A realidade que a advocacia insiste em ignorar

A realidade que a advocacia insiste em ignorar
Avanço da inteligência artificial redefine o mercado jurídico e pressiona a advocacia brasileira a se reposicionar diante da transformação tecnológica/Freepik
Publicado em 11/09/2025 às 8:59

Priscila de Oliveira Spadinger*

É curioso observar como boa parte da advocacia brasileira ainda se mostra reticente diante do óbvio: a inteligência artificial (IA) já não é uma promessa distante, mas uma realidade concreta que está reconfigurando os mercados, os negócios e, inevitavelmente, o Direito. Negar essa realidade não a torna menos real — apenas amplia a distância entre aqueles que já estão se preparando e aqueles que serão atropelados por um movimento inevitável.

Muitos profissionais ainda acreditam que “esperar para ver” seja uma estratégia razoável. Não é. O Direito, por sua própria natureza, sempre foi marcado pela cautela, pela análise minuciosa e pela tradição. Mas, enquanto advogados se acomodam em práticas já consolidadas, conselhos de administração e diretores de grandes empresas estão tomando decisões estratégicas sem qualquer mediação jurídica. O motivo é simples: encontram nas soluções de inteligência artificial a velocidade, a clareza e a previsibilidade que o mercado exige, mas que o modelo jurídico tradicional não está conseguindo oferecer.

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A irrelevância na advocacia não avisa quando chega — ela simplesmente se instala. Escritórios que ignorarem o movimento atual correm o risco de perder espaço não apenas para concorrentes que adotarem tecnologia, mas para novos atores que sequer pertencem ao universo jurídico. Empresas de consultoria, startups de tecnologia e plataformas globais estão ocupando o vácuo deixado por uma advocacia que ainda insiste em agir como se a transformação pudesse ser adiada.

Um exemplo é a volta da Sequoia Capital ao Brasil depois de uma década de ausência. O fundo escolheu investir na Enter, uma startup brasileira dedicada a soluções de inteligência artificial aplicadas ao mercado. Esse não é apenas um movimento financeiro. É um sinal claro de que existe um novo campo de valor sendo construído aqui, com potencial de redesenhar setores inteiros. Quem não entrar agora pode ficar fora do jogo por anos.

O Direito diante da transformação digital

O impacto da IA sobre o Direito não se limita à eficiência processual ou à automação de tarefas repetitivas. O que está em jogo é a centralidade da função jurídica na economia contemporânea. Se antes advogados eram os guardiões do conhecimento técnico e os mediadores obrigatórios em disputas e contratos, agora esse papel pode ser compartilhado com sistemas inteligentes que processam dados em escala incomparável.

Esse deslocamento já é sentido em áreas como compliance, análise de riscos, due diligence e gestão de contratos. Plataformas de IA oferecem relatórios instantâneos, cruzam informações de múltiplas bases e fornecem cenários probabilísticos de litígios com margens de acerto superiores às análises tradicionais. A advocacia que continuar ignorando essa mudança corre o risco de ser substituída naquilo que sempre foi considerada indispensável.

O movimento regulatório

No Brasil, o debate regulatório já está em andamento. Projetos de lei discutem responsabilidade civil em casos de danos causados por sistemas de IA, limites éticos para uso em setores sensíveis e até mesmo a adoção de certificações de segurança algorítmica. Ignorar esse processo significa abrir mão de protagonizar discussões que definirão os contornos do mercado jurídico no futuro.

Advogados que se mantiverem à margem terão dificuldade em responder a uma pergunta cada vez mais frequente de seus clientes: “Como posso usar inteligência artificial de forma segura e competitiva?”. Esse vácuo será ocupado por quem estiver preparado, seja outra banca, seja uma consultoria tecnológica.

É impossível dissociar esse debate do contexto político mais amplo. A polarização no Brasil — e também nos Estados Unidos, onde o governo vem ameaçando medidas mais duras contra big techs — reforça a necessidade de que o Direito esteja preparado para lidar com a tecnologia como ferramenta e como objeto de regulação.

A disputa internacional sobre dados, privacidade, cibersegurança e propriedade intelectual coloca advogados brasileiros diante de um desafio ainda maior: atuar em um tabuleiro globalizado, em que regulações estrangeiras impactam diretamente a prática local. Se a advocacia permanecer passiva, o risco é que decisões externas definam o rumo da transformação tecnológica sem que a voz jurídica nacional tenha peso.

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A normalização da IA no cotidiano jurídico

Em escritórios mais avançados, a IA já deixou de ser vista como ameaça e passou a ser tratada como aliada. Ferramentas de jurimetria, predição de resultados judiciais, automação de petições e análise de contratos estão em uso. Em outros setores, a integração vai além: empresas de infraestrutura, bancos e startups utilizam IA para modelar cenários complexos, avaliar riscos e estruturar negociações em tempo real.

O que impressiona é a discrepância: enquanto alguns players brasileiros já competem em escala internacional nesse campo, a maior parte da advocacia ainda se mantém no conforto de planilhas, documentos impressos e métodos analógicos.

O futuro da advocacia brasileira não será definido pela resistência, mas pela capacidade de absorver a transformação tecnológica e reconfigurar o valor entregue ao cliente.

  • Advogados que dominarem a interface entre Direito e tecnologia terão espaço ampliado, especialmente em áreas como proteção de dados, regulação digital, propriedade intelectual e direito concorrencial.
  • Escritórios que investirem em parcerias com startups e hubs de inovação ganharão vantagem competitiva.
  • Profissionais que continuarem ignorando a mudança verão sua relevância encolher rapidamente.

A advocacia precisa compreender que, no século XXI, o verdadeiro diferencial não será a posse do conhecimento técnico em si — cada vez mais acessível —, mas a capacidade de interpretar, contextualizar e aplicar esse conhecimento em diálogo com máquinas inteligentes.

A questão não é se a IA vai transformar o Direito, mas quando e de que forma cada profissional escolherá se posicionar. A transformação já está em curso, tanto no mercado de capitais, com investimentos em startups, quanto no campo regulatório, com debates legislativos.

Na Aleve LegalTech Ventures, vivemos diariamente esse movimento. Investimos em startups LegalTechs e criamos um ecossistema que conversa sobre tudo isso: tecnologia, regulação, inovação e, acima de tudo, futuro. A questão não é se a IA vai transformar a sua prática jurídica, mas quando

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Negar a realidade não altera a realidade. O que altera o futuro é a forma como cada advogado e cada instituição jurídica decide enfrentar esse desafio. Como em toda transição histórica, haverá perdedores e vencedores. O tempo para decidir em qual grupo se estará é agora.

A pergunta que deixo é: você estará preparado para ser parte da transformação, ou vai se contentar em assistir à sua própria irrelevância se instalar?

*Priscila de Oliveira Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A e colunista do Portal Lex Legal Brasil. Lidera iniciativas de inovação jurídica e acompanha de perto a jornada de dezenas de LegalTechs brasileiras.

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