China reduz meta de crescimento para entre 4,5% e 5% em 2026

Da redação de LexLegal
A decisão da China de estabelecer uma meta de crescimento econômico entre 4,5% e 5% para 2026 indica uma mudança importante na estratégia econômica de Pequim. Depois de três anos fixando objetivos próximos de 5%, o governo optou por ampliar o intervalo da meta, sinalizando cautela diante de um cenário interno e externo mais incerto.
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O objetivo foi apresentado pelo primeiro-ministro chinês, Li Qiang, durante a abertura da sessão anual da Assembleia Nacional Popular (ANP), o principal órgão legislativo do país e um dos momentos políticos mais importantes do calendário institucional chinês.
No relatório de trabalho do governo apresentado aos cerca de 3 mil delegados da ANP, Pequim afirma que buscará atingir o crescimento projetado, mas reconhece explicitamente os desafios que a economia enfrenta.
“Embora reconheçamos as nossas conquistas, também temos plena consciência das dificuldades e desafios que enfrentamos”, afirma o documento oficial.
A mudança na forma de estabelecer a meta — agora em um intervalo entre 4,5% e 5% — reflete uma tentativa do governo de ganhar maior flexibilidade para conduzir a política econômica ao longo do ano.
Nos últimos três anos, o país vinha adotando metas mais rígidas de crescimento “em torno de 5%”. Em 2025, a economia chinesa conseguiu atingir exatamente esse nível de expansão.
Agora, ao admitir um intervalo ligeiramente inferior, Pequim sinaliza que o ritmo da economia pode enfrentar pressões adicionais em 2026.
Entre os fatores que explicam essa cautela está a prolongada crise no setor imobiliário, que há vários anos representa um dos principais motores da economia chinesa.
O mercado de construção civil e de desenvolvimento imobiliário enfrenta dificuldades desde o colapso de grandes incorporadoras e a redução da confiança dos compradores. Como esse setor possui forte efeito multiplicador sobre a atividade econômica — envolvendo aço, cimento, serviços financeiros e emprego — sua desaceleração tem impacto amplo no crescimento do país.
O próprio relatório do governo menciona um desequilíbrio considerado “acentuado” entre oferta e demanda dentro da economia chinesa.
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Enquanto a capacidade produtiva permanece elevada em diversos setores industriais, o consumo doméstico não cresce no mesmo ritmo, criando pressões deflacionárias e dificuldades para sustentar a expansão econômica.
O documento também reconhece que a economia chinesa atravessa um processo de transição estrutural.
Nas últimas décadas, o crescimento do país foi impulsionado principalmente por investimentos em infraestrutura, urbanização acelerada e expansão industrial voltada para exportações.
Agora, o governo tenta reposicionar o modelo econômico em direção a setores de maior valor agregado, inovação tecnológica e fortalecimento do mercado interno.
“Internamente, ainda enfrentamos diversos problemas e desafios, tanto antigos como novos”, afirma o relatório apresentado à Assembleia Nacional Popular.
Outro fator relevante para a mudança na meta de crescimento é o ambiente internacional mais instável.
O governo chinês destaca no documento que o comércio internacional enfrenta pressões crescentes e que o sistema global de livre comércio está sob ameaça.
Nos últimos anos, as relações comerciais entre China e Estados Unidos voltaram a se deteriorar com a ampliação de tarifas e medidas de restrição tecnológica.
As exportações chinesas para os Estados Unidos foram afetadas por tarifas impostas pelo presidente norte-americano Donald Trump, o que obrigou Pequim a buscar novos mercados e a diversificar seus destinos comerciais.
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Embora o país tenha ampliado suas exportações para outras regiões do mundo — especialmente para países da Ásia, da África e da América Latina — o cenário geopolítico permanece um fator de incerteza para a economia chinesa.
Ao definir a meta de crescimento em um intervalo mais flexível, o governo chinês também procura manter espaço para implementar reformas estruturais e políticas de estabilização financeira.
O relatório apresentado à ANP afirma que o objetivo é permitir ajustes econômicos e medidas de prevenção de riscos, especialmente no primeiro ano de um novo ciclo de planejamento.
“Ao propor estas metas, levamos em conta a necessidade de deixar algum espaço para ajustes estruturais, prevenção de riscos e reformas no primeiro ano deste período do plano quinquenal, de modo a estabelecer uma base sólida para alcançar melhores resultados nos próximos anos”, afirma o documento.
A sessão anual da Assembleia Nacional Popular deverá aprovar também diretrizes estratégicas que orientarão a política econômica chinesa até o final da década.
Entre os pontos centrais está o fortalecimento da economia doméstica e o avanço das ambições tecnológicas do país.
Sob a liderança do presidente Xi Jinping, a China busca consolidar sua posição como potência global em áreas estratégicas como inteligência artificial, semicondutores, energia limpa e tecnologia digital.
Essa estratégia envolve investimentos massivos em pesquisa, desenvolvimento industrial e autonomia tecnológica, especialmente diante das restrições impostas por países ocidentais ao acesso chinês a tecnologias avançadas.
Ao mesmo tempo, o governo tenta equilibrar essa agenda tecnológica com políticas destinadas a estimular o consumo interno, reduzir riscos financeiros e estabilizar setores em dificuldade.
Nesse contexto, a meta de crescimento entre 4,5% e 5% pode ser interpretada menos como sinal de fraqueza e mais como um ajuste estratégico diante de uma economia que atravessa um período de transformação estrutural.
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Para analistas internacionais, o movimento de Pequim indica uma tentativa de administrar expectativas e reconhecer que a fase de crescimento acelerado que marcou a economia chinesa nas últimas décadas está sendo substituída por um ciclo de expansão mais moderada, porém potencialmente mais sustentável.