organizadores e autoridades migratórias com impactos que vão desde restrições de deslocamento de atletas e torcedores até cancelamentos, quarentenas, custos médicos internacionais e impossibilidade de participação de delegações inteiras.
O cenário geopolítico adiciona pressão relevante. A participação da seleção iraniana ocorre em meio às tensões envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, circunstância que já motivou ajustes operacionais aprovados pela FIFA relativos ao centro de treinamento da delegação. O time ainda disputará partidas em solo americano, mantendo vivos os riscos de atritos diplomáticos e operacionais.
Ao mesmo tempo, autoridades de segurança alertam para ataques terroristas, atuação de grupos criminosos organizados — como o cartel Nueva Generación, no México — e potenciais ofensivas cibernéticas capazes de afetar aeroportos, sistemas de transporte e infraestrutura crítica dos países-sede.
Em relação a terrorismo, guerra e cyber risks, as coberturas securitárias costumam exigir negociação altamente especializada, com cláusulas restritivas, exclusões sensíveis e limites específicos — detalhes que nenhum contratante pode negligenciar.
Gestão de riscos como instrumento estratégico
Megaeventos esportivos como a Copa do Mundo evidenciam uma transformação importante: riscos deixaram de ser periféricos e passaram a ocupar posição central nas decisões de organizadores, investidores, patrocinadores e operadores. Mais do que proteger patrimônios, a gestão de riscos tornou-se instrumento de continuidade operacional, estabilidade financeira e preservação reputacional.
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Diante de um ambiente global marcado por instabilidade climática, sanitária e geopolítica crescente, o mercado segurador e a advocacia especializada assumem papel cada vez mais relevante na viabilização jurídica e econômica de grandes eventos internacionais — e a Copa do Mundo de 2026 é, talvez, o maior teste dessa equação em tempo real.
*Maria Eduarda Kormann é coordenadora do Núcleo de Contratos da Poletto e Possamai – Sociedade de Advogados com atuação nas áreas de direito securitário, contratos, gestão de riscos empresariais e planejamento patrimonial e sucessório. É Mestre em Direito Público pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e membro das Comissões de Sucessões e Holdings e de Inteligência Artificial da OAB-PR.