A nova escalada de tensões no Oriente Médio e seus reflexos no Brasil

João Pedro Bandeira Soares e José Renato Ferraz da Silveira*
A nova escalada de tensões envolvendo o Irã já começa a produzir efeitos bastante concretos no Brasil. O primeiro sinal aparece exatamente no ponto em que a política internacional costuma se materializar com maior rapidez na vida cotidiana: o preço dos combustíveis.
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Nos últimos dias, o barril do petróleo Brent subiu de cerca de 82 para patamares próximos ou acima de 100 dólares, acumulando uma alta superior a 20%. A reação do mercado é praticamente automática. Mesmo antes de qualquer anúncio oficial, postos de combustível em diversas regiões do país já começam a reajustar os preços.
Esse movimento expõe um problema estrutural da economia brasileira. O Brasil é um produtor relevante de petróleo e abriga uma das maiores empresas do setor energético do mundo, a Petrobras. Ainda assim, o consumidor brasileiro acaba pagando quase imediatamente a conta de qualquer turbulência internacional.
A empresa estatal, criada originalmente com o objetivo de garantir autonomia energética ao país, opera hoje dentro de uma lógica fortemente integrada ao mercado global de commodities, em que o preço doméstico dos combustíveis permanece amplamente condicionado às oscilações do mercado internacional.
Essa configuração institucional não surgiu de forma espontânea. Ela é resultado de um processo político e econômico que ganhou grande intensidade a partir da segunda metade da década de 2010, especialmente no contexto da Operação Lava Jato.
O que inicialmente foi apresentado como uma investigação voltada ao combate à corrupção acabou produzindo efeitos profundos sobre a estrutura da cadeia produtiva do petróleo no país. Diversos segmentos estratégicos da indústria nacional foram desarticulados, enquanto a Petrobras passou por um processo de reestruturação que reduziu significativamente sua capacidade de planejamento de longo prazo.
A operação também teve ampla repercussão internacional, incluindo mecanismos de cooperação jurídica com autoridades dos Estados Unidos, o que gerou debates intensos sobre soberania econômica e autonomia institucional. Independentemente das interpretações políticas, o fato é que o país saiu daquele período com menor capacidade de coordenação estratégica em um setor fundamental para sua segurança energética.
Enquanto isso, o debate público frequentemente trata o Irã como um ator distante, geralmente retratado apenas por sua dimensão religiosa ou pela natureza de seu regime político. No entanto, a história contemporânea iraniana é também a história de um Estado que construiu sua política externa em torno da defesa da própria soberania.
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A atual configuração política do país nasce da Revolução Iraniana de 1979, quando o regime do xá Mohammad Reza Pahlavi — um aliado estratégico dos Estados Unidos — foi derrubado. Desde então, as relações entre Teerã e Washington permanecem marcadas por tensão constante, sanções econômicas e disputas geopolíticas de larga escala.
Além das pressões externas, o Irã também enfrenta desafios internos complexos. Entre eles estão as tensões envolvendo os curdos, um povo distribuído por diversos países do Oriente Médio e que mantém movimentos políticos em defesa de maior autonomia.
Essas dinâmicas evidenciam como conflitos internos podem se articular com disputas internacionais mais amplas, sobretudo quando potências externas identificam nesses pontos de fratura oportunidades de influência regional.
No Brasil, as divisões não são de natureza étnica, mas profundamente políticas e institucionais. Ao longo dos últimos anos, parte significativa da elite econômica e política demonstrou considerável disposição para aceitar pressões externas, condicionantes de mercado e rearranjos institucionais que acabaram fragilizando instrumentos clássicos de soberania nacional.
O resultado é um país que observa crises internacionais com reduzida margem de manobra estratégica, mesmo possuindo recursos naturais e capacidades produtivas que poderiam permitir respostas mais autônomas.
Nesse sentido, observar a trajetória recente do Irã pode produzir um contraste interessante. Durante décadas, o país enfrentou sanções econômicas severas, isolamento diplomático, pressões militares e constantes tentativas de contenção por parte de potências ocidentais. Ainda assim, o Estado iraniano permaneceu funcional, e sua política externa continuou estruturada em torno da defesa de sua autonomia estratégica.
Mísseis, bloqueios econômicos, sanções financeiras e pressões diplomáticas não foram suficientes para dobrar a soberania iraniana.
No caso brasileiro, entretanto, a trajetória parece ter seguido outro caminho. Em um ambiente marcado por austeridade econômica, disputas políticas internas e reconfigurações institucionais profundas, parte da capacidade produtiva e estratégica do país foi desarticulada sem que houvesse necessidade de qualquer pressão militar direta.
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Às vezes, para desmontar um projeto nacional, não é preciso uma guerra. Basta um juiz e um promotor com ambições desmedidas.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-3). João Pedro Bandeira Soares – Graduando de Relações Internacionais da UFSM e membro do GTAP. José Renato Ferraz da Silveira é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria e líder do GTAP.
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