A irracionalidade das massas e o bolsonarismo em tempos de tarifaço

A irracionalidade das massas e o bolsonarismo em tempos de tarifaço
Manifestantes exibem bandeira dos EUA em ato de 7 de setembro na avenida Paulista, em São Paulo, em meio a críticas ao tarifaço imposto por Donald Trump/Agência Brasil
Publicado em 08/09/2025 às 8:30

José Renato Ferraz da Silveira*

A teoria da irracionalidade das multidões, formulada por Gustave Le Bon em A Psicologia das Massas (1895), segue como uma das mais instigantes chaves de leitura para compreender o Brasil de 2025. Escrito há mais de um século, o livro analisa como, em meio coletivo, o indivíduo perde sua capacidade crítica e passa a agir como parte de um organismo único, dominado por impulsos inconscientes. Nesse estado, segundo o autor, a multidão pode expressar tanto heroísmo quanto brutalidade, mas sempre de forma exacerbada, irracional e, sobretudo, volátil.

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Esse mecanismo psicológico se encaixa de maneira precisa nos movimentos bolsonaristas, que há anos se organizam não em torno de projetos de Estado, mas de símbolos de identidade coletiva. Trata-se de uma política fundada menos na razão e mais na emoção, onde gestos, palavras de ordem e inimigos escolhidos valem mais do que resultados concretos. Não é à toa que Le Bon descreveu a multidão como “capaz de feitos grandiosos ou deploráveis”, dependendo das circunstâncias que a conduzem.

O episódio mais recente, ocorrido no último 7 de setembro, dia da Independência do Brasil, é uma síntese desse fenômeno. Na avenida Paulista, em São Paulo, uma bandeira gigante dos Estados Unidos dominou as manifestações de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. O ato, por si só, revela uma contradição gritante: enquanto se celebrava a independência nacional, o símbolo central não era o verde e amarelo brasileiro, mas o estandarte de uma potência estrangeira.

À luz da teoria de Le Bon, o paradoxo perde o caráter de incoerência e se torna previsível: a multidão não busca coerência lógica, mas signos que reforcem sua identidade emocional, ainda que isso represente submissão ou traição simbólica à pátria.

Esse gesto aparentemente anedótico ganha ainda mais relevância quando contextualizado no cenário econômico e diplomático atual. O Brasil enfrenta, desde 6 de agosto, o chamado tarifaço de Donald Trump, que impôs sobretaxa de 50% sobre 35,9% das exportações brasileiras para os Estados Unidos.

A medida, anunciada em julho e confirmada por ordem executiva, deixou de fora cerca de 700 produtos estratégicos — como polpa de laranja, aeronaves civis, celulose, metais preciosos e energia — que representam 44,6% das exportações nacionais para os EUA, mas mesmo esses continuam pagando tarifas de até 10%, já estabelecidas desde abril.

Na prática, o tarifaço atinge setores centrais da economia brasileira, sobretudo indústrias de médio e alto valor agregado. O impacto não é apenas comercial: ele simboliza a fragilidade da diplomacia nacional diante de uma potência que, em vez de cooperação, adota medidas de retaliação explícita. Mais grave ainda é que o governo americano deixou claro, em reuniões com empresários brasileiros, que a decisão é política — não apenas fruto de protecionismo econômico.

Foi nesse ambiente que, na semana passada, uma missão empresarial liderada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) desembarcou em Washington com mais de 120 representantes do setor produtivo. O objetivo era claro: negociar alternativas, suavizar os efeitos das tarifas e abrir canais de diálogo. As reuniões envolveram membros do Congresso, do governo e de associações empresariais norte-americanas. Mas, ao final, os empresários voltaram de mãos vazias, sem conseguir reverter nem atenuar a sobretaxa.

A missão foi marcada por um episódio que, mais uma vez, dialoga com a lógica da multidão irracional descrita por Le Bon. Enquanto os representantes da indústria buscavam soluções para proteger empregos e exportações, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente, circulava pelos mesmos ambientes em Washington ao lado do comentarista político Paulo Figueiredo.

