A inteligência artificial e as ferramentas de segurança e integridade corporativa

Leonardo Barém Leite*

O mundo capitalista é movido a organizações “vencedoras”, baseadas em inovação e criatividade, e gestão que busque construção/geração de valor, geração de caixa, vendas, receitas, lucros, dividendos, e basicamente a “dinheiro”, mas temos que recordar com frequência que o “ganho e a valorização” têm ao menos duas dimensões, pois o que em geral se busca é a “somatória” (o saldo entre o que se ganha e o que se perde/gasta, e entre o que se gera e o que se destrói no valor).
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Gestores e organizações realmente estratégicos, e bem sucedidos, são os que conseguem encontrar o arrojado, mas equilibrado, “ponto” entre a ousadia e a falta de cuidado (e até de responsabilidade). Em outras palavras, é preciso conseguir vender, e lucrar, e com isso construir e gerar valor, mas com a adequada gestão de riscos, e com o foco, também, em integridade e em segurança, passando pela sustentabilidade (em todos os seus aspectos), pelos valores e pelo propósito – com vistas a resultados consistentes, cuidando, ainda da imagem e da reputação. Gestão estratégica, bem cuidada e responsável, visando a excelência efetiva, em outras palavras.
Um dos pilares básicos dessa complexa equação é o adequado “apetite ao risco”, que permita ousadia, arrojo e inovação, mas com os devidos cuidados para não se arriscar “além do razoável” e “perder tudo”.
Esse complexo e robusto arcabouço de conceitos passa, necessariamente, por organizações que consigam construir valor e ganhar dinheiro de forma constante, coerente, e sem “deixar pontas soltas” – que gerem “esqueletos”, multas, processos e diversas outras perdas, reconhecendo e valorizando todos os ‘stakeholders’, incluindo os “no-holders”, através de adequados programas de governança corporativa, integridade, “compliance” e sustentabilidade.
Investimentos nesses programas são fundamentais, e geram muito dinheiro, já tendo provado que muito além de custos, travas ou burocracias são sinal de estratégia corporativa – via de regra bem apreciados e reconhecidos por investidores, financiadores, reguladores, colaboradores, parceiros, clientes
e sociedade em geral.
O foco deste derradeiro artigo da série sobre os diversos impactos e cuidados da Inteligência Artificial (IA) e da automação (por vezes exagerada, e nem sempre bem cuidada) no tocante `as organizações, engloba os programas e as ferramentas mais respeitados e reconhecidos no apoio estratégico à boa
gestão.
Buscando a eficiência permanente e a economia de recursos (inclusive de tempo e de dinheiro), a maioria dos gestores e das organizações tem enveredado pela automação, inclusive de programas, treinamentos e sistemas ligados, como mencionado acima, à segurança, à integridade e à sustentabilidade, e nesse contexto, contado, também, com o crescente uso da IA.
Todos sabemos que é preciso otimizar e economizar recursos, e que caminhos seguros são sempre bem-vindos, razão pela qual, destacamos aqui a importância de se encontrar o necessário equilíbrio entre essa otimização desejada, e a responsabilidade com o risco excessivo e (por vezes) descontrolado.
Vivemos momentos muito desafiadores nas economias nacional e internacional, com crises profundas em diversos setores, segmentos, mercados e países, sendo natural que se precise ser criativo, ousado e focado em cortar custos, sendo justamente nesses casos que se pode “escorregar”.
Grande parte dos programas, das ferramentas, e das tarefas dos acima mencionados pilares de segurança podem mesmo ser automatizados, economizando recursos e poupando esforço humano para tarefas que demandem experiência, sensibilidade, tomada de decisão, mas “nem tudo”.
Chamamos aqui a atenção para a importância de se tomar os devidos cuidados com os sistemas escolhidos, as tarefas automatizadas, e o devido “treinamento das ferramentas” (notadamente de IA), buscando reduzir o risco de que essas escolham caminhos inadequados, excessivamente arriscados,
enviesados, e que desconsiderem a sensibilidade e a experiência humanas.
A tecnologia evolui diária e permanentemente, de forma que segue melhorando e ficando mais segura, mas não nos podemos esquecer de que tem (e sempre terá) falhas, que demandam atenção.
Falhas sempre existiram e sempre existirão (assim como riscos e erros), tanto humanas quanto tecnológicas, mas a responsabilidade é (e precisa ser) humana, especialmente de gestores que por vezes arriscam exageradamente e delegam decisões cada vez mais importantes a softwares, sistemas e
algoritmos.
Temos que nos lembrar de que fazem parte desses poderosos e importantes programas de segurança e de integridade, o cuidado e a experiência humana, a sensibilidade, a visão crítica, a malícia, a percepção de que algo precisa ser melhor entendido e investigado (por vezes local e pessoalmente).
Nos artigos anteriores (desta série) já chamamos a atenção para pontos como “direito societário, fusões e aquisições, mercado de capitais, “due diligence” etc”., sempre reforçando as “duas pontas”, quais sejam a constatação da importância da tecnologia, mas recordando que esta ainda não substitui com a necessária segurança a atuação humana estratégica e responsável.
Temos visto com preocupação o excesso de automação, o que sempre pressupõe “menus pré-estabelecidos e fechados”, que assumem pontos demais, e que certamente não conseguem abraçar todas as situações (como acreditam poder). E, na mesma linha, o “abuso” da experiência puramente digital (e documental), sem de fato visitar lugares, conversar com pessoas, colher depoimentos, observar situações, entender que de fato cada caso é um caso, e com base nesse conjunto, estabelecer, com segurança o que precisa ser feito (e considerar todos os riscos envolvidos).
Quem defende a “automação total”, costuma defender, também, que as “máquinas” errem menos do que as pessoas, mas além dessa afirmação não ser absoluta, deixa de lado que a IA segue tentando aprender, que foi criada e desenvolvida por humanos, que precisa ser acompanhada e corrigida por
humanos, e que não substitui a experiência, a sensibilidade e a “malícia” humanas. Além da já mencionada questão da responsabilidade.
Recomendamos, pois, na conclusão deste artigo e da série, que se use sim a tecnologia, a automação e a IA, mas sempre com cuidado e com responsabilidade, procurando conhecer o risco envolvido, delegando a elas o que de fato pode ser delegado com responsabilidade e segurança; resistindo às tentações da busca pela eficiência que ignore os cuidados básicos que toda gestão e toda organização precisam manter.
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Sigamos aprendendo a utilizar a IA com segurança, aprendendo com os acertos, mas também com o que precisa melhorar, revendo matrizes de risco e de integridade, reavaliando com cuidado a interação “homem-máquina”, para que as ferramentas não assumam mais do que de fato podem fazer/entregar.
Se a responsabilidade é, e sempre será humana, é fundamental que humanos tomem as decisões e cuidem (pessoalmente, quando necessário) do que a “máquina” ainda não pode cuidar (ainda que muita gente acredita que ela pode).
Leonardo Barém Leite é sócio sênior do escritório “Almeida Advogados” em SP, especialista em Direito Societário e Contratos, Fusões e Aquisições, Governança Corporativa, Sustentabilidade e ESG, “Compliance”, Projetos e Operações Empresariais, e Direito Corporativo; também é árbitro, professor, conselheiro, e autor de diversas obras. Presidente da Comissão de Direito Societário, Governança Corporativa e ESG da OAB-SP/Pinheiros.