Bolsonaro e a política do autoengano: como a propaganda sustenta o conflito permanente

José Renato Ferraz da Silveira*

Jair Bolsonaro segue no centro da vida política brasileira não por apresentar um projeto consistente de país, mas por dominar como poucos a arte da propaganda baseada no ressentimento, na vitimização e no conflito permanente. Mesmo fora do Palácio do Planalto, ele continua a pautar debates, mobilizar afetos e organizar sua base política por meio de uma narrativa que transforma qualquer crítica em perseguição e qualquer cobrança em injustiça. O bolsonarismo não depende de governo. Ele depende de encenação.
Esse método ajuda a entender por que Bolsonaro permanece relevante mesmo após derrotas eleitorais, investigações e desgaste institucional. Sua força não está no convencimento racional, mas na capacidade de oferecer sentido emocional a frustrações reais. A propaganda, nesse caso, não atua como mentira grosseira, mas como convite ao autoengano coletivo, em que seguidores passam a interpretar o mundo a partir de um roteiro já pronto.
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O filósofo e crítico social Eric Hoffer resumiu esse mecanismo ao afirmar que “a propaganda não engana as pessoas; ela apenas as ajuda a enganarem a si mesmas”. Para Hoffer, o indivíduo não é uma vítima passiva da manipulação. Ele participa ativamente do processo porque encontra no autoengano uma forma de aliviar angústias, justificar crenças e preservar identidades. O bolsonarismo opera exatamente nesse terreno.
A lógica é simples e eficiente. A realidade política e social, complexa e contraditória, é reduzida a uma narrativa binária. De um lado, o líder injustiçado. Do outro, um conjunto difuso de inimigos que pode ser adaptado conforme a conveniência: imprensa, Supremo Tribunal Federal, sistema eleitoral, universidades, artistas, governadores, organismos internacionais. O conteúdo desses ataques muda, mas a estrutura narrativa permanece a mesma.
Manipular a opinião pública, nesse modelo, passa pelo controle da narrativa. Repetição exaustiva, criação de bodes expiatórios e exploração de emoções como medo e raiva são elementos centrais. Não se trata de convencer pelo argumento, mas de saturar o ambiente com versões simplificadas dos fatos até que elas pareçam naturais. Ao longo do século XX, regimes democráticos e autoritários recorreram a esse repertório com sucesso. O bolsonarismo apenas atualiza essas técnicas para a era digital.
Hoje, algoritmos, Big Data e desinformação direcionam o debate público de forma segmentada. Cada grupo recebe a mensagem que reforça suas crenças. A política deixa de ser um espaço comum de discussão e passa a funcionar como um conjunto de bolhas emocionais. Nesse ambiente, o cidadão não é apenas receptor da propaganda. Ele se torna seu multiplicador, compartilhando conteúdos que confirmam sua visão de mundo.
A teoria do discurso de Patrick Charaudeau ajuda a compreender esse processo. Para o autor, a comunicação política funciona como um teatro em que três instâncias interagem: a política, a midiática e a cidadã. A instância cidadã, longe de ser neutra, reage, interpreta e é coconstruída pelo discurso que recebe. No bolsonarismo, essa instância é mobilizada de forma contínua para atuar como defesa ativa do líder, muitas vezes contra fatos verificáveis.
A propaganda, nesse contexto, não é mera divulgação de informações. Ela é uma técnica de manipulação simbólica. Seu objetivo não é ampliar a autonomia do sujeito, mas orientar condutas e moldar percepções, operando muito mais no campo do afeto do que da razão crítica. A realidade é recortada, distorcida e hierarquizada para produzir narrativas que parecem inevitáveis.
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Com isso, o indivíduo deixa de ser tratado como cidadão reflexivo e passa a ser visto como massa emocionalmente mobilizável. O debate sobre políticas públicas, estruturas econômicas ou responsabilidades institucionais é substituído por uma dramaturgia constante. Importa menos o que é dito e mais como é encenado.
No caso de Jair Bolsonaro, essa encenação tem um eixo central: a vitimização. O ex-presidente se apresenta de forma recorrente como alguém perseguido por forças poderosas e injustas. Essa narrativa cumpre uma função política clara. Ela desloca responsabilidades, relativiza falhas de gestão e transforma críticas legítimas em ataques pessoais. O conflito não é um efeito colateral. Ele é o próprio combustível da estratégia.
Outro elemento central dessa propaganda é o uso simbólico do corpo. A exposição recorrente de cirurgias, internações e imagens de fragilidade física não é apenas um dado pessoal. Ela é incorporada à narrativa política como prova de sacrifício e resistência. O sofrimento individual passa a funcionar como escudo contra cobranças políticas. Questionar o líder, nesse enquadramento, vira sinônimo de insensibilidade ou crueldade.
O corpo adoecido se transforma em instrumento de comunicação política. Não para gerar empatia universal, mas para reforçar a imagem de heroísmo diante de um “sistema” supostamente implacável. A crítica racional perde espaço para a comoção. O debate público se empobrece.
Esse tipo de propaganda não elimina a liberdade formal de escolha. Ele a esvazia por dentro. As opções continuam existindo, mas são condicionadas por narrativas emocionais que delimitam o que pode ou não ser considerado aceitável. A mentira não precisa ser absoluta. Basta ser repetida, dramatizada e emocionalmente eficaz.
A força do bolsonarismo revela menos sobre a genialidade de sua propaganda e mais sobre as fragilidades do ambiente informacional e democrático. Em um cenário de frustração social, descrédito institucional e comunicação acelerada, narrativas simples e afetivas encontram terreno fértil.
Enfrentar esse quadro não é tarefa exclusiva da política ou da imprensa. Exige educação midiática, pluralismo informacional e disposição para o pensamento crítico. Pensar dá trabalho. Autoenganar-se é mais confortável. A propaganda bolsonarista funciona porque oferece esse conforto em forma de identidade, conflito e pertencimento.
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Enquanto a política continuar sendo tratada como espetáculo permanente, figuras como Jair Bolsonaro seguirão ocupando o centro do palco. Não pelo que propõem, mas pela habilidade de transformar ressentimento em narrativa e fragilidade em heroísmo.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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