Alice e a política internacional: quando a lógica perde para a força

José Renato Ferraz da Silveira*

Há momentos na história em que o mundo parece abandonar qualquer pretensão de coerência. As regras deixam de ser claras, os discursos tornam-se elásticos e aquilo que ontem era considerado inaceitável passa, subitamente, a ser tolerado — ou até legitimado. Nesses momentos, talvez devêssemos recorrer menos aos manuais tradicionais de política internacional e mais à literatura. Em especial, àquela escrita por Lewis Carroll.
A jornada de Alice, ao cair no buraco do coelho, não é apenas uma fantasia infantil. É, sob uma leitura mais rigorosa, uma metáfora útil para compreender o funcionamento do sistema internacional contemporâneo. Um espaço em que a racionalidade não desaparece completamente, mas passa a ser insuficiente para explicar decisões, alianças e rupturas.
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Nos últimos anos, crises sucessivas reforçaram a sensação de que o mundo vive um período de instabilidade estrutural. Guerras regionais que ganham dimensão global, disputas econômicas travestidas de políticas de segurança, sanções usadas como ferramenta de pressão e instituições multilaterais cada vez mais tensionadas são exemplos dessa nova dinâmica. O que se vê não é ausência total de regras, mas um cenário em que essas regras são reinterpretadas conforme interesses estratégicos.
Quando a lógica deixa de explicar o mundo
No País das Maravilhas, Alice tenta compreender o ambiente à sua volta utilizando lógica, linguagem e previsibilidade. Fracassa repetidamente. Não porque lhe falte inteligência, mas porque as regras do jogo são mutáveis, arbitrárias e frequentemente contraditórias. O que está em jogo não é a verdade, mas a imposição de uma ordem — ainda que absurda.
No sistema internacional, algo semelhante ocorre. A estrutura global continua sendo, como descrevem diversas correntes clássicas da política internacional, essencialmente anárquica. Isso significa que não existe uma autoridade central capaz de impor regras universais com força suficiente para obrigar todos os atores a cumpri-las.
Nesse ambiente, normas e tratados continuam existindo, mas sua eficácia depende da disposição política dos países mais influentes. Quando interesses estratégicos entram em conflito com compromissos jurídicos ou morais, a tendência histórica mostra que a força costuma prevalecer.
Essa lógica não é nova, mas tornou-se mais visível em um cenário marcado por disputas entre grandes potências, reorganização de alianças e crescimento de conflitos híbridos, que misturam economia, tecnologia e poder militar.
A Rainha de Copas e a política do medo
A Rainha de Copas, com seu célebre “cortem-lhe a cabeça”, governa pela arbitrariedade. Não se apoia em instituições sólidas, nem em regras estáveis. Sua autoridade deriva do medo e da capacidade de impor consequências imediatas.
A analogia pode parecer exagerada à primeira vista, mas ela ajuda a entender decisões que, no cenário internacional, são tomadas menos com base em princípios e mais na capacidade de impor custos aos adversários.
Sanções econômicas, bloqueios comerciais e ameaças militares tornaram-se ferramentas recorrentes. Em muitos casos, a legitimidade dessas ações é discutida posteriormente, quando seus efeitos já se consolidaram.
Isso revela uma característica central do mundo atual: a legalidade continua importante, mas deixou de ser suficiente para garantir estabilidade.
Negociações que nunca terminam
O Chapeleiro Maluco, preso a um tempo que não avança, representa outra imagem poderosa. Ele vive em um ciclo repetitivo, onde o relógio não progride e as conversas parecem não levar a lugar algum.
Essa metáfora dialoga com negociações internacionais que se arrastam por anos, enquanto crises humanitárias e políticas se agravam. Fóruns multilaterais continuam reunindo representantes, resoluções continuam sendo propostas, mas muitas vezes os resultados concretos demoram a aparecer.
Essa lentidão institucional contrasta com a velocidade das crises contemporâneas. Conflitos armados, ataques cibernéticos e rupturas diplomáticas acontecem em ritmo acelerado, enquanto mecanismos de mediação seguem um tempo muito mais lento.
O resultado é um desequilíbrio entre ação e resposta, que amplia a sensação de insegurança global.
O Gato de Cheshire e a ausência de direção estratégica
Já o Gato de Cheshire oferece uma das reflexões mais relevantes para compreender a política internacional atual. “Se você não sabe para onde quer ir, qualquer caminho serve”.
Essa frase dialoga com um fenômeno cada vez mais presente: a ausência de projetos estratégicos de longo prazo. Muitos governos passaram a adotar decisões reativas, guiadas por crises imediatas e pressões políticas internas.
Essa fragmentação estratégica enfraquece a previsibilidade. Sem objetivos claros, políticas externas tornam-se oscilantes, alianças se tornam temporárias e compromissos internacionais perdem consistência.
Essa dinâmica contribui para um ambiente em que decisões são tomadas caso a caso, sem uma linha contínua de atuação.
Alice como metáfora de resistência racional
Alice, no entanto, não é uma personagem passiva. Ela observa, questiona, estranha e tenta entender o que está acontecendo ao seu redor. Essa postura é o que a torna relevante para além da narrativa literária.
Em um ambiente marcado pela incerteza e pela manipulação de discursos, a tentativa de compreender torna-se um ato político. Questionar narrativas, examinar decisões e buscar coerência são atitudes essenciais em tempos de instabilidade.
O sistema internacional contemporâneo é cada vez mais permeado por disputas narrativas. Informações circulam em velocidade inédita, e versões concorrentes sobre os mesmos fatos coexistem.
Nesse cenário, compreender o que acontece deixou de ser tarefa exclusiva de diplomatas e especialistas. Tornou-se uma necessidade social mais ampla.
Instituições fortes, previsibilidade fraca
Outro ponto que merece atenção é o papel das instituições internacionais. Elas continuam existindo, continuam atuando e continuam sendo invocadas como instrumentos de mediação.
No entanto, sua capacidade de impor decisões continua limitada. Isso reforça a percepção de que o sistema internacional funciona mais por negociação e equilíbrio de forças do que por cumprimento automático de normas.
Essa limitação institucional contribui para um paradoxo: nunca houve tantas regras internacionais formalizadas, mas nunca foi tão evidente a dificuldade de aplicá-las de maneira uniforme.
Esse contraste entre formalização e eficácia ajuda a explicar por que o mundo parece, muitas vezes, incoerente.
Perspectivas para um mundo menos previsível
Talvez o maior ensinamento de Alice no País das Maravilhas não esteja na lógica que falha, mas na persistência diante do absurdo.
O sistema internacional contemporâneo, com suas tensões, contradições e rupturas, aproxima-se cada vez mais desse universo instável. Um espaço onde normas existem, mas não garantem previsibilidade. Onde instituições operam, mas não asseguram ordem. Onde a verdade disputa espaço com narrativas estratégicas.
O desafio das próximas décadas será lidar com essa realidade sem cair na tentação de simplificá-la. O mundo tornou-se mais complexo, mais interdependente e, ao mesmo tempo, mais fragmentado.
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No fim, a pergunta que permanece é menos sobre coerência e mais sobre capacidade de adaptação.
Porque, como Alice aprende ao longo de sua jornada, compreender o mundo não significa torná-lo lógico. Significa reconhecer suas regras — por mais instáveis que sejam — e agir apesar delas.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-3).
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