Acordo EUA-Irã pode redesenhar o Oriente Médio e a geopolítica global

José Renato Ferraz da Silveira*

Durante mais de quatro décadas, Estados Unidos e Irã construíram uma das rivalidades mais duradouras e perigosas da política internacional. Desde a Revolução Islâmica de 1979, os dois países passaram a ocupar posições opostas em praticamente todos os grandes temas do Oriente Médio. Houve sanções econômicas, crises diplomáticas, confrontos indiretos, operações militares, disputas por influência regional e um permanente estado de tensão que moldou a geopolítica da região.
Por isso, o memorando de entendimento firmado recentemente entre Washington e Teerã merece ser analisado com cuidado. O documento pode representar muito mais do que uma simples interrupção das hostilidades. Seu alcance potencial envolve energia, comércio internacional, segurança regional, equilíbrio militar e até mesmo o futuro das relações entre as grandes potências.
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A primeira leitura possível é a mais evidente: depois de anos de confrontação, os dois lados reconheceram que a continuidade do conflito produz custos elevados e benefícios cada vez menores.
Esse é um dos princípios mais antigos da geopolítica. Guerras costumam começar quando governos acreditam que podem obter ganhos relevantes por meio da força. Elas terminam quando os custos econômicos, políticos, militares e sociais passam a superar os possíveis benefícios.
Foi exatamente esse cálculo que parece ter prevalecido.
O Irã saiu enfraquecido por anos de isolamento econômico, sanções e pressões diplomáticas. Ao mesmo tempo, continua sendo um ator central no Oriente Médio. Sua influência permanece presente em diferentes regiões e sua relevância estratégica não desapareceu.
Os Estados Unidos, por sua vez, seguem como a maior potência militar do planeta. Ainda assim, as últimas décadas mostraram que superioridade militar não significa capacidade ilimitada de remodelar sociedades, governos e regiões inteiras.
Afeganistão, Iraque, Síria e outros conflitos recentes demonstraram que destruir estruturas militares é muito mais simples do que construir estabilidade política duradoura.
O retorno da diplomacia como instrumento de poder
Um dos aspectos mais interessantes do acordo é justamente aquilo que ele revela sobre a mudança de comportamento dos Estados.
Durante anos, a política internacional foi marcada pela ideia de que demonstrações de força seriam suficientes para resolver disputas complexas. O entendimento entre Estados Unidos e Irã sugere uma volta a uma lógica mais tradicional: a diplomacia como instrumento de administração de conflitos.
Isso não significa amizade. Não significa confiança plena. Não significa alinhamento estratégico. Significa apenas que ambos reconheceram a necessidade de criar mecanismos para evitar uma escalada permanente.
Em relações internacionais, muitas vezes isso já representa uma conquista importante. Os países raramente fazem acordos porque passaram a gostar uns dos outros. Eles fazem acordos porque entendem que a alternativa pode ser pior.
O fator econômico por trás da negociação
Outro elemento decisivo está na economia. O Irã possui algumas das maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo. Durante décadas, boa parte desse potencial permaneceu limitada por sanções internacionais que restringiram investimentos, exportações e acesso ao sistema financeiro global.
A perspectiva de flexibilização dessas restrições pode produzir efeitos muito além das fronteiras iranianas. Europa, China, Índia, Japão e diversos países importadores de energia acompanham atentamente qualquer sinal de normalização das relações entre Teerã e o Ocidente.
Mais petróleo disponível tende a ampliar a oferta global. Mais integração financeira tende a gerar novos investimentos. Mais previsibilidade reduz riscos para empresas, governos e mercados.
Em um mundo que ainda convive com inflação, disputas comerciais e incertezas geopolíticas, estabilidade energética continua sendo um ativo valioso.
Muitas análises apostaram que a transição energética reduziria rapidamente a importância estratégica do petróleo. Os acontecimentos recentes mostram que essa previsão era otimista demais. A economia global continua profundamente dependente dos combustíveis fósseis.
Por que o Estreito de Ormuz continua decisivo
Existe ainda uma dimensão geográfica que ajuda a explicar o interesse mundial pelo acordo.
