Brasil enfrenta insegurança energética em meio a novo choque global do petróleo

Da redação de LexLegal
O conflito no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz — por onde passa 20% do petróleo mundial — provocaram um terceiro choque do petróleo que atinge diretamente a economia brasileira. Em entrevista à Agência Brasil, o ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, avalia que o país vive um cenário de insegurança energética.
Leia também: Justiça do Trabalho muda pagamento de custas para GRU Digital a partir de abril
A vulnerabilidade é reflexo da interrupção de projetos de ampliação do refino (processo de transformação do óleo bruto em combustíveis) ocorrida na última década, o que obriga o Brasil a importar entre 20% e 30% do diesel consumido internamente.
A crise atual deve redesenhar a geografia do comércio de energia. Com o bloqueio das rotas tradicionais do Oriente Médio, países como Brasil, Canadá e Guiana tornam-se peças-chave na oferta de óleo bruto para os mercados asiáticos em 2026.
Segundo Gabrielli, os Estados Unidos utilizam intervenções e sanções para tentar controlar esse mercado paralelo, mas a tendência é uma redução do peso do dólar nas transações, com o Irã já exigindo pagamentos em yuan. “O mercado de petróleo vai mudar, tanto em relação ao dólar, quanto à redução do peso do Oriente Médio”, afirma o ex-executivo (Fonte: Ineep/Agência Brasil).
O gargalo do refino e o papel das importadoras
Getty ImagesO Brasil exporta óleo bruto, mas carece de parques industriais modernos para produzir derivados suficientes. Gabrielli destaca que, desde 1980, apenas a Refinaria Abreu e Lima (RNEST) foi inaugurada, enquanto outros cinco projetos foram travados.
Esse vácuo abriu espaço para centenas de importadoras que operam de forma especulativa, trazendo combustível apenas quando os preços externos favorecem o lucro. “Para aumentar a segurança energética, tem que aumentar a capacidade de refino. O Brasil, a partir da Operação Lava Jato, inibiu a construção de novas refinarias”, sustenta Gabrielli (Fonte: Agência Brasil).
Transição energética e a promessa do hidrogênio
Apesar da crise dos fósseis, Gabrielli lançou o livro “Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro”, defendendo que o hidrogênio verde será viável para descarbonizar a indústria pesada por volta de 2035. A transição, contudo, não permite o abandono imediato do petróleo, sob risco de colapso econômico. Para o especialista, o hidrogênio deve ser produzido próximo ao consumo para viabilizar combustíveis sintéticos, como o querosene de aviação, sem depender do petróleo. A decisão de investir nessas novas matrizes precisa ser consolidada agora para garantir a autonomia do país na próxima década.
A situação no Estreito de Ormuz serve como um alerta para a necessidade de políticas de Estado que protejam o mercado doméstico de turbulências externas. Enquanto o preço nas bombas sofre pressão internacional, o governo busca soluções de curto prazo para evitar o desabastecimento.
Veja também: Jair Bolsonaro recebe alta e cumprirá prisão domiciliar com tornozeleira
A longo prazo, o desafio brasileiro reside em retomar o plano de expansão das refinarias e acelerar a infraestrutura para o hidrogênio, evitando que o país continue refém de conflitos geopolíticos que encarecem a logística global de energia.