AGU pede mais 180 dias ao STJ para regulamentar cultivo da cannabis medicinal no Brasil

AGU pede mais 180 dias ao STJ para regulamentar cultivo da cannabis medicinal no Brasil
Cannabis medicinal: mais de 670 mil brasileiros já usam derivados no tratamento de doenças graves, mas regulamentação do cultivo ainda depende de decisão judicial/Freepik
Publicado em 02/10/2025 às 9:00

Da redação de LexLegal

Advocacia-Geral da União (AGU) protocolou no Superior Tribunal de Justiça (STJ) um pedido de 180 dias adicionais para concluir a regulamentação do cultivo de cannabis para fins medicinais, farmacêuticos e científicos. O prazo anterior, concedido pela Corte em decisão de 2024, expirou na última terça-feira (30).

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A obrigação de editar normas sobre o plantio, cultivo e comercialização da planta foi determinada pelo STJ no ano passado, quando a União e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foram instadas a apresentar um marco regulatório em até seis meses. A União alegou agora que precisa ampliar o diálogo com a sociedade civil e finalizar a análise de impacto regulatório antes de publicar um ato normativo abrangente.

Caso o novo prazo seja autorizado, caberá ao governo definir regras para temas como importação de sementes, requisitos técnicos para cultivo, protocolos de rastreabilidade e condições de comercialização. A ministra Regina Helena Costa, relatora do caso, decidirá sobre a prorrogação.

A judicialização do tema no Brasil tem sido constante. Em novembro de 2024, a Primeira Seção do STJ autorizou a importação de sementes e o cultivo de cannabis exclusivamente para fins medicinais, farmacêuticos e industriais, decisão considerada histórica por abrir espaço para iniciativas regulatórias mais amplas.

No Supremo Tribunal Federal (STF), outro debate relevante também avançou: em fevereiro deste ano, a Corte consolidou a tese de que portar até 40 gramas de maconha para uso pessoal não é crime passível de prisão, embora a posse continue proibida. Por 6 votos a 5, prevaleceu a ideia de que a conduta não deve levar à detenção, reforçando o entendimento de que o país precisa atualizar sua política de drogas.

Dimensão médica e social

Segundo especialistas, a cannabis medicinal já é utilizada por mais de 670 mil pessoas no Brasil, com resultados positivos no tratamento de epilepsia, esclerose múltipla e dores crônicas. Em muitos casos, os pacientes apresentam respostas mais eficazes do que com terapias convencionais, o que reforça a pressão para regulamentar o cultivo nacional e baratear o acesso.

O psicólogo Cauê Pinheiro, diretor da Associação Canábica Florescer (Acaflor), sediada na Paraíba, destaca que há múltiplos interesses em jogo. “Existem associações de vários portes, com demandas diferentes, o que exige abrangência na regulamentação. Algumas se aproximam da indústria farmacêutica, outras têm processos distintos, mais ligados à farmácia viva no SUS”, explicou.

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Pinheiro também lembra que o acesso a produtos como a flor in natura ainda é restrito a poucas associações. Ele ressalta a importância do THC (Tetrahidrocanabinol) no tratamento de sintomas de abstinência em processos de redução de danos:

“A maconha é fundamental nessa etapa, porque ajuda a aliviar sintomas que surgem quando o paciente corta drogas mais fortes. Isso vale também para álcool e cigarro”, completou.

Contexto internacional e histórico brasileiro

O Brasil tem uma longa tradição de criminalização da maconha. Em 1830, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro aprovou a primeira lei do mundo contra o uso da planta, conhecida como a norma do “pito de pango”. Já em 1925, o país foi protagonista nas discussões da Liga das Nações que levaram à restrição internacional da cannabis.

Em 1961, com a Convenção Única de Entorpecentes da ONU, a maconha foi classificada junto à heroína como substância particularmente perigosa, sem base científica sólida, como já destacou o médico Elisaldo Carlini, pioneiro nos estudos da cannabis medicinal no Brasil. Carlini, falecido em 2020, foi peça-chave para a legitimação científica da planta, tendo fundado o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) e liderado pesquisas na Unifesp.

A expectativa é que o STJ decida nas próximas semanas se acata o novo pedido da AGU. Enquanto isso, pacientes e associações seguem cobrando regras mais claras para garantir segurança jurídica, acesso regularizado e preços mais acessíveis.

Eventos como a ExpoCannabis Brasil, que acontecerá em novembro em São Paulo, têm fortalecido o debate público sobre a cannabis medicinal e científica, reunindo movimentos sociais, médicos, pesquisadores e representantes da indústria.

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O impasse, entretanto, revela como o Brasil ainda caminha de forma lenta e judicializada na construção de uma política nacional para a cannabis, em contraste com outros países que já possuem marcos legais consolidados. Com informações da Agência Brasil.

SÃO PAULO WEATHER