Copa virou laboratório global de gestão de riscos no futebol

Copa virou laboratório global de gestão de riscos no futebol
Copa do Mundo de 2026 amplia desafios globais de segurança, clima e gestão de riscos para governos e seguradoras/CBF
Publicado em 28/05/2026 às 16:40

Maria Eduarda Kormann*

Calor extremo, ameaças terroristas, surtos sanitários e tensões geopolíticas colocam a Copa do Mundo de 2026 no centro de um dos maiores desafios contemporâneos de gestão de riscos e impõem ao mercado segurador a necessidade de soluções cada vez mais sofisticadas.

Com 48 seleções, 104 partidas e sedes distribuídas entre Estados Unidos, Canadá e México, a próxima edição do torneio será a maior da história. Segundo estimativas do Bank of America, o evento deve movimentar mais de USD 41 bilhões e gerar cerca de 800 mil empregos.

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Muito além do espetáculo esportivo, a Copa do Mundo tornou-se uma plataforma global de negócios, mídia e entretenimento. E justamente por sua dimensão econômica, operacional e reputacional, o torneio exige uma estrutura robusta de prevenção, mitigação e transferência de riscos. Nesse contexto, seguros deixam de ser mera formalidade contratual e passam a ocupar posição estratégica na sustentação do evento.

O calor como risco jurídico e econômico

O primeiro grande desafio já está definido no calendário: os jogos ocorrerão durante o verão do hemisfério norte. Estudos apontam que parte relevante das partidas poderá ser disputada sob temperaturas acima dos limites considerados seguros pela FIFPro — Federação Internacional das Associações de Jogadores de Futebol Profissionais. Em cenários extremos, a própria entidade recomenda o adiamento das partidas.

E um adiamento, em um evento dessa magnitude, desencadeia impactos econômicos imediatos em cadeia. Torcedores podem precisar prolongar hospedagens e remanejar voos; patrocinadores correm o risco de perder ativações planejadas para datas específicas; emissoras precisam reorganizar grades de programação e contratos publicitários; fornecedores e operadores locais enfrentam desequilíbrios logísticos e financeiros. A complexidade contratual envolvida é gigantesca.

A arquitetura dos interesses seguráveis

A FIFA concentra os principais interesses econômicos do torneio como receitas de transmissão, licenciamento e patrocínio. Os comitês organizadores locais assumem o risco operacional direto: gestão dos estádios, contratação de fornecedores, segurança e execução do evento.

Emissoras comprometem cifras bilionárias em direitos de transmissão, enquanto patrocinadores estruturam campanhas globais vinculadas a jogos e calendários específicos. Na ponta final da cadeia está o torcedor, que frequentemente mobiliza economias pessoais para acompanhar a sua seleção.

Em todos esses níveis há interesses seguráveis distintos — e, consequentemente, exposições contratuais distintas. Não existe solução securitária única capaz de absorver toda essa multiplicidade. A adequação entre risco assumido, interesse segurado e cobertura contratada torna-se elemento central da estratégia jurídica e financeira de cada player envolvido.

No mercado de eventos, apólices tipicamente contemplam como cobertura básica a responsabilidade civil do organizador por danos a terceiros. Riscos relacionados a cancelamento, interrupção, adiamento ou transferência costumam depender de contratação de cobertura adicional e negociação específica.

Na Copa do Mundo de 2026, contudo, a equação vai muito além disso: aos riscos tradicionais de produção somam-se ameaças climáticas, sanitárias, geopolíticas, terroristas e cibernéticas.

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Saúde, geopolítica e segurança: riscos que se acumulam

A memória da pandemia de Covid-19 ainda influencia diretamente o mercado segurador global. Nesse cenário, novos surtos de Ebola no continente africano adicionam camadas de preocupação logística e sanitária para delegações, organizadores e autoridades migratórias com impactos que vão desde restrições de deslocamento de atletas e torcedores até cancelamentos, quarentenas, custos médicos internacionais e impossibilidade de participação de delegações inteiras.

O cenário geopolítico adiciona pressão relevante. A participação da seleção iraniana ocorre em meio às tensões envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, circunstância que já motivou ajustes operacionais aprovados pela FIFA relativos ao centro de treinamento da delegação. O time ainda disputará partidas em solo americano, mantendo vivos os riscos de atritos diplomáticos e operacionais.

Ao mesmo tempo, autoridades de segurança alertam para ataques terroristas, atuação de grupos criminosos organizados — como o cartel Nueva Generación, no México — e potenciais ofensivas cibernéticas capazes de afetar aeroportos, sistemas de transporte e infraestrutura crítica dos países-sede.

Em relação a terrorismo, guerra e cyber risks, as coberturas securitárias costumam exigir negociação altamente especializada, com cláusulas restritivas, exclusões sensíveis e limites específicos — detalhes que nenhum contratante pode negligenciar.

Gestão de riscos como instrumento estratégico

Megaeventos esportivos como a Copa do Mundo evidenciam uma transformação importante: riscos deixaram de ser periféricos e passaram a ocupar posição central nas decisões de organizadores, investidores, patrocinadores e operadores. Mais do que proteger patrimônios, a gestão de riscos tornou-se instrumento de continuidade operacional, estabilidade financeira e preservação reputacional.

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Diante de um ambiente global marcado por instabilidade climática, sanitária e geopolítica crescente, o mercado segurador e a advocacia especializada assumem papel cada vez mais relevante na viabilização jurídica e econômica de grandes eventos internacionais — e a Copa do Mundo de 2026 é, talvez, o maior teste dessa equação em tempo real.

*Maria Eduarda Kormann é coordenadora do Núcleo de Contratos da Poletto e Possamai – Sociedade de Advogados com atuação nas áreas de direito securitário, contratos, gestão de riscos empresariais e planejamento patrimonial e sucessório. É Mestre em Direito Público pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e membro das Comissões de Sucessões e Holdings e de Inteligência Artificial da OAB-PR.

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