Ataque que matou líder iraniano abre cenário inédito e eleva risco regional

Da redação de LexLegal
A morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em ataques aéreos conduzidos por Estados Unidos e Israel inaugura um novo cenário na política internacional recente. Pela primeira vez, um chefe máximo de um Estado foi morto diretamente por uma ofensiva militar de outro país, o que altera o patamar do confronto e amplia o grau de imprevisibilidade no Oriente Médio.
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A ofensiva, realizada na madrugada de sábado, encerra o ciclo de confrontos limitados e inaugura uma guerra aberta, ainda que sem declaração formal. Explosões atingiram Teerã e outras dezenas de cidades iranianas, deixando ao menos 555 mortos e mais de 700 feridos, segundo o Crescente Vermelho. Em resposta, o Irã lançou mísseis contra Israel e bases militares dos EUA em países do Golfo, como Catar, Bahrein e Kuwait.
O episódio ocorre em meio a um cenário internacional já fragilizado. Mercados financeiros reagiram com forte volatilidade, enquanto o fechamento do Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, acendeu alertas sobre energia, inflação e crescimento global. A decisão iraniana de interromper a navegação por razões de segurança amplia o impacto econômico do conflito.
O discurso oficial de Washington e Tel Aviv sustenta que o ataque teve caráter preventivo, com o objetivo de impedir o avanço do programa nuclear iraniano. Ainda assim, o momento escolhido levanta questionamentos. Negociações mediadas por Omã estavam em curso, e o próprio chanceler do país havia indicado, horas antes da ofensiva, que um acordo para limitar o enriquecimento de urânio estava próximo.
“O que vemos é uma lógica de incerteza organizada. O sistema internacional ainda funciona, mas sem mecanismos capazes de garantir estabilidade duradoura. A gestão Trump 2.0 desmonta, a cada crise, a arquitetura construída pelos próprios Estados Unidos no pós-guerra”, afirma José Renato Ferraz da Silveira, professor de Economia e Relações Internacionais da UFSM.
O impacto da morte de Khamenei vai além do simbolismo. A estratégia adotada, conhecida como “decapitação”, atinge o núcleo do regime iraniano, mas não garante seu colapso. Ao contrário, tende a reforçar setores mais duros do poder. A Guarda Revolucionária Islâmica emerge como principal fiadora da continuidade institucional, com capacidade de repressão interna e projeção regional.
A atenção do governo americano aos mercados não é circunstancial. A escalada militar ocorre em um ambiente de elevada sensibilidade financeira, com risco imediato de volatilidade nas bolsas, pressão sobre o petróleo e impacto nos custos de energia e combustíveis.
Movimentos abruptos nesses preços tendem a se refletir rapidamente na inflação e no humor do consumidor, ampliando o custo político interno da guerra. Mesmo sem uma agenda eleitoral imediata, a Casa Branca monitora de perto esses efeitos, ciente de que instabilidade econômica prolongada costuma corroer apoio político e limitar a margem de manobra do governo.
A resposta iraniana também revela um cálculo estratégico. Ao atingir Israel, bases americanas e alvos em países do Golfo, Teerã busca ampliar o custo regional do conflito e pressionar aliados históricos dos EUA. A estratégia remete à lógica adotada pelo Iraque em 1991, quando ataques a Israel tentaram romper a coalizão internacional, ainda que sem sucesso.
No atual contexto, a reação iraniana produziu efeito inverso. As monarquias do Golfo, que vinham ensaiando uma reaproximação com Teerã, passaram a condenar abertamente os ataques. O gesto compromete anos de diplomacia regional e reforça o isolamento político do Irã no curto prazo.
“O fato de terem conseguido lançar centenas de mísseis e drones durante o dia, apesar de centenas de jatos estarem constantemente a bombardear o país, e a taxa de sucesso ter aumentado em comparação com a última vez, mostra uma melhoria clara e drástica do comando e controle iraniano, bem como das capacidades de lançamento e da qualidade dos mísseis”, afirma Rodolfo Laterza, mestre em Segurança Pública, pesquisador e analista em geopolítica, segurança e conflitos militares.
Internamente, o Irã enfrenta uma combinação explosiva de crise econômica, inflação acima de 40% ao ano e desgaste político. Sanções internacionais, reforçadas desde 2018, pressionam a moeda local e corroem o poder de compra da população. Protestos estudantis e manifestações populares, reprimidos com violência nos últimos meses, voltaram a ganhar fôlego antes da ofensiva externa.
