Avós da Praça de Maio identificam 140° neto sequestrado pela ditadura

Avós da Praça de Maio identificam 140° neto sequestrado pela ditadura
Segundo as Avós da Praça de Maio, o bebê nasceu em cativeiro, nas mãos do regime militar, em uma das chamadas maternidades clandestinas/Télam/archivo
Publicado em 08/07/2025 às 6:30

Da redação de LexLegal

A organização argentina Avós da Praça de Maio anunciou nesta segunda-feira (7) a localização do neto número 140, filho de militantes sequestrados durante a ditadura militar que governou o país entre 1976 e 1983. A revelação foi feita em Buenos Aires, com a presença da presidente da entidade, Estela de Carlotto, de 94 anos, em uma coletiva de imprensa marcada pela emoção e pela reafirmação da luta por memória e justiça.

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Trata-se de um homem nascido em 17 de abril de 1977, no centro clandestino de detenção La Escuelita, na cidade de Bahía Blanca, a cerca de 630 quilômetros da capital argentina. Ele é filho de Graciela Alicia Romero e Raúl Eugenio Metz, militantes políticos que até hoje constam como desaparecidos.

Segundo as Avós da Praça de Maio, o bebê nasceu em cativeiro, nas mãos do regime militar, em uma das chamadas maternidades clandestinas — locais improvisados dentro de centros de tortura e repressão onde mulheres grávidas davam à luz sob vigilância militar. Após o nascimento, as crianças eram sistematicamente separadas das mães e entregues a outras famílias, muitas vezes ligadas às Forças Armadas.

“Com a restituição do neto 140 confirmamos, mais uma vez, que nossos netos e netas estão entre nós e que, graças à perseverança e ao trabalho constante desses 47 anos de luta, continuarão aparecendo”, destacou a organização em nota. “O apoio da sociedade, que segue fornecendo informações sobre possíveis filhos e filhas de pessoas desaparecidas e acolhendo quem tem dúvidas sobre sua origem, demonstra que essa busca não pode ser solitária”.

A busca por esse neto começou ainda na época do desaparecimento do casal Metz Romero. Os pais de Graciela e Raúl iniciaram a procura, e a causa foi mantida viva por Adriana, filha mais velha do casal e irmã do homem agora reencontrado.

A descoberta teve início com uma denúncia anônima feita às Avós da Praça de Maio, o que levou à abertura de uma investigação em conjunto com a Comissão Nacional pelo Direito à Identidade (CoNaDI) e a Unidade Especializada para Casos de Apropriação de Crianças durante o Terrorismo de Estado (UFICANTE).

O processo avançou com a coleta de documentos, testemunhos e cruzamentos de dados. Em abril de 2025, o possível neto foi localizado e aceitou voluntariamente fazer o teste genético no Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG). O resultado, divulgado na sexta-feira (4), confirmou que ele é, de fato, filho biológico de Graciela Romero e Raúl Metz.

“Durante o final de semana, ambas as famílias foram notificadas, o que hoje nos permite comunicar ao público que encontramos o neto 140″, diz a nota. “Cada restituição revela de forma irrefutável que a ditadura executou um plano de extermínio, que cometeu um genocídio (…). Que houve um plano sistemático de apropriação de menores, condenando essas crianças a viverem na mentira e suas famílias biológicas a buscá-las indefinidamente”.

ditadura argentina é considerada uma das mais violentas da América Latina. Estima-se que mais de 30 mil pessoas foram sequestradas, torturadas e assassinadas, sem registro oficial de paradeiro. Uma de suas práticas mais brutais foi a apropriação de bebês nascidos em cárcere, arrancados de suas mães e entregues a outras famílias — muitas vezes sob novos nomes, registros e identidades falsas.

Desde 1977, as Avós da Praça de Maio vêm liderando a luta pela identificação desses filhos e netos desaparecidos, usando a ciência e o direito como ferramentas. O Banco Nacional de Dados Genéticos, fundado em 1987, foi essencial para confirmar a identidade de 140 desses casos.

A busca, no entanto, está longe de terminar. A organização estima que ainda há cerca de 300 jovens adultos que podem ter sido sequestrados ao nascer e vivem sem saber sua verdadeira origem.

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A persistência dessas mulheres tornou-se um símbolo da defesa dos direitos humanos no mundo. O trabalho das Avós já inspirou leis, ações judiciais e iniciativas de memória histórica em diversos países. A luta por justiça continua, agora com mais uma família reunida após quase cinco décadas de silêncio e ausência.


SÃO PAULO WEATHER