A vitória de Milei e o colapso das alternativas políticas na América do Sul

José Renato Ferraz da Silveira*

A eleição legislativa argentina confirmou algo que vem se tornando comum na América Latina — o triunfo da ausência de alternativas. O presidente Javier Milei, que há poucos meses enfrentava queda de popularidade e críticas severas ao seu programa ultraliberal, conseguiu um resultado que surpreendeu até seus aliados: 40,65% dos votos válidos e uma maioria significativa nas duas casas do Congresso. O dado mais revelador, porém, não está nos votos obtidos, mas na abstenção recorde — a maior desde 1983. Assim como em Porto Alegre, onde o prefeito Sebastião Melo foi reeleito mesmo após críticas à sua condução durante as enchentes, o voto de Milei representa menos um endosso e mais a falta de opção.
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A lógica do “menos pior”
A política argentina ilustra a mesma lógica observada em várias democracias: o voto pelo “mal menor”. Em vez de entusiasmo, prevalece o cansaço. Quando o eleitor não vê horizonte de renovação, o sistema se torna refém da polarização e da apatia. Milei venceu não porque convenceu a maioria dos argentinos, mas porque seus opositores fracassaram em se apresentar como alternativa crível.
Esse fenômeno é sintoma da crise de representatividade que atravessa todo o continente. O cidadão não acredita mais nas instituições, e as lideranças tradicionais parecem incapazes de oferecer respostas diante de crises simultâneas — econômica, social e ambiental. Na Argentina, o populismo kirchnerista, que por décadas monopolizou o discurso de “defesa do povo”, chegou ao esgotamento. O peronismo perdeu não só votos, mas narrativa. Milei ocupou o vácuo.
O novo populismo e o velho sistema
Paradoxalmente, o sucesso de Milei confirma o vigor do velho sistema. Seu discurso antiestablishment foi canalizado por uma estrutura partidária tradicional e legitimado pelo mesmo Congresso que ele costumava atacar. Trata-se de uma revolta institucionalizada, semelhante à que elegeu outsiders em outros países — de Trump a Bolsonaro. O voto anti-política se torna política de governo, sem que o sistema se renove.
O que há de novo, no entanto, é o método: a indignação transformada em projeto de poder. Milei radicalizou a crítica ao Estado, prometeu privatizações em massa e apostou na retórica da liberdade individual absoluta — mas, no campo prático, depende do aparato estatal que tanto critica para sustentar sua governabilidade. A contradição, visível desde o início do mandato, não impediu que o eleitorado preferisse a incerteza do ultraliberalismo à previsibilidade da decadência peronista.
A crise das alternativas
O caso argentino ecoa a realidade de várias capitais latino-americanas. Em Porto Alegre, a reeleição de Melo após o colapso das enchentes expôs a mesma lógica: não se vota por convicção, mas por resignação. A democracia reduzida ao cálculo do “menos pior” enfraquece a legitimidade dos governos e alimenta o desencanto. A política se torna, nas palavras de um analista uruguaio, “um jogo de cansaços”, onde ninguém representa plenamente e todos decepcionam igualmente.
O ex-presidente Pepe Mujica já havia alertado para esse esgotamento. Segundo ele, o chavismo, o peronismo e boa parte da esquerda latino-americana perderam a conexão com as novas demandas sociais — sustentabilidade, inclusão digital, transparência, combate à desigualdade. Em contrapartida, a direita radical encontrou na linguagem da frustração o seu combustível.
Entre a rejeição e a esperança
O desafio das democracias sul-americanas é romper com a política da rejeição. Eleições decididas pelo “voto útil” ou pelo “anti-alguma-coisa” não produzem renovação, apenas sobrevivência. E quando a política vira sobrevivência, a sociedade entra em modo defensivo: desmobiliza, se abstém, desacredita.
A vitória de Milei, assim como a de Melo, é menos uma escolha e mais um sintoma. O eleitor argentino, ao votar, parece ter dito: “não gosto, mas é o que tem”. E esse “é o que tem” é a frase mais perigosa para qualquer democracia, porque normaliza a mediocridade e neutraliza o impulso de mudança.
O teste brasileiro
O próximo teste de maturidade política da região será no Brasil, em 2026. O país que já experimentou seu próprio ciclo de polarização enfrenta o mesmo dilema: como renovar a política sem cair no personalismo ou no desespero eleitoral? O esvaziamento dos partidos, a crise das lideranças intermediárias e a judicialização da política acentuam o risco de repetir o cenário argentino — onde o voto virou desabafo.
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A América do Sul parece girar em torno de uma mesma equação: governos que prometem ruptura e entregam instabilidade, e opositores que não inspiram confiança. O eleitor, cansado, continua votando — mas com cada vez menos fé no próprio voto.
Se a eleição argentina mostra algo, é que a crise das alternativas já se tornou o verdadeiro regime político do continente. E, enquanto a política continuar sendo um exercício de resignação, qualquer candidato que prometa “mudar tudo” continuará tendo grandes chances de vencer — mesmo que, na prática, não mude nada.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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