Brasileira que criou ONG após voluntariado em Angola transforma chinelos em ferramenta de inclusão

Brasileira que criou ONG após voluntariado em Angola transforma chinelos em ferramenta de inclusão
Betty Mae Agi, biomédica e fundadora da ONG Compaixão Internacional, iniciou o trabalho após voluntariado em Angola/Betty Mae Agi/Arquivo pessoal
Publicado em 07/12/2025 às 18:00

Da redação de LexLegal

A biomédica Betty Mae Agi tinha 18 anos quando, ao lado da irmã, Brenda, decidiu trocar a festa de formatura por trabalho voluntário em Angola. Filha de pai moçambicano e mãe brasileira, nascida em Brasília e moradora de Anápolis (GO), ela atuava no campo das parasitoses e viu de perto a realidade de crianças descalças expostas a esgoto a céu aberto. Era 2010, e, segundo ela, o tema não recebia atenção — apesar de comprometer saúde, segurança e sobrevivência.

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De volta ao Brasil, as irmãs divulgaram no Orkut um álbum que unia ballet e chinelos para arrecadar 250 pares e enviá-los a Angola. A meta foi atingida em dois dias, com doações vindas de 17 estados. Junto delas, chegaram pedidos de ajuda da Índia e do Haiti, mostrando que o problema era muito maior.

“Na época, segundo dados da ONU, 300 milhões de crianças viviam descalças por falta de opção. E isso é um problema de saúde, um problema de dignidade, de mobilidade, de segurança. Imagina no meio da guerra civil e você descalço. Você corre quanto? Você pode ir para onde”, disse Betty.

Do gesto inicial nasceu a ONG Compaixão Internacional, que já distribuiu 60 mil pares de chinelos em 23 países. Para as comunidades atendidas, ela explica, o chinelo é mais que um item básico.

“O par de chinelos hoje, para o público que a gente atende, não é só aquele pedaço de borracha que a gente tem vergonha de usar no Brasil, de repente. Ele é um meio de transporte. É o que vai delimitar se uma criança vai entrar na escola ou não”.

Ela chama atenção para o recorte racial: estima que 80% das pessoas sem sapatos sejam pessoas não brancas. A desigualdade, diz, exige enfrentamento imediato. “É urgente a gente resolver isso. Porque a gente fala que a humanidade está caminhando para o futuro, mas está caminhando como? Alguns estão com carro elétrico, outros, estão descalços”.

Além de biomédica, Betty é gestora de projetos, palestrante e autista. O diagnóstico veio ainda na infância, em meio ao incentivo dos pais para que as filhas buscassem propósito e relevância em suas trajetórias. A mudança para Anápolis aos 15 anos, para cursar faculdade, foi marcada por dificuldades sensoriais e ansiedade social.

“Sempre fomos intencionais no que estávamos fazendo, porque tem um custo muito alto”, afirmou. Ela conta que, durante anos, ouviu que seu problema era não olhar nos olhos — e passou por longas terapias para contornar o desconforto. A virada veio quando encontrou uma forma própria de se conectar ao mundo. “Mas o nosso maior ganho foi olhar para os pés das pessoas. Hoje eu continuo não olhando propriamente a cara das pessoas, mas eu olho para os pés e é isso que está me fazendo caminhar”.

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A caminhada a levou ao pódio do reality de palestras The Best Speaker Brasil, vencido no dia 29. No palco, enfrentou luzes, sons e estímulos que antes causariam crise sensorial. Falou sobre autismo com naturalidade e foi acolhida pelo público. “O que me aterra nessa terra é um propósito. Talvez se fosse outra coisa, sem propósito, eu não conseguiria”, concluiu. Com informações da Agência Brasil.

SÃO PAULO WEATHER