O Estreito de Ormuz é uma das passagens marítimas mais importantes do planeta. Uma parcela significativa do petróleo transportado internacionalmente passa diariamente por esse corredor entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico.
Sempre que a tensão aumenta na região, mercados financeiros reagem. Os preços da energia sobem. Empresas recalculam riscos. Governos revisam estratégias. Por essa razão, qualquer compromisso relacionado à liberdade de navegação possui impacto direto sobre a economia internacional.
A geografia continua exercendo influência enorme sobre a política global. A ascensão da inteligência artificial, da computação avançada e da economia digital não eliminou a importância dos recursos naturais nem das rotas comerciais estratégicas.
O desafio nuclear continua sobre a mesa
Talvez nenhum tema tenha produzido tantas crises entre Estados Unidos e Irã quanto o programa nuclear iraniano. Durante décadas, Washington e seus aliados manifestaram preocupação com a possibilidade de desenvolvimento de armas nucleares por Teerã.
O governo iraniano sempre sustentou que seu programa possui finalidades pacíficas e energéticas. O memorando busca criar uma zona de equilíbrio entre essas duas posições. De um lado, estabelece mecanismos de supervisão internacional e reafirma compromissos de não proliferação nuclear.
De outro, reconhece que o Irã continuará defendendo seu direito ao desenvolvimento tecnológico e energético. É justamente nesse ponto que o acordo enfrentará seus maiores testes. A confiança entre as partes é limitada.
Qualquer descumprimento, atraso ou divergência pode gerar novas crises. A história mostra que negociações nucleares raramente avançam de forma linear.
A reconstrução econômica como estratégia de segurança
Outro aspecto que chama atenção é a aposta em programas de reconstrução e integração econômica. Os valores discutidos envolvem investimentos bilionários em infraestrutura, energia, indústria e comércio.
A lógica é relativamente simples. Economias conectadas costumam produzir incentivos maiores à estabilidade do que sociedades isoladas. Quando empresas investem, cadeias produtivas se integram e empregos são criados, os custos de uma nova ruptura aumentam para todos os envolvidos.
Essa estratégia já foi utilizada em diferentes momentos da história.
Após a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, parte da reconstrução europeia foi baseada justamente na ideia de que prosperidade compartilhada poderia reduzir o risco de novos conflitos.
Não existe garantia de sucesso. Mas existe uma lógica política por trás dessa escolha.
Os riscos permanecem elevados
Isso não significa que o acordo esteja livre de ameaças. A própria história do Oriente Médio recomenda cautela.
A região acumula décadas de negociações fracassadas, acordos interrompidos e compromissos que não sobreviveram às mudanças de governo ou às transformações do cenário regional.
Há resistências internas tanto nos Estados Unidos quanto no Irã. Há interesses divergentes entre aliados regionais. Há disputas econômicas e estratégicas que permanecem abertas. Nenhum memorando elimina automaticamente essas tensões. O que ele faz é criar um ambiente mais favorável para administrá-las.
O verdadeiro significado do acordo
Talvez o aspecto mais importante desse entendimento seja simbólico. Durante muito tempo, o debate público foi dominado pela ideia de vitória total ou derrota completa. A realidade das relações internacionais costuma funcionar de outra maneira.
Conflitos raramente terminam com vencedores absolutos. Na maioria das vezes, produzem acomodações imperfeitas. O acordo entre Estados Unidos e Irã parece se enquadrar exatamente nessa lógica.
Washington não obteve tudo o que desejava. Teerã também não. Mas ambos reconheceram uma verdade que a geopolítica ensina há séculos: existe um momento em que a continuação do conflito deixa de produzir ganhos e passa a gerar apenas custos.
É nesse ponto que a diplomacia retorna ao centro do palco. Não porque as divergências desapareceram. Mas porque administrar rivalidades se torna mais racional do que alimentá-las.
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Se o memorando sobreviver às pressões políticas e aos desafios dos próximos anos, seu legado poderá ser maior do que o encerramento de uma crise específica. Poderá marcar o início de uma nova fase para o Oriente Médio e para o equilíbrio de poder em uma das regiões mais estratégicas do planeta.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-3).
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