Análise: EUA e Israel atacam o Irã e transformam ameaça em guerra aberta no Oriente Médio

José Renato Ferraz da Silveira*

Durante semanas, o conflito esteve descrito como uma hipótese. Um risco calculado. Uma ameaça usada como instrumento de pressão. Agora, já não é mais retórica. Os ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel ao Irã transformaram em fato aquilo que vinha sendo tratado como possibilidade. A tragédia anunciada deixou de ser previsão e passou a ser realidade.
Crises internacionais raramente explodem de forma súbita. Elas amadurecem. Dão sinais. Produzem alertas técnicos, análises diplomáticas e sucessivos pedidos de cautela. No caso iraniano, esses sinais estavam à vista. A escalada verbal, o esvaziamento gradual da diplomacia e a naturalização da ameaça militar criaram um ambiente em que a guerra deixou de ser um tabu e passou a ser uma opção explícita.
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O ataque confirmado neste sábado marca a ruptura definitiva desse equilíbrio instável. Ao lançar operações de combate em larga escala, Washington e Tel Aviv não apenas atingiram alvos militares e instalações estratégicas. Redefiniram o patamar do conflito e abriram um ciclo de confrontação cujo alcance é difícil de mensurar.
A resposta iraniana foi imediata. Mísseis balísticos foram lançados contra Israel e bases americanas no Oriente Médio. Países do Golfo relataram interceptações. Civis morreram. Escolas foram atingidas. Supermercados esvaziaram. A população correu para abrigos. O conflito, que até então orbitava gabinetes diplomáticos, passou a ocupar o cotidiano de milhões de pessoas.
A lógica que conduziu a esse desfecho não é nova. A política externa americana sob Donald Trump sempre combinou pressão máxima, linguagem agressiva e a instrumentalização da força como método de negociação. A diplomacia deixou de ser um processo gradual de construção de confiança e passou a operar sob ameaça explícita. Negociar passou a significar aceitar condições sob risco de destruição.
Do lado iraniano, o discurso oficial insistia na via diplomática, mas dentro de limites claros. Teerã aceitava negociar, não capitular. A assimetria de poder, no entanto, tornou a mesa de negociações um espaço cada vez mais desequilibrado. Quando a alternativa colocada à mesa é a guerra, a diplomacia perde sua essência e se transforma em coerção.
O ataque não encerra o problema nuclear iraniano. Ao contrário, tende a agravá-lo. A experiência histórica mostra que ações militares preventivas raramente eliminam programas sensíveis. Com frequência, aceleram processos, radicalizam posições internas e enfraquecem mecanismos de controle internacional. O risco de proliferação, longe de diminuir, pode aumentar.
Há também um custo jurídico e institucional elevado. O uso da força sem autorização expressa do Conselho de Segurança da ONU tensiona ainda mais o já fragilizado sistema internacional. A tese da autodefesa preventiva permanece controversa e sua aplicação unilateral mina normas que, apesar de imperfeitas, ainda funcionam como freios à escalada global.
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A reação internacional reflete essa preocupação. Líderes europeus pedem contenção. Organizações humanitárias alertam para o risco aos civis. A Cruz Vermelha lembra que escolas, hospitais e infraestrutura básica não podem ser alvos. Ainda assim, a dinâmica da guerra tem sua própria lógica e raramente respeita apelos feitos depois do primeiro míssil lançado.
O que se vê agora é a materialização de um cenário amplamente antecipado por analistas, diplomatas e estudiosos das relações internacionais. A combinação entre desconfiança acumulada, pressões unilaterais e desprezo pelo tempo da diplomacia criou um ambiente em que o conflito deixou de ser evitável.
Talvez essa seja a dimensão mais incômoda desta crise. Não se trata de um evento imprevisível. Não foi um acidente histórico. Os sinais estavam dados. As advertências foram feitas. As consequências estavam mapeadas. Ainda assim, optou-se por atravessar o ponto de não retorno.
Resta saber se haverá espaço para interromper a escalada antes que o conflito se transforme em uma guerra regional de grandes proporções. A diplomacia, agora, tenta operar em um terreno devastado, com bombas ainda caindo e mísseis em rota.
Quando, no futuro, este episódio for analisado com distanciamento, dificilmente será descrito como um erro de cálculo isolado. Provavelmente será lembrado como mais um caso em que a política reconheceu o perigo, mas falhou em agir a tempo de evitá-lo.
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E então, como tantas vezes na história, diremos que era possível prever. Que era possível conter. Que era possível escolher outro caminho. Mas que, no fim, a tragédia anunciada deixou de ser metáfora e se impôs como fato.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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