Cadê Elas? O apagamento feminino nas cadeiras de poder das legaltechs

Cadê Elas? O apagamento feminino nas cadeiras de poder das legaltechs
Segundo dados globais da McKinsey, apenas 16% dos cargos de liderança em tecnologia são ocupados por mulheres/Freepik
Publicado em 17/04/2025 às 8:38

Priscila Spadinger*

Quantas mulheres você conhece que lideram legaltech no Brasil? E no mundo?

Se a sua resposta foi “pouquíssimas”, você não está só. Eu também tenho dificuldade de preencher os dedos de uma mão. Em meio ao boom da inovação jurídica, o protagonismo feminino segue sendo sufocado por uma engrenagem sutil — e por isso mesmo, extremamente eficiente — de silenciamento.

Estava em uma reunião junto a uma das CEOs de uma legalfintech que está voando e tentamos enumerar as mulheres que estão nessa posição para, juntas, buscarmos investir mais nelas e incentivar que buscassem mais espaço, mas foi muito difícil enumerá-las, razão pela qual me senti na obrigação de escrever esse artigo nesse momento.

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Chamemos de “abafamento masculino”: um fenômeno tão estrutural quanto cultural, que vai além da exclusão. É o não-dito, o “não-te-convidaram”, o “não-sei-se-é-o-momento”, o “vamos com calma”. É o barulho do progresso abafando a presença feminina nas cadeiras de liderança das empresas de tecnologia jurídica.

Os dados não mentem — mas são quase sempre ignorados

Segundo dados globais da McKinsey, apenas 16% dos cargos de liderança em tecnologia são ocupados por mulheres. Em startups, o número é ainda mais constrangedor: menos de 10% das fundadoras são mulheres. E quando afunilamos para o universo das legaltechs, a situação é vergonhosamente silenciosa.

Estudos não oficiais, como os mapeamentos do Legaltech Hub, da AB2L e da ABA Women of Legal Tech, indicam que menos de 15% das legaltechs ao redor do mundo contam com mulheres na liderança executiva. No Brasil, estima-se que apenas 12% das legaltechs tenham mulheres como CEOs, CTOs ou fundadoras. Isso mesmo: menos de 2 em cada 10.

Mas ninguém fala disso com a seriedade que merece. Porque no mundo jurídico-tecnológico, onde se valoriza a inovação, a narrativa dominante ainda é feita por vozes masculinas. E as mulheres? Quando estão presentes, ocupam o papel de “token”: aquela única figura feminina no board, como selo de diversidade, mas sem poder decisório real.

Clube do Bolinha 5.0

O universo das legaltechs — apesar do discurso moderno — ainda funciona como uma startup do Vale do Silício dos anos 90. Fechado, masculino e clubista. A diferença é que hoje o machismo não grita, ele sussurra. Ele “elogia demais”, “pede paciência”, “gosta muito da sua visão”, mas não te dá o pitch, nem o cheque. Ou pior: te convida para eventos e painéis como media partner, mas nunca como keynote.

As rodadas de investimento? Majoritariamente masculinas. Os conselhos? Também. Mentorias? Entre amigos, claro. Networking? O happy hour é depois do futebol, ou da call às 23h, quando você está cuidando dos filhos.

Estamos falando de gaslighting corporativo em sua forma mais polida e eficaz.

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Mulheres que resistem (e existem)

Apesar do cenário adverso, há quem resista — e inove.

Eu mesma, Priscila Spadinger, estou CEO de uma Holding que investe em startups legaltechs e faço todos os dias, ativamente, uma busca séria por bons negócios liderados por mulheres e adoraria vê-las mais em posições estratégicas assim.

Nomes como Cat Moon, referência em legal design e inovação na Vanderbilt Law School; Shannon Salter, à frente do Civil Resolution Tribunal no Canadá; e no Brasil, empreendedoras como Celina Salomão, fundadora da LegalTech Forelegal, provam que, quando temos espaço, criamos soluções impactantes, sustentáveis e socialmente mais justas.

Mas a exceção não pode continuar sendo usada como desculpa para manter a regra.

O que queremos? Cadeiras de verdade.

Chega de tapinha nas costas. Chega de convites para “compor a mesa”. Nós não queremos palco: queremos mesa de decisão, equity e espaço para errar e aprender, como os homens sempre tiveram.

É hora de parar de romantizar o esforço hercúleo das mulheres que “conseguem chegar lá” sozinhas. Porque mérito, sem estrutura de apoio, é só sorte com muito burnout.

A inovação não será completa sem diversidade real

Se o futuro do Direito está sendo escrito por algoritmos, dados e tecnologia, precisamos garantir que ele não repita os vícios do passado. Um mercado jurídico-tech sem diversidade de gênero é um mercado que inova em cima das mesmas desigualdades de sempre.

Quebrar essa lógica exige coragem — inclusive dos homens que dizem apoiar a diversidade. Chegou a hora de tirar o pé de cima da porta.

E para quem acha que estamos “exagerando”, deixo um dado simples: se continuarmos no ritmo atual, a paridade de gênero na liderança global será atingida em 131 anos.

A gente não tem todo esse tempo.

E nem deveria precisar pedir mais.

*Priscila Spadinger é CEO da holding Aleve LegalTech Ventures S/Aadvogada especializada em M&A e investidora anjo.

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