“Blackface de cabelo” reacende debate sobre racismo e fantasia no carnaval

“Blackface de cabelo” reacende debate sobre racismo e fantasia no carnaval
O debate sobre o “blackface de cabelo” evidencia que o carnaval, embora seja espaço de celebração e liberdade, continua sendo também um território de disputa simbólica/Tânia Rêgo/Agência Brasil
Publicado em 18/01/2026 às 13:00

Da redação de LexLegal

O uso de perucas, penteados afro e cabelos crespos como adereço por pessoas brancas durante o carnaval voltou ao centro do debate sobre racismo e apropriação cultural. A prática, chamada de “blackface de cabelo” pela página Samba Abstrato, é apontada como uma forma contemporânea de reprodução de estereótipos raciais e de desrespeito à estética negra. Para os ativistas, trata-se de uma continuidade simbólica de fantasias como “nega maluca” ou de caricaturas indígenas, que transformam identidades historicamente discriminadas em objetos de chacota.

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A expressão foi criada pela própria Samba Abstrato, página que há quase dez anos utiliza linguagem cômica e satírica para discutir racismo estrutural no carnaval a partir do ponto de vista de pessoas negras. Segundo seus integrantes, o problema não está em valorizar a cultura afro-brasileira, mas em utilizá-la de forma superficial, descontextualizada e sem compromisso com a luta antirracista que envolve essas identidades.

O conceito de blackface surgiu nos Estados Unidos, quando artistas brancos pintavam o rosto de preto e exageravam traços físicos para representar pessoas negras de forma estereotipada e degradante. No Brasil, embora o contexto histórico seja distinto, a lógica de ridicularização se mantém quando elementos ligados à identidade negra são transformados em fantasia descartável. O chamado “blackface de cabelo” segue essa mesma lógica ao tratar o cabelo crespo como acessório cômico, sem considerar a história de discriminação que acompanha essa estética.

A Samba Abstrato afirma que a crítica é ainda mais necessária porque o cabelo afro foi, durante décadas, tratado como sinônimo de feiura ou inadequação social. Mulheres negras foram humilhadas, afastadas de vagas de emprego e pressionadas a alisar os fios para se enquadrar em padrões eurocêntricos de beleza.

“Durante o ano inteiro, mulheres advogam a estética branca, usam cabelo liso, extremamente alinhado, considerado ‘bonito’, ‘adequado’, representativo do que elas são – o que está tudo bem – mas aí, quando chega o carnaval, querem se fantasiar de mulher negra? Isso é caricato”, afirma a diretoria da Samba Abstrato, em resposta coletiva à Agência Brasil.

“Enquanto mulheres negras são despedidas do emprego, discriminadas, impedidas de trabalhar, seja pelo crespo natural ou em outro estilo, como tranças, enquanto lutamos pela nossa vida real, outras fazem da nossa estética [negra] fantasia. Chega domingo de carnaval, último dia, tomam banho, voltam a alisar”.

Para os ativistas, essa contradição revela como a estética negra ainda é vista como algo exótico e temporário, aceitável apenas no ambiente da festa, mas rejeitada na vida cotidiana. A crítica também se estende ao que chamam de embranquecimento do carnaval, especialmente no papel das passistas, muitas vezes ocupadas por mulheres brancas, mesmo quando não dominam o samba ou utilizam adereços que simulam cabelos crespos.

Essa dinâmica, segundo o professor Juarez Tadeu de Paula Xavier, diretor da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design da Unesp, integra um processo mais amplo de apagamento da população negra dos espaços de visibilidade social.

“Existe um aniquilamento que é físico, os dados da letalidade de jovens negros mostram isso, e existe esse apagamento dos negros dos espaços de visibilidade”, afirma.

Ele explica que a negação da beleza negra faz parte de um projeto histórico que vem desde o pós-abolição.

“É a mesma proposta do pós-abolição, de negar a presença negra na construção desse país. Os negros fundaram as bases do Estado brasileiro em uma situação muito adversa”.

Apesar de hoje o carnaval ser fortemente moldado pela televisão e pelo mercado do entretenimento, Xavier lembra que a festa carrega marcas profundas da cultura negra. As escolas de samba surgiram como espaços de resistência e organização coletiva de populações excluídas socialmente, sobretudo no período posterior ao fim formal da escravidão.

Para ele, combater o racismo no carnaval exige políticas públicas amplas e ações educativas permanentes. Nesse contexto, ganha relevância a campanha “Sem Racismo, o Carnaval Brilha Mais”, lançada pelo Ministério da Igualdade Racial.

“Quando você tem uma campanha com a marca do governo federal, está em evidência uma ação política contra o racismo em espaços onde podem surgir essas manifestações”, destaca.

A campanha prevê a distribuição de material educativo a partir deste sábado (17), alertando sobre práticas como injúria racial, fantasias ofensivas e outras formas de violência simbólica. A iniciativa também busca conscientizar sobre a diferença entre homenagem cultural e apropriação racista.

Para o secretário de Combate ao Racismo do Ministério da Igualdade Racial, Tiago Santana, o carnaval já avançou em muitos aspectos, mas ainda enfrenta resistências.

“Não cabem mais fantasias depreciativas sobre a cultura negra, religiões afro, personagens negras, muito menos mulheres negras. Isso não dá mais. Não é esse tipo de cultura de carnaval que o brasileiro quer”, disse.

Segundo ele, a proposta é enfrentar tanto as agressões explícitas quanto o uso da estética negra como objeto de zombaria. O ministério também reforça os canais de denúncia, como o Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, e a Ouvidoria do próprio Ministério da Igualdade Racial.

O professor Juarez Xavier ressalta que registrar ocorrência policial também é fundamental. “É necessário tipificar, processar, para que as pessoas respondam pela sua ação”, frisou.

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O debate sobre o “blackface de cabelo” evidencia que o carnaval, embora seja espaço de celebração e liberdade, continua sendo também um território de disputa simbólica. A crítica não busca limitar a criatividade da festa, mas lembrar que liberdade estética não pode se confundir com a reprodução de desigualdades históricas e práticas racistas.

SÃO PAULO WEATHER