A solidão do CEO nas legaltechs: liderança, dilemas e a importância do apoio estratégico

A solidão do CEO nas legaltechs: liderança, dilemas e a importância do apoio estratégico
Muitos desses empreendedores vêm de trajetórias acadêmicas sólidas e dominam profundamente o aspecto jurídico e tecnológico de seus produtos. Ainda assim, sentem-se despreparados diante de decisões estratégicas relacionadas ao negócio — como mudanças no modelo de atuação, contratações-chave ou escolhas de governança/Freepik
Publicado em 07/08/2025 às 8:30

Priscila de Oliveira Spadinger*

No imaginário coletivo, o fundador de uma startup costuma ser visto como um profissional destemido, criativo e movido por ideias disruptivas. Especialmente no universo das legaltechs — startups voltadas a soluções jurídicas inovadoras — essa figura é associada à habilidade de apresentar pitchs convincentes, captar recursos e conduzir a empresa com clareza estratégica. No entanto, a realidade costuma ser mais complexa e silenciosa: muitos desses CEOs enfrentam jornadas solitárias, marcadas por incertezas, decisões difíceis e pressões internas para as quais nem sempre encontram interlocutores preparados.

Por trás das rodadas de investimento, dos eventos de inovação e das narrativas de sucesso, há um cotidiano permeado por dúvidas, conflitos de rota e responsabilidades que vão além da técnica. Muitos desses empreendedores vêm de trajetórias acadêmicas sólidas e dominam profundamente o aspecto jurídico e tecnológico de seus produtos. Ainda assim, sentem-se despreparados diante de decisões estratégicas relacionadas ao negócio — como mudanças no modelo de atuação, contratações-chave ou escolhas de governança.

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Um desafio recorrente, por exemplo, é o excesso de foco no produto em si, em vez do problema real que o mercado precisa ver resolvido. A paixão pela solução muitas vezes se sobrepõe à escuta ativa do cliente, gerando desalinhamentos com a proposta de valor ou dificuldades de tração.

Além disso, é comum que o fundador se isole emocionalmente. A liderança de uma startup jurídica exige uma combinação rara de preparo técnico, inteligência emocional e visão de negócios. Contudo, a pressão por parecer seguro, estratégico e incansável pode gerar um ambiente onde a vulnerabilidade é reprimida, e o erro, punido. O resultado é um CEO sobrecarregado, que muitas vezes não tem com quem dividir os dilemas que enfrenta.

Experiências de aceleradoras como a Aleve LegalTech Ventures indicam que a escuta ativa e o acolhimento emocional são fatores decisivos na jornada de muitos founders. “Muitas vezes, fazemos o papel de psicólogos de negócios, mostrando que não há vergonha em sentir dúvidas, que vulnerabilidade não é fraqueza e que liderança também é feita de escuta e construção conjunta”, afirma a equipe da Aleve, que atua como parceira estratégica de startups jurídicas desde os estágios iniciais.

Especialistas em inovação jurídica têm chamado atenção para a importância de redes de apoio sólidas para fundadores. Isso inclui conselheiros estratégicos, times fundadores complementares e até mesmo profissionais que ofereçam suporte emocional. O papel dessas redes não é apenas validar estratégias, mas acolher o fundador em seus momentos de insegurança, oferecendo um espaço legítimo para escuta, provocação construtiva e reconstrução de rumos.

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A chamada “solidão do CEO” é um tema crescente nas discussões sobre o ecossistema de inovação no Brasil. Em setores como o jurídico, onde as soluções exigem grande conformidade regulatória e a tomada de decisão é altamente técnica, essa solidão tende a ser ainda mais aguda.

Para enfrentar esse cenário, cresce a percepção de que escalar um negócio exige mais do que capital. Exige maturidade emocional, confiança mútua e ambientes que sustentem não apenas o CNPJ, mas também quem está à frente da operação. Trata-se, em última instância, de entender que startups não são apenas sobre tecnologia, e sim sobre pessoas. Formar líderes conscientes, capazes de tomar decisões com autonomia — mas também com suporte — é parte fundamental da construção de negócios juridicamente sólidos e socialmente relevantes.

*Priscila de Oliveira Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A e colunista do Portal Lex Legal Brasil. Lidera iniciativas de inovação jurídica e acompanha de perto a jornada de dezenas de LegalTechs brasileiras.

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