A sombra do passado: ultradireita avança na Alemanha e reacende alertas na Europa

José Renato Ferraz da Silveira*

Jano ou Janus, é uma divindade romana que está associada a transições, rupturas, mudanças, portas e passagens. É representado com duas faces, uma voltada para o passado e outra para o futuro, os términos e os começos, o primeiro e o último passo, a primeira e última jornada.
Jano representa a força inexorável do Tempo e os nossos dilemas existenciais como Sartre advertia em relação às nossas escolhas.
Em Roma, o tempo consagrado a Jano tinha duas portas opostas que eram fechadas em tempo de paz e abertas em tempo de guerra.E isso evoca a sabedoria do rei Salomão no famoso livro Eclesiastes que tudo tem seu tempo e cada coisa a sua ocasião.
Mas por que relembrar o esquecido deus Jano?
Vale relembrá-lo, pois, vivemos um momento de transição nas Relações Internacionais. Isso é notório! Os fenômenos de Relações Internacionais avolumam-se e Sísifo permanece carregando a pedra até o topo e deixando deslizar para continuar a interminável tarefa.
É inegável que há em curso a mudança da ordem e da polaridade no mundo. E não podemos esquecer que a História nos auxilia a compreender essas mudanças. História e Relações Internacionais dialogam num ritmo apolíneo e dionisíaco: Da ordem e desordem. Da criação e destruição. Do amor e ódio. Da vida e da morte. Da esperança e desespero.
Pois bem. Usamos os argumentos da História de diversas maneiras: na construção de metas para o futuro, para fazer reivindicações, exigências, pautar temas e, infelizmente, para atacar e subestimar grupos.
A pesquisa sobre o passado traz à tona algum conhecimento sobre nossa própria sociedade que tinha sido negligenciado, reprimido e “esquecido”.
A história, nesse caso, revela as injustiças ou crimes cometidos no passado que podem ser usados para se discutir um novo direcionamento para o presente.
Nestes nossos tempos instáveis e incertos, o sentimento de que somos parte de algo pode ser reconfortante. Quer sejamos cristãos, muçulmanos, brasileiros, canadenses, escoceses ou gays, essa consciência evidencia que pertencemos a algo maior, mais estável e mais duradouro. Ou seja, nosso grupo é anterior a nós e presumimos que irá sobreviver à nossa morte. Essa ideia de identidade, portanto, confere certa imortalidade.
Por outro lado, a identidade pode ser uma armadilha que divide e separa. Por exemplo, na Alemanha dos anos 30 (século XX), o governo nazista criou amplas legislações para perseguir os “judeus alemães” e outros imigrantes.
Há um episódio esquecido – por muitos – que em 06 de julho de 1938 foi realizada uma conferência de 32 nações em Evian, na costa francesa do lago Genebra, para discutir o crescente fenômeno internacional da migração.
A conferência fez uma tentativa de impor diretrizes de concordância geral, especialmente à luz da possível expulsão de centenas de milhares de judeus pobres da Polônia e da Romênia. As delegações deixaram claro na conferência que não afrouxariam a política em relação aos refugiados; se fizessem algo, seria apertá-la.
A Grã-Bretanha e os estados europeus viam-se sobretudo como países de trânsito, dos quais os imigrantes judeus se dispersariam rapidamente pelo além-mar. O sentimento anti-imigrante de muitos países, “rematado com a retórica de serem “soterrados” por pessoas de cultura alienígena, contribuiu ainda mais para a relutância crescente” (Richard Evans).
Reforcemos o fato histórico que a Gestapo organizou transportes ilegais de emigrantes judeus, fretando barcos para a Palestina via Danúbio e mar Negro, como era de se esperar, preços altamente inflacionados pelas passagens.
Parece que a “história se repete como farsa”.
A Ultradireita se torna a segunda maior força da política alemã. Com discurso anti-imigração e endossado por Elon Musk, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) dobra seu eleitorado e ultrapassa social-democratas de Scholz no Parlamento Alemão.
Lembrando que o Verfassungsschutz, serviço de inteligência interno da Alemanha, classifica a AfD como um caso de preocupação, tendo colocado partes do partido sob vigilância devido a ligações com movimentos extremistas. Vários membros da AfD minimizam a importância do Holocausto na história do país e o partido se recusa a se distanciar dos neonazistas que participam ativamente de sua estrutura
“Parece” que o espectro ressurgente do fascismo ronda a Europa e o mundo. Eles estão de volta!
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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