Banco do Brics quer 30% da carteira em moedas locais até 2026 para reduzir dependência do dólar

Da redação de LexLegal
O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco do Brics, planeja elevar para 30% a parcela de seus financiamentos denominados em moedas locais até 2026, como parte de uma estratégia para reduzir a dependência do dólar e mitigar riscos cambiais nas operações de longo prazo. Atualmente, cerca de 25% da carteira da instituição já está lastreada em moedas como o real, a rupia e o yuan.
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O plano, anunciado pela presidente do banco, Dilma Rousseff, representa um movimento importante rumo à desdolarização gradual do financiamento multilateral entre países em desenvolvimento — especialmente em um cenário de tensões comerciais e geopolíticas crescentes, como o recente anúncio do presidente norte-americano Donald Trump de aplicar tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros.
A ampliação do uso de moedas locais, segundo especialistas, responde não apenas à necessidade de tornar os empréstimos mais acessíveis, mas também ao ambiente global de incerteza, em que decisões da política monetária de países desenvolvidos impactam diretamente o custo do crédito em economias emergentes.
“Financiamentos denominados em moedas locais ajudam a mitigar os riscos cambiais relacionados a moedas avançadas. Você não controla a política monetária desses países. Quando sua moeda se desvaloriza e os juros sobem, o setor privado acaba pressionado no balanço financeiro”, explica Dilma.
Alternativa ao sistema centrado no dólar
O avanço dessa estratégia é visto por analistas como uma alternativa concreta ao sistema financeiro internacional dominado por moedas fortes, especialmente em contextos de volatilidade. O próprio NDB estima que a adoção de moedas locais permite taxas de juros mais baixas e maior previsibilidade no pagamento de dívidas, o que é crucial para projetos de infraestrutura e energia de longo prazo.
Nesse contexto, a política do banco se mostra especialmente relevante após as recentes medidas protecionistas anunciadas por Trump, que classificou como “antiamericanas” iniciativas que reduzam o papel do dólar em transações internacionais. A ameaça de sanções tarifárias contra países do Brics, como o Brasil, expõe os limites do atual modelo de interdependência financeira e reforça a urgência de alternativas mais soberanas.
Desenvolvimento com menor exposição externa
Desde sua fundação, em 2014, o NDB já aprovou 122 projetos que somam cerca de US$ 40 bilhões, sendo US$ 7 bilhões destinados ao Brasil, com US$ 4 bilhões efetivamente desembolsados até agora. A busca por uma carteira parcialmente atrelada a moedas locais faz parte do esforço do banco para oferecer financiamento mais compatível com as realidades econômicas e fiscais dos países-membros.
“Acesso à moeda internacional nem sempre é adequado para financiamento de longo prazo. Um projeto de hidrelétrica, por exemplo, leva 30 anos para ser pago. Nesse período, os países enfrentam riscos cambiais que não controlam”, disse Dilma ao justificar a mudança estratégica.
Brics como polo de financiamento alternativo
Composto por 11 membros — Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Emirados Árabes, Bangladesh, Egito, Argélia, Uzbequistão e Colômbia —, o NDB quer se consolidar como uma plataforma de financiamento menos suscetível à volatilidade dos mercados globais e às pressões geopolíticas das potências ocidentais.
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Ao fomentar o uso de moedas locais e ampliar o acesso a crédito em condições mais estáveis, o banco se alinha ao discurso de autonomia financeira dos países do Sul Global. A meta de 30% da carteira em moedas locais é, nesse sentido, mais do que técnica: trata-se de uma sinalização política de fortalecimento de um modelo multipolar de desenvolvimento.