Bets e influenciadores: Uma parceria que custa caro à sociedade

Patricia Punder*
Apesar de serem legais no Brasil, o caso das bets — plataformas de apostas esportivas online — levanta um sério debate moral que merece atenção. A legalização das apostas, consolidada pela regulamentação que permite o funcionamento de empresas estrangeiras mediante o pagamento de tributos e o cumprimento de exigências mínimas, não elimina os dilemas éticos envolvidos nessa prática.
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Embora estejam dentro da legalidade, as bets promovem uma atividade que pode se transformar em vício, explorando psicologicamente os usuários e alimentando comportamentos compulsivos, especialmente entre os mais vulneráveis social e economicamente. A participação de influenciadores digitais na CPI das bets em andamento escancarou esta realidade. Ou seja, apesar de ser legal no Brasil, será que a atuação das bets é moral?
O marketing agressivo, onipresente nas redes sociais e em eventos esportivos, transforma o ato de apostar em algo banal, quase uma extensão do entretenimento esportivo. Celebridades e influenciadores digitais, muitos deles com grande apelo entre jovens e adolescentes, promovem as casas de apostas como se fossem inofensivas, omitindo os riscos associados.
Um estudo recente da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), revelou que 81% dos universitários brasileiros já apostaram em plataformas de bets, com 72,8% participando regularmente. O estudo também identificou uma correlação entre o comportamento de apostas e o desenvolvimento de transtornos mentais como ansiedade, depressão e estresse financeiro.
Essa banalização contribui para a normalização de comportamentos que no longo prazo, podem resultar em prejuízos financeiros severos, dívidas, problemas familiares e até transtornos mentais como ansiedade e depressão. Em muitos casos, o apostador não percebe que está se envolvendo em uma atividade com alto potencial destrutivo até que as consequências já sejam irreversíveis. Apesar dos avisos indicando se tratar de uma diversão e não um meio de ganhar dinheiro, na prática não é o que tem acontecido. Muito menos a indicação de “jogar com responsabilidade” ou até que menores de 18 anos não podem fazer uso das plataformas de bets. Infelizmente, a realidade tem sido outra.
O apelo das bets está fortemente relacionado a um sonho ilusório de enriquecimento rápido. Em um país com altos índices de desigualdade e desemprego, muitos brasileiros veem nas apostas uma chance de mudança de vida, ignorando as estatísticas desfavoráveis e os mecanismos de controle que favorecem as casas de apostas.
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A esperança de lucro fácil, alimentada por campanhas publicitárias que glamurizam ganhos pontuais, mascara a realidade de que a imensa maioria dos jogadores perde dinheiro. Assim, embora o Estado arrecade com tributos sobre essas atividades e de muitos influenciadores ficarem milionários com as bets, é moralmente questionável que se lucre sobre a fragilidade de uma população muitas vezes desesperada por alternativas de renda. Sim, a influência dos influenciadores digitais que muitas vezes possuem milhões de seguidores e expõem um estilo de vida milionário, faz aflorar no inconsciente de muitos brasileiros que quem trabalha é “burro”, que o dinheiro deveria vir fácil e sem esforço, como a vida destes influenciadores é demonstrada nas redes sociais.
Outro ponto preocupante é a influência que as bets exercem sobre o esporte. Há indícios de manipulação de resultados, fraudes e envolvimento de atletas em esquemas ilícitos para favorecer determinadas apostas.
Esse cenário põe em risco a integridade das competições e mina a confiança do público no esporte como um espetáculo limpo e justo. Ainda que nem todas as plataformas estejam envolvidas em práticas duvidosas, a falta de fiscalização rigorosa e de mecanismos de controle eficientes abre espaço para irregularidades que comprometem o sistema como um todo.
Devemos lembrar do passado onde a Fórmula 1 era praticamente promovida por empresas de cigarro e bebidas. Empresas que eram legalizadas e ganhavam muito dinheiro com produtos que podem gerar outros vícios, como o tabagismo e o alcoolismo. E o que foi feito? Banir o patrocínio e as marcas destas empresas de atuarem na fórmula 1. Apesar de serem legais, as empresas e marcas foram questionadas sobre a questão moral de promover suas marcas para praticamente todo o mundo.
Portanto, ainda que legalizadas, as apostas esportivas online representam um problema moral relevante. O Estado, ao permitir e tributar essas atividades, assume uma postura ambígua: por um lado, regula e arrecada, por outro, falha em proteger adequadamente a população dos efeitos nocivos desse mercado.
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A legalidade, nesse caso, não é sinônimo de legitimidade ética. É fundamental que haja uma discussão mais profunda e crítica sobre o papel social das bets, bem como uma responsabilização mais clara das empresas e dos promotores desse sistema. A moralidade não se limita ao que está na lei, mas ao impacto real que determinada prática causa nas vidas das pessoas e na estrutura social.
*Patricia Punder é CEO da Punder Advogados.