Esse contexto reforça a leitura de que o conflito externo se conecta à dinâmica doméstica. “O regime tende a buscar sua sobrevivência política, mobilizando todos os seus recursos institucionais e de segurança. Ao mesmo tempo, pressões externas e tensões internas podem acelerar um processo de desgaste estrutural”, avalia Ferraz da Silveira. “Se essas forças se intensificarem simultaneamente, não se pode descartar um colapso, com risco de fragmentação interna”, completa.
Outro fator relevante é o impacto doméstico para o presidente americano. Parte significativa de sua base eleitoral sempre criticou o envolvimento dos EUA em guerras prolongadas no Oriente Médio. Uma escalada militar sem resultados rápidos pode aprofundar fissuras internas e alimentar críticas dentro do próprio campo político do governo.
Do ponto de vista jurídico, Israel e Estados Unidos tentaram enquadrar a operação como um “ataque preventivo”. O conceito, porém, não encontra respaldo claro no direito internacional. Historicamente, esse tipo de justificativa foi utilizado para legitimar intervenções controversas, como a invasão do Iraque em 2003, posteriormente desacreditada.
A morte de Khamenei, no entanto, não implica colapso automático do regime iraniano. “Ao contrário do que muitos no Ocidente pensam, a República Islâmica do Irã não é um regime político personalista. O assassinato de Khamenei não causará o colapso imediato desse regime. Para que isso aconteça, seria necessário eliminar a sua liderança principal e secundária, seguido por uma significativa revolta popular. Nenhuma destas situações aconteceu ainda”, avalia Laterza.
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Se Washington decidir manter ou ampliar a ofensiva, o objetivo deixa de ser apenas militar e passa a ser político: enfraquecer ou derrubar o regime da República Islâmica. A magnitude da mobilização militar americana na região sugere que essa possibilidade não foi descartada.
Os possíveis cenários
Nesse contexto, quatro cenários principais se desenham para o futuro do Irã. O primeiro é o fortalecimento da ala mais dura do regime, especialmente da Guarda Revolucionária Islâmica, que tende a reagir com repressão interna e ações externas de alto impacto simbólico. Nesse caso, o regime sobreviveria, possivelmente de forma ainda mais autoritária.
O segundo cenário envolve a ascensão de setores reformistas, que poderiam tentar negociar uma saída política e reduzir a duração do conflito. Essa hipótese é vista com menor resistência por países vizinhos, mas enfrenta oposição interna tanto da linha-dura quanto de grupos que defendem a ruptura total do sistema.
Uma terceira possibilidade é o retorno de forças ligadas à antiga monarquia, representadas por Reza Pahlavi. Apesar do apoio de parte da diáspora iraniana, essa alternativa não é consensual dentro do país e carrega forte resistência histórica desde a Revolução de 1979.
O quarto e mais instável cenário é o de fragmentação interna. O Irã reúne uma população numerosa, diversa e marcada por tensões étnicas e regionais. Em um ambiente de guerra e vácuo de poder, conflitos internos, movimentos separatistas e disputas armadas poderiam levar a um processo de desintegração prolongado, semelhante ao observado no Iraque após 2003.
O elo entre crise interna e duração da guerra
A duração do conflito externo está diretamente ligada a esses desdobramentos internos. Uma transição política controlada poderia encurtar a guerra. Já um colapso institucional tende a prolongar a instabilidade por meses ou anos, com efeitos imprevisíveis para toda a região.
“Os EUA e Israel também subestimaram o Irã, não prevendo o nível de retaliação e coordenação dos ataques de mísseis balísticos e de drones pelos iranianos. Se começaram por dizer ‘alguns dias’ como objetivo da operação militar, agora já estão a falar de semanas”, afirma Laterza.
Além disso, permanecem incertezas sobre a real capacidade militar iraniana após os ataques e sobre o apoio externo que o país ainda pode mobilizar. Grupos aliados na região estão enfraquecidos, e o equilíbrio de forças se tornou mais opaco desde os últimos confrontos.
Poucas horas antes da ofensiva, ainda havia tentativas diplomáticas em curso, mediadas por Omã. Isso reforça a leitura de que a guerra não foi inevitável. Houve uma escolha política clara pelo uso da força, considerada conveniente por atores específicos em Washington, Tel Aviv e Teerã.
“Houve meses de preparação e manobras diplomáticas de dissimulação que apenas permitiram tempo para preparação e planejamento de ataques sistemáticos ao Irã, além de conseguirem uma sobrevida política diante de crises políticas internas que afetam a governabilidade”, diz Laterza.
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Para Ferraz da Silveira, o conflito revela o esgotamento das categorias clássicas da política internacional. “Conceitos como ordem estável, blocos fixos ou cooperação estruturante já não explicam o mundo atual. Vivemos um sistema de alta tensão permanente, no qual a previsibilidade deixou de ser a regra”, avalia.