Com tarifaço, desafio de exportadores é encontrar novos mercados
Empresas buscam novos mercados após tarifa dos EUA; Apex abrirá escritório em Washington e governo promete apoio.

Da redação de LexLegal
A entrada em vigor da tarifa de 50% sobre mais de 3 mil produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos, nesta quarta-feira (6), gerou incertezas para trabalhadores e empresários. Diante das consequências ainda incertas, estratégias emergenciais como ajustes de estoque, aceleração de embarques e até redução de produção começam a ser adotadas. Mas há um caminho mais estruturante em vista: a diversificação de destinos comerciais.
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A mudança, no entanto, exige preparação, certificações específicas e apoio técnico. O ecossistema de suporte à exportação — que inclui ApexBrasil, MDIC, MAPA, Sebrae e entidades comerciais — já atua para mitigar os efeitos da medida. Em coletiva de imprensa nesta manhã, Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, destacou que 2,6 mil das 9 mil empresas brasileiras que exportam para os EUA já recebem apoio da agência. “Vai haver mudanças, isso não tem volta”, afirmou.
Viana também alertou para o impacto direto em setores sensíveis. “Setores como o de produtores de mel precisarão receber apoio urgente pois o único destino de exportação destes pequenos agricultores hoje são os Estados Unidos. Vamos incluí-los em todas as políticas de apoio”, disse. Segundo ele, o governo federal anunciará um pacote específico de auxílio, com base nos moldes do que foi feito para empresas afetadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul.
Entre as ações imediatas, está a abertura de um escritório da Apex em Washington, para negociações diretas com autoridades norte-americanas. A medida se soma à atuação consular e ao lobby de empresas brasileiras impactadas. “Essa tarifa de 50% não tem nenhuma motivação comercial, ela vem da atuação de grupos políticos”, declarou Viana. Para ele, a pressão dos consumidores americanos pode ajudar a reverter a medida no futuro, mas, enquanto isso, a diversificação de mercados será essencial.
A agência pretende intensificar sua atuação com setores produtivos para viabilizar a adaptação a novas exigências de países parceiros. “O mundo inteiro está fazendo isso, percebendo a instabilidade com essas medidas”, afirmou Viana.
Risco da concentração
Segundo dados da ApexBrasil, de janeiro a março de 2025, o Brasil exportou US$ 77,3 bilhões, com saldo comercial positivo de US$ 10 bilhões. Os EUA aparecem como terceiro maior destino (US$ 9,7 bilhões), atrás da China e da União Europeia. Entretanto, a concentração das exportações em poucos parceiros é vista como um ponto de vulnerabilidade.
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“Como tivemos um desafio com os EUA neste momento, podemos ter daqui a pouco com a China, que representa quase um quarto de tudo que o país envia para o exterior”, alerta Bruno Meurer, cofundador da Next Shipping. Ele lembra que setores como o de carne bovina já sofrem os impactos imediatos, com a tarifa adicional de 40% imposta por Trump somando-se aos 10% anteriores. “Essa empresa que exporta carne para lá não vai encontrar tão cedo um mercado para comprar a carne que ele não vai mais vender para o americano da noite para o dia”, afirma.
Diplomacia e novos mercados
Apesar do agravamento do cenário, a via diplomática segue em curso. A recente exclusão de 700 produtos da lista de sobretaxas mostra alguma abertura do governo norte-americano. Para o advogado Raphael Jadão, do RMM Advogados, “o Brasil deve aproveitar essa oportunidade para diversificar suas exportações e reduzir sua dependência do mercado americano”.
A busca por mercados alternativos, no entanto, impõe desafios. Exige atenção a aspectos culturais, normas sanitárias, rotulagem e logística. “Por exemplo, as exportações para países muçulmanos exigem certificação Halal, rotulagem no idioma local e até embalagens específicas”, explica Stefânia Ladeira, gerente da Saygo Comex. Segundo ela, produtos como pescados, carne de frango e têxteis têm boa perspectiva de expansão para América do Sul, Europa e Oriente Médio.
No entanto, o processo não é simples. Envolve a emissão de documentos internacionais, contratação de fretes, fiscalização aduaneira e cumprimento de requisitos legais dos países importadores. “O tempo que se leva depende do tipo de produto. Medicamentos demoram mais. Já roupas têm tempo mais célere”, resume Meurer.
Acordos e segurança jurídica
A entrada em novos mercados também passa pelo entendimento dos acordos internacionais vigentes. Nos últimos anos, o Brasil ampliou sua rede de acordos com países da África, Oceania, América Central, Caribe, China e Japão. “Nestes países há redução tarifária mútua, porém cada país tem sua característica operacional e definição legal de como os produtos precisam ser registrados para importação”, explica Diego Joaquim, advogado especialista em direito aduaneiro.
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No caso da União Europeia, por exemplo, a padronização de regras entre os países facilita a negociação. Já em outras regiões, a adaptação envolve uma análise específica por produto e destino. A leitura, segundo Joaquim, deve ser estratégica: “É preciso planejamento para ampliar a inserção internacional de forma sustentável”. Com informações da Agência Brasil.