Advogados, deixem de barrar negócios! Acordos de confidencialidade não podem travar oportunidades

Priscila de Oliveira Spadinger*

Já reparou como muitos escritórios de advocacia tratam o NDA (Non-Disclosure Agreement – Termo de Confidencialidade e Sigilo) como um escudo mágico? Como se, enquanto não houver acordo de confidencialidade assinado, nenhuma revelação de dados fosse segura ou como se a existência do documento resolvesse todas as incertezas. Essa obsessão pode custar muito caro para os clientes.
Hoje, precisamos de advogados na mesa de negociação, participando ativamente, sugerindo estratégias, assumindo riscos calculados e não de advogados que só se posicionam no “sem NDA, nada feito”.
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O mito de Silvio Santos e a mesa livre de advogados
Circula nas conversas de bastidor a história de que Silvio Santos evitava fazer negócios com advogados presentes na mesa. Pode até ser mito ou exagero, mas há algo de simbólico nessa narrativa: o medo burocrático, o excesso de formalismo que paralisa decisões. Embora eu não tenha encontrado fonte confiável que confirme que Silvio Santos de fato tenha dito ou praticado isso literalmente, o mito expressa uma verdade prática: muitos empreendedores sentem que, quando um advogado entra em cena, o andamento diminui drasticamente.
Esse mito deveria ser um alerta: não podemos aceitar que burocracia legal vire bloqueio de oportunidade.
Por que os advogados recuam — ou agem por inércia
Alguns motivos que explicam esse comportamento:
- Medo de responsabilidade: advogados frequentemente temem que, se algo der errado, vão ser responsabilizados. Exigem segurança total antes de qualquer compartilhamento.
- Visão legalista pura: muitos foram treinados para ver o risco jurídico como algo absoluto, e não relativo. Se há risco, vetam; se há dúvida, bloqueiam.
- Falta de entendimento do ecossistema de inovação: startups mudam rápido, pivôs ocorrem, protótipos surgem e morrem. O ambiente exige dinâmica, flexibilidade, tolerância ao incerto.
- Presunção de que qualquer informação pode gerar litígio: isso leva a advogados exigirem NDAs para tudo, sem discriminação.
Porque “somente o NDA” não resolve, e pode até prejudicar
- Travamento prematuro de conversas: investidores vão embora se toda reunião ou pitch vier acompanhado de exigência legal pesada. A competição é feroz, e o tempo é decisivo.
- Custo de oportunidade: ideias, alianças, mentorias, parcerias que poderiam surgir simplesmente param por causa de exigências legais.
- Reputação estagnada: advogados ou escritórios que se impõem como “os que sempre bloqueiam” criam imagem de parceiros difíceis, pouco alinhados com inovação.
O papel que advogados deveriam assumir
Advogados precisam ser vistos — e se enxergar — como facilitadores de negócio, e não apenas guardiões do risco. Eis como fazer isso:
- Mapear o risco: identificar o que realmente precisa de proteção e o que pode ser compartilhado sem grande risco no estágio inicial.
- Propor soluções alternativas ao NDA amplo: por exemplo, compartilhar apenas informações essenciais (“teaser”), reservar detalhes técnicos ou estratégicos para estágios avançados.
- Verificar a credibilidade da contraparte: fundos sérios, investidores institucionais, conselheiros de renome — se a parte for confiável, o risco cai.
- Dimensionar o risco ao retorno: se a oportunidade é grande, o risco tolerável pode ser maior. O advogado deve orientar o cliente nesse juízo, não impor barreiras automáticas.
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Riscos também fazem parte do sucesso
Empresas crescem quando alguém aceita avançar apesar dos riscos. Quando se espera tudo perfeitamente seguro, com todos os documentos bem desenhados, muitas vezes perdemos o timing e, no mundo dos negócios, tempo é concorrência, é vantagem, é valor.
Advogado que nunca coloca seu cliente numa posição de risco calculado talvez nunca esteja ajudando seu cliente a alcançar algo de fato novo.
Minha posição como CEO da Aleve
Na Aleve LegalTech Ventures, nossa experiência mostra que:
- Quando um fundador exige NDA logo no início, perguntamos: “Por quê? Quais dados você quer proteger exatamente?”
- Se for algo sensível, reservamos para depois; se for algo de mercado, de tese, de problema a ser resolvido, conversamos sem formalismos que travem a comunicação.
- Temos clareza: não assinamos NDAs que limitem nossa liberdade de explorar oportunidades ou nos deixem expostos a demandas judiciais infundadas. Mas trabalhamos com ética, sigilo e profissionalismo — isso sim é negociável, aceitável, e real.
Chamado à ação aos advogados
Se você é advogado que atua com startups ou negócios de inovação:
- Reflita: quantas oportunidades seu cliente perdeu porque você vetou uma reunião ou adiou tudo esperando um NDA?
- Pergunte-se: seu cliente ficaria mais seguro mantendo paralisado ou agindo de forma ágil?
- Exercite empatia: fundadores têm prazos, precisam de validação rápida, de captação, de movimentação. Intervenções legais devem acompanhar esse ritmo, não o afrontar.
NDAs são importantes, sim, em contextos certos. Mas quando viram muletas, prisões ou desculpas para não negociar ou sair do lugar, estão deixando de cumprir papel.
Advogados têm que estar à mesa para negociar, sugerir, abrir, permitir, inclusive correr riscos, quando o negócio vale.
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Se advogados continuarem a exigir segurança total em todas as circunstâncias, os verdadeiros empreendedores vão simplesmente procurar quem esteja disposto a correr com eles. E talvez, nesse movimento, quem for inflexível fique fora do jogo.
Afinal: no mundo real dos negócios, quem ousa é quem avança.
*Priscila de Oliveira Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A e colunista do Portal Lex Legal Brasil. Lidera iniciativas de inovação jurídica e acompanha de perto a jornada de dezenas de LegalTechs brasileiras.
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