Nenhum dos dois fazia parte da comitiva oficial, nem havia sido convidado pela CNI. Ainda assim, sua presença foi constante e causou desconforto entre empresários. Segundo relatos, enquanto os líderes industriais tentavam construir pontes com autoridades americanas, Eduardo Bolsonaro fazia lobby político, pressionando por sanções contra o Brasil e defendendo uma anistia internacional para seu pai, que enfrenta julgamento no Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado.

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Esse contraste revela uma dissonância preocupante: de um lado, o setor produtivo tentando defender o interesse nacional e a soberania econômica; de outro, figuras políticas agindo deliberadamente para fragilizar o país em nome da lealdade pessoal e partidária. É justamente aqui que a teoria de Le Bon se torna mais atual.

Ele dizia que, na massa, valores podem ser invertidos: aquilo que seria considerado traição em um contexto racional passa a ser exaltado como prova de fidelidade dentro do grupo. O que, em qualquer nação, seria visto como submissão a um país estrangeiro ou como sabotagem aos interesses econômicos nacionais, é convertido em ato de heroísmo por uma multidão em transe coletivo.

Esse tipo de comportamento não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, a ascensão de Donald Trump também foi marcada por manifestações de massa que desafiaram a lógica racional, culminando na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021.

No Reino Unido, o Brexit seguiu dinâmica semelhante: multidões inflamadas por símbolos de soberania e identidade acabaram aprovando uma saída da União Europeia cujas consequências econômicas se mostraram mais negativas do que o previsto. Na Hungria de Viktor Orbán, ou na Polônia do PiS, o mesmo padrão se repete: líderes políticos exploram a irracionalidade das massas para consolidar poder, mesmo que isso implique isolar seus países ou enfraquecer suas economias.

No caso brasileiro, o paralelo é ainda mais evidente porque a irracionalidade da massa bolsonarista se expressa não apenas em símbolos contraditórios — como bandeiras americanas no 7 de setembro —, mas também em ações que objetivamente prejudicam o país. Defender tarifas que sufocam exportações brasileiras, ou pressionar por sanções contra o Brasil no exterior, revela um fenômeno raro: o de um movimento político disposto a sacrificar a própria soberania em troca da preservação de seu líder.

Esse processo se insere em uma conjuntura mais ampla de crise de representação. O bolsonarismo, assim como outros movimentos populistas pelo mundo, é fruto de uma política fundada no ressentimento: ressentimento contra instituições, contra elites intelectuais, contra a própria ideia de democracia representativa. Nesse vácuo, a massa se agarra a símbolos simplificados, a líderes carismáticos e a discursos de confrontação, mesmo que isso implique contradições insolúveis.

Ao analisarmos o Brasil de 2025 pela lente de Le Bon, vemos que não se trata apenas de manifestações de rua ou de pressões políticas isoladas. Trata-se de um fenômeno estrutural: a substituição da racionalidade pelo afeto coletivo, a transformação de contradições em símbolos de identidade e a legitimação de práticas que, sob qualquer outra ótica, seriam condenáveis. É por isso que uma bandeira americana tremulando em pleno dia da Independência não choca quem está dentro da massa; pelo contrário, reforça o pertencimento.

Mais do que nunca, compreender esse processo é essencial para pensar o futuro institucional do país. Se o Brasil não conseguir reconstruir pontes racionais — entre economia e política, entre interesse nacional e debate democrático — corre o risco de permanecer refém de uma massa que se reconhece não pela construção de soluções, mas pela negação da própria soberania.

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O legado de Le Bon é lembrar que multidões podem ser capazes de atos heroicos quando bem conduzidas. O desafio do Brasil, em 2025, é romper com a lógica da irracionalidade coletiva antes que ela transforme contradições em normalidade e submissão em virtude.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).

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