Carros voadores devem iniciar operações em SP até 2027 – e prometem mudar o transporte urbano no Brasil

Carros voadores devem iniciar operações em SP até 2027 – e prometem mudar o transporte urbano no Brasil
Eve Holding capta US$ 230 milhões em operação estruturada no Brasil e nos EUA, com assessoria do Lefosse e Skadden/LexLegal
Publicado em 10/04/2025 às 2:30

Luciano Teixeira – São Paulo

A Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer voltada para soluções de mobilidade aérea urbana, apresentou nesta semana o modelo em escala real do eVTOL (veículo elétrico de decolagem e pouso vertical), durante evento em São Paulo. Popularmente conhecido como “carro voador”, o equipamento deve começar a operar comercialmente em até dois anos e São Paulo está entre as primeiras cidades do mundo a receber os voos inaugurais.

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“A equipe ainda está estudando os cenários, mas é muito possível que o Brasil, especialmente São Paulo, seja um dos primeiros locais de operação, ao lado de uma ou duas cidades nos Estados Unidos”, afirma o presidente e CEO da Embraer, Francisco Gomes Neto.

Com mais de 2.800 pedidos de compra realizados por 28 clientes em nove países, a Eve lidera o ranking global de intenções de aquisição desse novo modal de transporte. Segundo o presidente e CEO da Embraer, a empresa está confiante na viabilidade e no impacto que a tecnologia trará para os centros urbanos.

“Estamos muito animados com os eVTOLs. Acreditamos que eles vão transformar o transporte urbano nas grandes cidades. A expectativa é que o modelo entre em serviço até o final de 2027. A primeira fábrica será em Taubaté (SP). O Brasil vai sair na frente nessa inovação disruptiva”, afirma.

Tecnologia, infraestrutura e regulação: o tripé do futuro aéreo

Com autonomia de até 100 quilômetros, o eVTOL da Eve será capaz de pousar e decolar verticalmente de forma automatizada, o que facilita a operação e reduz o tempo e os custos de treinamento de pilotos. “Vai ser uma mudança significativa. Por exemplo, ir do Itaim a Guarulhos no fim da tarde pode levar até 3 horas de carro. Com um eVTOL, o percurso será feito em 15 minutos. O mesmo vale para outros trajetos urbanos, como do aeroporto JFK a Manhattan, em Nova York. É um salto na mobilidade aérea urbana”, destaca o CEO.

A operação da Eve mobiliza atualmente cerca de 700 engenheiros e é uma das maiores frentes de inovação dentro da Embraer. Cada unidade deverá ser vendida por um valor que deve ficar entre US$ 3 milhões a US$ 5 milhões. Os protocolos de intenção firmados até agora devem gerar US$ 14 bilhões em receita líquida nos próximos anos — o equivalente a cerca de R$ 83 bilhões na cotação atual.

“Temos cartas de intenção que somam esse valor. Mas é importante lembrar que ainda precisamos converter esses protocolos em pedidos firmes, e as entregas estão previstas para os próximos anos”, explica Gomes Neto.

Avanço regulatório será decisivo para o sucesso do eVTOL

Apesar do otimismo, a entrada do eVTOL no mercado depende de uma base regulatória bem estruturada. Segundo Roberta Andreoli, presidente da Comissão Especial de Direito Aeronáutico da OAB-SP, quatro pilares precisam avançar para viabilizar a operação segura do equipamento: certificação da aeronave, infraestrutura adequada (como vertiportos), licenciamento de pilotos e controle do tráfego aéreo.

“Desde 2023, a Ana já firmou cartas de intenção com autoridades da aviação civil de países como EUA, Reino Unido e União Europeia para alinhar parâmetros de certificação”, explica Andreoli. A base normativa brasileira será o RBAC 21, regulamento que já trata da certificação de aeronaves especiais no país.

Em relação à infraestrutura, a Anac publicou um alerta em 2022 para orientar operadores de aeródromos sobre adaptações necessárias para receber o eVTOL. “A norma RBAC 155, voltada a helipontos, será usada como ponto de partida para os vertiportos”, afirma Andreoli. Dois projetos brasileiros já participaram de um sandbox regulatório voltado ao tema, com validação da agência.

Além disso, uma consulta pública lançada em 2024 discute os critérios de habilitação de pilotos para esse tipo de aeronave, que, embora possa operar de forma autônoma, contará com piloto nos voos iniciais. Paralelamente, o Decea (Departamento de Controle do Espaço Aéreo) desenvolveu uma “concepção operacional” para garantir a integração dos eVTOLs com o tráfego aéreo tradicional.

Os desafios municipais e a necessidade de integração normativa

Para que os voos aconteçam nas cidades, será essencial a participação dos governos locais. “Os municípios têm papel importante, pois cabe a eles regulamentar o uso do solo e vetar sobrevoos em áreas sensíveis, como escolas, hospitais ou zonas de proteção ambiental”, lembra Andreoli.

Nesse cenário, a cooperação entre entes federativos e órgãos reguladores será fundamental para garantir segurança jurídica, previsibilidade e alinhamento institucional. “A Eve já trabalha junto à Anac e participa ativamente das consultas públicas. Historicamente, a Embraer tem bom histórico de certificação, o que deve acelerar o processo”, avalia Andreoli.

Para a advogada Roberta Andreoli, a mobilidade aérea urbana vai gerar um novo modelo de negócio, com redução do tempo de deslocamento e estímulo à integração modal. “A longo prazo, os eVTOLs poderão também transportar cargas leves e atuar como hubs de conexão com outros modais urbanos. Estamos falando do início de uma nova era”, afirma.

Impacto global e expansão internacional

A Embraer também mira a internacionalização de sua operação com o eVTOL. “Estamos avaliando a expansão para países como Polônia, Turquia, Índia e Estados Unidos”, afirmou o CEO da Embraer. A companhia assinou parcerias para ampliar a capacidade de produção global e posicionar o Brasil como protagonista da nova geração de transporte aéreo sustentável.

Segundo Gomes Neto, a Eve já está “muito adiantada” no processo de certificação junto aos reguladores. “Não vejo nenhuma dificuldade pré-estabelecida. A empresa tem um histórico de excelência e uma relação sólida com a Anac. Estamos confiantes”, afirmou.

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A previsão é que os testes com os primeiros protótipos em Gavião Peixoto (SP) ocorram até 2026, com início das operações em 2027. O modelo de negócios ainda não está fechado, mas há intenção de operar inicialmente em trajetos urbanos estratégicos, com foco na redução de tempo e na experiência do usuário.

Com uma estrutura em escala real já apresentada ao público e uma base regulatória em evolução, o eVTOL da Eve Air Mobility deixa de ser apenas uma promessa e passa a ocupar espaço no planejamento de cidades, empresas e operadores do setor jurídico, que precisarão acompanhar as transformações legais e práticas dessa nova forma de mobilidade.

SÃO PAULO WEATHER