Brasileira que criou ONG após voluntariado em Angola transforma chinelos em ferramenta de inclusão

Da redação de LexLegal
A biomédica Betty Mae Agi tinha 18 anos quando, ao lado da irmã, Brenda, decidiu trocar a festa de formatura por trabalho voluntário em Angola. Filha de pai moçambicano e mãe brasileira, nascida em Brasília e moradora de Anápolis (GO), ela atuava no campo das parasitoses e viu de perto a realidade de crianças descalças expostas a esgoto a céu aberto. Era 2010, e, segundo ela, o tema não recebia atenção — apesar de comprometer saúde, segurança e sobrevivência.
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De volta ao Brasil, as irmãs divulgaram no Orkut um álbum que unia ballet e chinelos para arrecadar 250 pares e enviá-los a Angola. A meta foi atingida em dois dias, com doações vindas de 17 estados. Junto delas, chegaram pedidos de ajuda da Índia e do Haiti, mostrando que o problema era muito maior.
“Na época, segundo dados da ONU, 300 milhões de crianças viviam descalças por falta de opção. E isso é um problema de saúde, um problema de dignidade, de mobilidade, de segurança. Imagina no meio da guerra civil e você descalço. Você corre quanto? Você pode ir para onde”, disse Betty.
Do gesto inicial nasceu a ONG Compaixão Internacional, que já distribuiu 60 mil pares de chinelos em 23 países. Para as comunidades atendidas, ela explica, o chinelo é mais que um item básico.
“O par de chinelos hoje, para o público que a gente atende, não é só aquele pedaço de borracha que a gente tem vergonha de usar no Brasil, de repente. Ele é um meio de transporte. É o que vai delimitar se uma criança vai entrar na escola ou não”.
Ela chama atenção para o recorte racial: estima que 80% das pessoas sem sapatos sejam pessoas não brancas. A desigualdade, diz, exige enfrentamento imediato. “É urgente a gente resolver isso. Porque a gente fala que a humanidade está caminhando para o futuro, mas está caminhando como? Alguns estão com carro elétrico, outros, estão descalços”.
Além de biomédica, Betty é gestora de projetos, palestrante e autista. O diagnóstico veio ainda na infância, em meio ao incentivo dos pais para que as filhas buscassem propósito e relevância em suas trajetórias. A mudança para Anápolis aos 15 anos, para cursar faculdade, foi marcada por dificuldades sensoriais e ansiedade social.
“Sempre fomos intencionais no que estávamos fazendo, porque tem um custo muito alto”, afirmou. Ela conta que, durante anos, ouviu que seu problema era não olhar nos olhos — e passou por longas terapias para contornar o desconforto. A virada veio quando encontrou uma forma própria de se conectar ao mundo. “Mas o nosso maior ganho foi olhar para os pés das pessoas. Hoje eu continuo não olhando propriamente a cara das pessoas, mas eu olho para os pés e é isso que está me fazendo caminhar”.
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A caminhada a levou ao pódio do reality de palestras The Best Speaker Brasil, vencido no dia 29. No palco, enfrentou luzes, sons e estímulos que antes causariam crise sensorial. Falou sobre autismo com naturalidade e foi acolhida pelo público. “O que me aterra nessa terra é um propósito. Talvez se fosse outra coisa, sem propósito, eu não conseguiria”, concluiu. Com informações da Agência Brasil.