Argentina entre o ajuste fiscal e a pobreza: o futuro incerto do governo Milei

José Renato Ferraz da Silveira*

A Argentina é um caso paradigmático na História Econômica Mundial. Um país que já foi um dos mais ricos do planeta – mais do que a França e que a Alemanha -, e hoje luta contra a pobreza que castiga mais de 57% da população Argentina. E isso equivale a 27 milhões de pessoas.
Pululam casos de desnutrição infantil que está causando estragos na saúde da população argentina. Na Argentina, todos os dias, um milhão de crianças vão dormir sem ter jantado. O número aumenta para 1,5 milhão se levarmos em conta o número de crianças no país que não comem as quatro refeições diárias. Esses dados vêm da Oitava Pesquisa Rápida conduzida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
O país da carne e o maior ajuste fiscal da Humanidade
No início do século XX, a Argentina exportava carne bovina, especialmente para a Grã-Bretanha. Grande parte dessa riqueza foi obtida por essas exportações. Hoje, um número crescente de pessoas no país não tem condições de comer carne bovina.
Leia também: Por que fim do incentivo fiscal ao setor de eventos pode resultar em disputas judiciais?
No “país da carne”, a vendedora de frutas e verduras em Buenos Aires, Sandra Boluch diz que “temos alguns contêineres nos fundos, onde o lixo é descartado e, quando você vai com uma caixa vê 20 pessoas vindo para ver o que podem levar como prato de comida para a mesa delas”.
“A verdade é que é algo muito difícil, muito triste, porque há muitas pessoas e muitos idosos”, complementa Boluch.
O governo do ultraliberal Javier Milei promove um brutal corte de gastos públicos. Suspendeu obras públicas e repasses para as províncias, cortou despesas com pensões, salários e mais de 30 mil empregos e retirou subsídios e transporte.
Tais cortes de gastos geraram o primeiro superávit na Argentina em 15 anos. O mal a ser cortado era a espiral inflacionária e o remédio era o reequilíbrio das contas públicas. O Fundo Monetário Internacional espera que a Argentina cresça 5% em 2025. “Milei, um ‘outsider’ da política, sem estrutura partidária nem experiência, conseguiu uma tolerância social para o que o próprio define com orgulho como “o maior ajuste fiscal da história da humanidade”.
Tais feitos “extraordinários” fizeram que a Ordem dos Economistas do Brasil, entidade que atua na difusão do conhecimento econômico pelo Brasil, desse ao presidente da Argentina, Javier Milei, o prêmio de “Economista do ano de 2025”. A entrega da honraria deve ocorrer oficialmente em agosto.
Apesar do prêmio e dos contínuos elogios da imprensa brasileira nas medidas de austeridade severa (impulsionando na melhora das finanças do Estado), estudo feito no mês de fevereiro revela que a pobreza na Argentina está próxima de 60% em comparação com os 40% do ano anterior.
Tempos felizes em 2025: o pior já passou
O episódio de quarta feira (12) que reuniu aposentados, críticos do governo e torcidas de futebol, em Buenos Aires, demonstram que a insatisfação cresce em todo país, perda de confiança em Milei e as pessoas não suportam mais essa situação dramática de aprofundamento da pobreza, perda de compra, piora da qualidade de vida.
A pergunta-chave é se Milei prosseguirá com seus planos de reforma e os duros cortes de gastos para que apresentem resultados rápidos e positivos para o mercado? Parece que sim.
É só lembrarmos que Javier Milei começou o segundo ano de governo agradecendo aos argentinos “pelo comovedor sacrifício de 2024”, prometendo “tempos felizes em 2025” porque “o pior já passou”. Passou?
Outra questão importante é que o desfecho da crise argentina terá influência sobre a percepção internacional de diversas questões importantes para o Brasil. Principalmente para o ano que vem: ano de eleições.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
Mais análises de José Renato Ferraz da Silveira:
Trump, Zelensky e as lições do passado: um jogo de poder à beira do caos…
A sombra do passado: ultradireita avança na Alemanha e reacende alertas na Europa
Por que o acordo para o fim da guerra avança sem a Ucrânia na mesa de negociações?