Aumento da procura chinesa por gelatina medicinal coloca jumento em risco de extinção

Animal símbolo do sertão nordestino, jumento pode desaparecer do território brasileiro nos próximos anos por conta da demanda chinesa por colágeno medicinal produzido com a pele do animal

Aumento da procura chinesa por gelatina medicinal coloca jumento em risco de extinção
Jumentos em área de caatinga no Nordeste: população da espécie caiu 94% no Brasil entre 1996 e 2025, pressionada pela exportação de peles para a China/Proteção Animal Mundial
Publicado em 30/06/2025 às 8:00

Da redação de LexLegal

A pressão comercial sobre os jumentos, animais historicamente associados à vida no sertão nordestino, acendeu um novo alerta. Durante o 3º Workshop Jumentos do Brasil, realizado em Maceió (AL) e encerrado neste sábado (28), especialistas apontaram o risco concreto de extinção da espécie no Brasil, impulsionado pelo aumento do abate para exportação de pele, destinada à produção da gelatina medicinal ejiao, consumida sobretudo na China.

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Domesticado há cerca de 7 mil anos, o jumento (Equus asinus) cumpre funções econômicas e simbólicas na história da humanidade. No Brasil, em especial nas zonas rurais do semiárido, os asininos foram fundamentais no transporte de carga e no apoio à agricultura familiar. Além da importância prática, carregam também peso cultural: na tradição cristã, o jumento é lembrado como o animal que teria conduzido Jesus Cristo em sua entrada em Jerusalém.

Mas os números mostram um cenário de colapso populacional. De acordo com a Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, o país perdeu 94% do seu rebanho de asininos entre 1996 e 2025. A situação é agravada pela ausência de uma cadeia reprodutiva estruturada, como já alertava um estudo da USP publicado em 2021 na Revista Brasileira de Pesquisa Veterinária e Ciência Animal. Segundo o levantamento, no ritmo atual de abate, a população local de jumentos pode desaparecer.

A origem da crise é o aumento global da demanda pelo ejiao, tradicional medicamento da medicina chinesa, produzido com colágeno extraído da pele do jumento. Segundo relatório de 2024 da ONG The Donkey Sanctuary, a procura cresceu 160% entre 2016 e 2021, exigindo o abate de 5,6 milhões de animais apenas em 2021. A projeção é de 6,8 milhões até 2027, pressionando rebanhos em diversos países da América Latina e África.

“O comércio, segundo a Donkey Sanctuary, ameaça não apenas o rebanho no Brasil, mas em todo o mundo”, destaca o relatório. “A situação do Brasil e do mundo em relação ao jumento é assustadora”, resumiu o professor Adroaldo Zanella, da USP, durante o evento.

Além da queda populacional, há relatos de violações sistemáticas ao bem-estar animal. Pesquisa publicada por brasileiros no periódico Animals, em março de 2025, mostra que o abate para atender à demanda chinesa expõe jumentos a maus-tratos, abandono, má-nutrição e transporte irregular. “Todas as vezes que animais são transportados dentro e através de fronteiras nacionais, existe um risco de que esses animais levarão, e consequentemente, espalharão, doenças que são danosas aos humanos (zoonoses) e aos animais”, alerta o relatório da Donkey Sanctuary.

Impacto ambiental, social e econômico

O desaparecimento da espécie traria também impactos sociais severos. O jumento é essencial para o trabalho de pequenos agricultores, que dependem do animal para acesso a áreas de plantio de difícil locomoção. “São, ainda, excelentes animais de criação para companhia, pois, embora sejam grandes, são muito dóceis e inteligentes”, diz a veterinária Patrícia Tatemoto, da Donkey Sanctuary Brasil.

A gestação de 12 meses e a maturação para abate em cerca de três anos tornam inviável uma cadeia industrial eficiente e de baixo custo. Mesmo assim, o uso das peles como insumo cosmético ou medicinal cresce, inclusive com relatos de venda clandestina no Brasil.

Estudos internacionais já apontam alternativas tecnológicas ao ejiao tradicional. Entre elas, a produção laboratorial de colágeno, via fermentação de precisão, surge como alternativa ética e sustentável. “Estudos já apontam alternativas tecnológicas promissoras […] Investir nessas inovações é essencial para proteger a espécie e promover práticas mais sustentáveis, inclusive sob a perspectiva socioeconômica”, afirma o engenheiro agrônomo Roberto Arruda, doutor em Economia Aplicada pela USP.

Propostas de restrição e mobilização popular

Frente ao cenário, alguns países africanos, como Quênia, Tanzânia e Nigéria, adotaram proibições ou restrições ao abate de jumentos. No Brasil, duas propostas de lei – uma na Assembleia Legislativa da Bahia e outra na Câmara dos Deputados – pretendem proibir o abate da espécie para fins comerciais.

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Além disso, campanhas online com milhares de assinaturas pedem a interrupção do comércio da pele de jumentos no país. Enquanto isso, organizações de proteção animal e pesquisadores alertam que, sem ação imediata, o Brasil poderá perder um de seus animais mais emblemáticos da história rural e simbólica do território.


SÃO PAULO WEATHER