ANS inclui novos medicamentos para lúpus em cobertura obrigatória dos planos

ANS inclui novos medicamentos para lúpus em cobertura obrigatória dos planos
Inclusão de novos medicamentos pela ANS garante cobertura para pacientes de lúpus em planos de saúde, mas desigualdade de acesso no SUS ainda preocupa especialistas/Freepik
Publicado em 21/09/2025 às 9:00

Da redação de LexLegal

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) aprovou, nesta semana, a inclusão de dois medicamentos no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, tornando obrigatória a cobertura dos tratamentos para pacientes com lúpus que possuam planos de saúde. A medida entra em vigor no próximo dia 3 de novembro e deve beneficiar cerca de 2 mil pessoas em todo o país.

Os remédios incorporados são o anifrolumabe e o belimumabe, indicados para casos de lúpus eritematoso sistêmico em pacientes adultos que apresentam episódios recorrentes da doença, mesmo após uso da terapia padrão. Essa é a primeira vez que medicamentos exclusivos para lúpus passam a ser de cobertura obrigatória. Em 2024, o belimumabe já havia sido incorporado, mas restrito a pacientes com nefrite lúpica, complicação renal associada à enfermidade.

“Essas inclusões são muito significativas, pois o lúpus é uma doença complexa, que não tem cura. Se temos no país opções de medicamentos que possibilitam o controle da doença e que garantem uma boa qualidade de vida para o paciente, isso precisa estar disponível para o consumidor”, destacou Wadih Damous, diretor-presidente da ANS.

Repercussão entre especialistas

A decisão foi comemorada pela Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), que participou das consultas públicas e dos debates que antecederam a aprovação. Durante o Congresso Brasileiro de Reumatologia, realizado em Salvador, o reumatologista Odirlei Andre Monticielo, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e coordenador da comissão científica de LES (Lúpus Eritematoso Sistêmico) da SBR, afirmou:

“Foram demandas legítimas. Estas são medicações que têm indicação de bula para uso para lúpus eritematoso sistêmico. Tem evidências científicas que demonstraram o benefício no controle da atividade de doença, permitindo reduzir glicocorticoide ao longo do tempo. Isso traz vários benefícios para os pacientes que têm essa doença crônica e inflamatória, que envolve múltiplos órgãos e sistemas.”

O médico defendeu ainda que o acesso seja ampliado para o Sistema Único de Saúde (SUS): “Conseguimos garantir oportunidade de acesso a pacientes que têm convênio, mas a gente ainda não tem o mesmo acesso para pacientes que têm somente o Sistema Único de Saúde, e isso cria uma certa desigualdade neste acesso.”

O presidente da SBR, José Eduardo Martinez, também avaliou a decisão como um marco: “Essa é uma doença que, por muito tempo, teve carência de novos remédios. A gente sempre trabalhou com remédios médios e muito antigos.”

O impacto para os pacientes

O lúpus é uma doença autoimune e crônica, sem cura, que provoca inflamações capazes de comprometer tecidos e órgãos. Afeta, principalmente, mulheres entre 20 e 45 anos e é mais frequente em pessoas negras e em regiões de forte incidência solar. Os sintomas incluem dores articulares, lesões cutâneas e fadiga persistente. Em casos graves, pode evoluir para inflamações em rins, pulmões e coração.

A artesã Regiane Araújo Pacheco, 40 anos, de Salvador, relatou sua experiência. Ela conviveu com dores desde a infância e só em 2009 recebeu o diagnóstico correto. Em 2016, começou a usar o belimumabe como parte de um protocolo de pesquisa. “Foi um divisor de águas para minha melhora e para a minha qualidade de vida, que era de muita dor”, disse.

Desigualdade no acesso e desafios futuros

Embora a medida da ANS represente uma conquista para quem tem planos de saúde, especialistas alertam que milhares de pacientes dependentes do SUS continuam sem acesso a essas terapias. A expectativa da SBR é que a decisão abra caminho para discussões com o Ministério da Saúde e a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS), a fim de ampliar o fornecimento.

Atualmente, a SBR estima que entre 150 mil e 300 mil brasileiros convivam com lúpus eritematoso sistêmico. A chegada de novas opções terapêuticas é vista como essencial para reduzir o uso de corticoides e ampliar as chances de qualidade de vida.

SÃO PAULO WEATHER