A viagem de Lula a Washington em tempos de fragmentação global

José Renato Ferraz da Silveira*

A viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos Estados Unidos ocorre em um dos momentos mais complexos da ordem internacional desde o fim da Guerra Fria. O encontro com Donald Trump, confirmado pela Casa Branca, ultrapassa a dimensão protocolar de uma visita diplomática tradicional.
Trata-se, na realidade, de uma tentativa de redefinição pragmática da relação entre Brasília e Washington em um cenário marcado pela fragmentação geopolítica, pela competição tecnológica e pela disputa global por recursos estratégicos.
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Durante muitos meses, parte da imprensa e dos analistas internacionais acreditou que a reunião entre Lula e Trump seria inevitavelmente capturada pela polarização ideológica. Afinal, os dois líderes representam projetos políticos distintos e, em muitos aspectos, antagônicos.
De um lado, um presidente brasileiro associado ao multilateralismo, à integração sul-global e à defesa de mecanismos regulatórios internacionais. Do outro, um presidente americano cuja política externa frequentemente se estrutura a partir do nacionalismo econômico, da pressão tarifária e da lógica transacional das relações internacionais.
No entanto, a pauta construída para o encontro revela algo mais sofisticado — e mais importante.
Lula não viaja a Washington para discutir Jair Bolsonaro. Tampouco leva como prioridade a guerra envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos. O governo brasileiro escolheu quatro temas centrais: comércio internacional, terras raras, regulamentação das plataformas digitais e combate ao crime organizado transnacional. A escolha é reveladora.
Ela demonstra que, mesmo em meio às turbulências políticas domésticas e às tensões ideológicas globais, os Estados continuam operando segundo interesses estruturais permanentes. Em outras palavras: governos passam; interesses nacionais permanecem.
O primeiro eixo da visita diz respeito ao comércio internacional. O Brasil tenta reduzir barreiras e sanções comerciais impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros em um contexto de crescente protecionismo americano. A era da globalização irrestrita terminou. O mundo ingressou em uma fase de “globalização seletiva”, em que segurança nacional, indústria e soberania econômica voltam ao centro das decisões estratégicas.
Nesse ambiente, o Brasil busca preservar espaço de exportação sem aceitar uma condição puramente periférica.
O segundo ponto talvez seja ainda mais sensível: as terras raras. A disputa global contemporânea não ocorre apenas em torno de petróleo ou rotas marítimas. O século XXI será marcado pela competição por minerais críticos fundamentais para semicondutores, inteligência artificial, transição energética, sistemas militares e infraestrutura tecnológica.
O Brasil possui uma das maiores reservas estratégicas do planeta. Os Estados Unidos sabem disso. A China também.
Mas Brasília tenta evitar a repetição de uma velha tragédia histórica latino-americana: exportar matéria-prima barata e importar tecnologia cara. Ao insistir na ideia de industrialização e processamento interno desses minerais, Lula procura apresentar um projeto de soberania produtiva. É uma tentativa de escapar da armadilha clássica da dependência econômica.
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O terceiro eixo — a regulamentação das plataformas digitais — revela outra dimensão do conflito contemporâneo: o poder das big techs.
As grandes plataformas deixaram de ser apenas empresas privadas. Tornaram-se atores geopolíticos capazes de influenciar eleições, moldar debates públicos, controlar fluxos informacionais e interferir diretamente na soberania comunicacional dos Estados.
Nesse tema, o Brasil aproxima-se de tendências observadas em partes da Europa: defesa de mecanismos regulatórios, responsabilização das plataformas e combate à desinformação. O problema é que essa agenda frequentemente colide com setores políticos americanos que interpretam qualquer regulação como ameaça à liberdade de expressão ou aos interesses tecnológicos estratégicos dos Estados Unidos.
Por fim, há o tema do crime organizado transnacional. CV e PCC deixaram de ser apenas organizações brasileiras. Operam em redes internacionais de tráfico, lavagem de dinheiro, armas e criptomoedas. Tornaram-se parte da arquitetura global do crime contemporâneo.
A aproximação entre Brasil e Estados Unidos nessa área parece inevitável. Mas existe um limite sensível. O governo brasileiro teme que a classificação dessas organizações como grupos terroristas abra precedentes para formas ampliadas de pressão jurídica, financeira e até estratégica por parte de Washington. O receio não é apenas policial. É geopolítico.
No fundo, a viagem de Lula aos Estados Unidos revela uma transformação silenciosa da política internacional contemporânea.
As relações entre os países já não são organizadas exclusivamente por afinidades ideológicas. O pragmatismo voltou ao centro da cena. Em um mundo marcado pela competição entre Estados Unidos e China, pela crise das instituições multilaterais e pela fragmentação da ordem liberal internacional, países médios como o Brasil tentam ampliar margens de autonomia sem romper completamente com nenhum dos polos.
É um equilíbrio difícil. O Brasil procura negociar com Washington sem abandonar Pequim. Busca cooperação sem subordinação. Aproximação sem alinhamento automático. A questão central é saber até que ponto essa estratégia continuará viável em um sistema internacional cada vez mais polarizado.
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Talvez a principal mensagem da viagem seja justamente esta: a era das alianças automáticas terminou.
Na nova geopolítica do século XXI, soberania, tecnologia, segurança e recursos estratégicos tornaram-se inseparáveis. E o Brasil tenta encontrar seu espaço nesse tabuleiro antes que as grandes potências decidam as regras sem sua participação.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-3).
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