Ataque dos EUA à Venezuela reforça articulação da extrema-direita na região

Da redação de LexLegal
O ataque militar dos Estados Unidos contra a Venezuela integra uma estratégia mais ampla do presidente Donald Trump para impulsionar redes transnacionais de extrema-direita na América Latina e enfraquecer governos que não se alinham a essa agenda ideológica. A avaliação é da professora Clarissa Nascimento Forner, do Departamento de Relações Internacionais da **Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Leia também: Invasão dos EUA à Venezuela muda o tabuleiro da geopolítica sul-americana
Segundo a pesquisadora, a aproximação entre Washington e governos de viés mais radical à direita não é pontual nem improvisada, mas parte de um projeto político em curso. “Por outro lado, [há] uma ofensiva clara a governos que se colocam na contramão dessas ideologias de extrema-direita”, afirmou.
Para Clarissa Forner, a operação militar na Venezuela reforça uma lógica que vem se consolidando desde o início do trumpismo. “Isso reafirma esse aspecto estratégico que a gente observa no Trumpismo, que é a articulação das redes transnacionais de extrema-direita. Portanto, fortalecendo a extrema-direita na região e enfraquecendo possíveis governos ou partidos de oposição”, explicou.
Na avaliação da professora, a ação também recoloca os Estados Unidos como um fator de instabilidade regional e internacional. Ela destaca que a intervenção tende a produzir efeitos internos duradouros no território venezuelano, sem oferecer uma perspectiva real de estabilização política. “Pensando no território venezuelano, agora a tendência é que a gente observe esse cenário de instabilidade interna necessariamente e que dificilmente vai se solucionar com um período de intervenção ou de administração militar pela parte norte-americana, conforme colocado pelo Trump na coletiva”, disse, ao comentar o pronunciamento do presidente norte-americano neste sábado (3).
Clarissa Forner observa ainda que o governo Trump opera a partir da criação deliberada de cenários de crise, que passam a ser utilizados como justificativa para ações que extrapolam os limites da legalidade internacional. “Então [há] o próprio uso da força e esse processo de sequestro do presidente Maduro e da sua esposa como sendo um exemplo desse tipo de ação que escapa a qualquer tipo de norma de legalidade e sendo legitimada por essa ideia de que há uma crise em curso, de que há um combate ao crime”, afirmou.
Esse padrão de atuação, segundo a especialista, não se restringe ao caso venezuelano e pode sinalizar novos episódios semelhantes na região. “Fica muito em aberto, no discurso da coletiva de imprensa, que a Venezuela não é o último caso, o último dos ataques possíveis, que há uma perspectiva de que outros casos possam vir a acontecer na região”, alertou.
A ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela marca um novo capítulo na história de intervenções diretas de Washington na América Latina. O precedente mais recente ocorreu em 1989, quando tropas norte-americanas invadiram o Panamá e capturaram o então presidente Manuel Noriega, acusado de envolvimento com o narcotráfico.
De maneira semelhante, o governo dos EUA acusa o presidente venezuelano Nicolás Maduro de liderar o suposto cartel De Los Soles, embora não tenha apresentado provas públicas. Especialistas em tráfico internacional de drogas questionam a existência e a estrutura dessa organização.
Veja também: A reação do mundo ao ataque dos EUA à Venezuela
Antes da operação, o governo Trump oferecia uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levassem à prisão de Maduro. Para críticos da ação, a ofensiva tem motivações geopolíticas mais amplas, como o afastamento da Venezuela da influência de potências consideradas adversárias globais dos Estados Unidos, como China e Rússia, além do interesse estratégico sobre o petróleo venezuelano, que concentra as maiores reservas comprovadas do mundo.