Bolívia: direita lidera pesquisas para presidência após 19 anos

Bolívia: direita lidera pesquisas para presidência após 19 anos
O alto índice de votos nulos, brancos e indecisos, somado à dificuldade em medir a votação nas áreas rurais, adiciona imprevisibilidade ao pleito/Freepik
Publicado em 05/08/2025 às 13:30

Da redação de LexLegal

A Bolívia se aproxima das eleições gerais marcadas para 17 de agosto em meio a uma crise de fragmentação política sem precedentes. A disputa presidencial será marcada pela divisão da esquerda, que governa o país desde 2006, e pela liderança da direita nas intenções de voto. O cenário aponta para uma possível ruptura com o ciclo iniciado por Evo Morales e o Movimento ao Socialismo (MAS), que pode deixar de ser a principal força política do país.

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O megaempresário Samuel Medina, da coalizão Alianza Unidad, lidera as pesquisas e é apontado como o favorito. Na outra ponta, o presidente do Senado Andrónico Rodríguez, que já foi um dos principais aliados de Evo Morales e rompeu com o MAS, não ultrapassa os 6% das intenções de voto, conforme levantamento do instituto Unitel. A disputa presidencial ocorre simultaneamente à eleição de 130 deputados e 36 senadores, em um país com cerca de 12 milhões de habitantes e que faz fronteira com o Brasil pelos estados do Acre, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Racha no MAS pode encerrar ciclo de 19 anos

O MAS, partido de orientação socialista que chegou ao poder com Evo Morales em 2006 e voltou ao governo em 2020 com Luis Arce, enfrenta hoje sua mais grave crise interna. O próprio Arce desistiu da reeleição, com baixa popularidade e sob críticas dentro do partido. Como sucessor, indicou o ex-ministro Eduardo De Castillo, que amarga apenas 2% nas pesquisas. A decisão foi criticada por lideranças de base e aprofundou a cisão interna.

Evo Morales, impedido de disputar a eleição presidencial por já ter cumprido três mandatos, passou a pedir o voto nuloe criticar os antigos aliados, alegando estar sendo alvo de perseguição política. Ele responde a uma acusação de estupro de menor, que nega veementemente. Em junho, bloqueios em rodovias em defesa de sua candidatura paralisaram parte do país por 15 dias, com pelo menos quatro mortes registradas.

O sociólogo Clayton Mendonça Cunha Filho, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), avalia que a insistência de Evo em se apresentar como único líder legítimo do MAS implodiu a frente ampla que sustentava o partido. “Na ambição de ser o candidato eterno, Evo Morales implodiu o partido”, afirmou à Agência Brasil. Segundo ele, o MAS, uma legenda composta por tendências marxistas, sindicatos e grupos indígenas, corre o risco de não atingir a cláusula de barreira de 3% dos votos nacionais, o que poderia levá-lo à perda de representação no Parlamento.

Fragmentação da esquerda

Além de Andrónico Rodríguez e Eduardo De Castillo, outros nomes da esquerda também tentaram se viabilizar como alternativas. É o caso de Eva Copa, ex-presidente do Senado e prefeita da cidade de El Alto, que criou o partido Morena para disputar a presidência. No entanto, ela retirou sua candidatura em julho, alegando que a nova legenda ainda não tinha maturidade nacional suficiente.

Andrónico Rodríguez, hoje filiado ao partido Alianza Popular, também vem sofrendo ataques públicos de Evo, que o chamou de “traidor”. Ex-líder cocaleiro da mesma região de Morales, ele chegou a ocupar o terceiro lugar nas pesquisas, mas viu seu apoio encolher rapidamente.

Direita avança e deve levar disputa ao segundo turno

Com a base governista dividida e sem um nome forte da esquerda, os principais candidatos da direita avançam. Segundo pesquisa publicada pelo jornal El Deber, Samuel Medina e Jorge “Tuto” Quiroga, da Alianza Libertad y Democracia, somam juntos cerca de 47% das intenções de voto. Como a legislação boliviana exige 50% mais um dos votos, ou ao menos 40% com vantagem de dez pontos sobre o segundo colocado, é provável que a eleição vá ao segundo turno, marcado para 19 de outubro.

Clayton Cunha Filho explica que tanto Medina quanto Quiroga representam uma direita tradicional, sem ligação com movimentos de extrema-direita. Medina, por exemplo, já disputou a presidência duas vezes, tendo sido ministro nos anos 1990, durante uma das primeiras ondas de privatizações no país. Já Quiroga, ex-vice de Hugo Banzer, foi presidente interino entre 2001 e 2002 e, em 2019, atuou como porta-voz internacional do governo de Jeanine Áñez.

Estado Plurinacional em xeque

Desde a promulgação da nova Constituição em 2009, a Bolívia é reconhecida como um Estado Plurinacional, que incorpora a diversidade étnica e cultural dos povos indígenas. Esse modelo foi uma das marcas do governo de Evo Morales e do MAS.

Para o professor Cunha Filho, a chegada da direita ao poder poderá representar um teste de resistência para esse arranjo institucional. Contudo, ele considera improvável uma reversão estrutural, já que o novo presidente deverá depender de alianças para governar. “Vai ser a primeira vez que um presidente eleito sob esse novo modelo do Estado Plurinacional não vai ter participado da construção desse Estado”, afirmou.

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Apesar das incertezas, o especialista avalia que o sistema pode sair fortalecido, ao deixar de ser visto como um projeto exclusivo do MAS. “Sendo otimista, pode ser uma consolidação desse modelo”, concluiu. Com informações da Agência Brasil.

SÃO PAULO WEATHER