A nova era de instabilidade na geopolítica global

A nova era de instabilidade na geopolítica global
A redefinição das regras do jogo global está em curso e os próximos anos serão decisivos para determinar se essa transição resultará em maior fragmentação ou em uma nova arquitetura internacional mais justa e equilibrada/Freepik
Publicado em 16/05/2025 às 10:06

José Renato Ferraz da SilveiraLaryssa Andrade Cavalheiro*

O ano de 2025 pode se consolidar como um dos períodos de mais profundas transformações no sistema internacional nas últimas décadas. Sob essa ótica, é nítido que as rápidas mudanças em curso indicam uma reconfiguração geopolítica global sem precedentes recentes. Para alguns especialistas, testemunhamos a maior alteração sistêmica desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, quando a ordem internacional foi redesenhada sob a liderança dos Estados Unidos e pela consolidação de instituições multilaterais. Nos dias de hoje, esse cenário se apresenta profundamente instável e em mutação acelerada.

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Diversas tensões atravessam o sistema internacional neste momento. A escalada de conflitos armados em distintas regiões, os choques geoeconômicos que atingem cadeias produtivas globais e os riscos ambientais crescentes compõem um cenário de múltiplas crises simultâneas. Nesse cenário, a instabilidade torna-se a norma, e a imprevisibilidade, uma constante na política internacional contemporânea.

Um dos elementos centrais dessa nova conjuntura é o desfecho ainda incerto da guerra entre Rússia e Ucrânia. Esse conflito não apenas desafia o equilíbrio de poder na Europa, mas também redefine alianças militares, energéticas e estratégicas em escala global. Paralelamente, o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, com uma agenda externa vista por muitos analistas como imprevisível e controversa, amplia a sensação de descontinuidade e incerteza na política internacional. A combinação desses fatores reforça a percepção de que estamos entrando em uma nova era de transição e instabilidade.

Ademais, o conflito entre Israel e Palestina evidencia a persistência e complexidade de uma disputa profundamente enraizada, marcada por sucessivos episódios de violência, violações de direitos humanos e impasses diplomáticos que se arrastam há décadas. O envolvimento de potências globais e regionais transforma o conflito em um reflexo das rivalidades geopolíticas entre o Ocidente e o Sul Global, com impactos que transcendem a região, afetando até mesmo a economia mundial. Embora as Convenções de Genebra prevejam proteções à população civil, esta segue como a principal vítima de ações militares indiscriminadas, enquanto a ausência de um consenso internacional eficaz torna a paz cada vez mais distante.

O mundo parece caminhar para uma multipolaridade conflituosa, marcada pela ausência de uma liderança hegemônica clara e pela intensificação de rivalidades entre grandes potências. Em vez de promover estabilidade, essa multipolaridade gera tensões e competições acirradas, tanto no campo militar quanto no econômico e tecnológico. A coexistência de diferentes polos de poder tem resultado mais em disputas por influência, mercados e recursos do que em cooperação efetiva.

Nesse contexto de profundas incertezas, o cenário geopolítico mundial está em plena construção, ainda sem um modelo claro ou estável a se firmar. Os Estados Unidos enfrentam um processo de declínio relativo de sua hegemonia, resultado de fatores internos e da ascensão de novos atores no sistema. A China, por sua vez, desponta como a principal potência econômica, tecnológica e comercial emergente, ampliando sua influência global por meio de investimentos estratégicos, inovação e protagonismo no cenário internacional.

A Índia também se consolida como uma potência emergente relevante. Com uma das economias de crescimento mais acelerado do mundo, o país já ocupa a quinta posição global em termos de Produto Interno Bruto, além de exercer crescente influência em fóruns multilaterais e regionais. Por outro lado, a Rússia, apesar de enfrentar sanções e isolamento diplomático em decorrência de sua ofensiva militar, busca reafirmar-se como um ator global capaz de projetar poder e desafiar a ordem ocidental.

A União Europeia, diante desse cenário fragmentado, redesenha seu papel na arena global. O bloco tenta equilibrar sua dependência externa com a busca por maior autonomia estratégica, especialmente nas áreas de defesa, energia e tecnologia. Essa reconfiguração demanda novas estratégias de atuação frente a uma realidade mais incerta e competitiva.

Na América Latina, o atual governo brasileiro delineou uma orientação clara em relação aos seus parceiros político-econômicos prioritários, buscando reposicionar o país nas dinâmicas do Sul Global e fortalecer coalizões que se distanciam do eixo tradicional Estados Unidos-Europa Ocidental. Esse reposicionamento reflete um movimento mais amplo, em que novas alianças internacionais estão sendo formadas, enquanto outras, historicamente consolidadas, se enfraquecem.

Nesse ambiente de transição, a competição por recursos naturais estratégicos se intensifica. A disputa por terras raras — um conjunto de 17 elementos químicos essenciais para tecnologias de ponta, como eletrônicos, baterias e armamentos — tem o potencial de gerar ou agravar conflitos. O controle desses recursos se torna uma questão de segurança nacional e vantagem competitiva, adicionando uma camada de complexidade à rivalidade entre Estados e blocos econômicos.

A África, historicamente marcada por processos coloniais e exploração externa, permanece como um continente de vastas riquezas naturais, muitas vezes subutilizadas em benefício de suas próprias populações. Com reservas abundantes de petróleo, gás natural, diamantes, ouro, cobalto, urânio e, mais recentemente, terras raras, o continente ocupa uma posição estratégica no cenário geoeconômico global.

Contudo, essas riquezas continuam a atrair o interesse de potências estrangeiras e grandes corporações transnacionais, que frequentemente estabelecem relações assimétricas com governos locais, em detrimento do desenvolvimento sustentável e da soberania econômica dos países africanos.
Diante desse panorama multifacetado, 2025 se revela como um marco de transição em que o sistema internacional é desafiado em suas estruturas, valores e mecanismos tradicionais de governança.

A intensificação das disputas por influência, recursos e modelos de desenvolvimento evidencia que o mundo caminha para uma era de incertezas prolongadas, na qual o multilateralismo se fragiliza e a cooperação internacional cede espaço para uma lógica de competição estratégica permanente.
Immanuel Wallerstein, sociólogo norte-americano, em sua teoria sobre o sistema-mundo, já oferecia ferramentas analíticas para compreender essas transformações.

Segundo o autor, o sistema internacional é estruturado em torno de centros e periferias, onde as disputas por poder e recursos moldam a dinâmica global, reforçando relações de dependência e desigualdade. No cenário atual, essas tensões se tornam ainda mais evidentes.

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O futuro da ordem global dependerá, em grande medida, da capacidade dos atores internacionais de construir alternativas sustentáveis e inclusivas, que superem os legados de desigualdade, colonialismo e dependência. Em meio à instabilidade, surge também uma oportunidade histórica para repensar os fundamentos da política internacional, promovendo uma governança mais democrática, representativa e sensível às demandas do Sul Global.

A redefinição das regras do jogo global está em curso e os próximos anos serão decisivos para determinar se essa transição resultará em maior fragmentação ou em uma nova arquitetura internacional mais justa e equilibrada.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2). Laryssa Andrade Cavalheiro é graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e integrante do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

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