A IA já ganhou o primeiro processo no mundo. Seu escritório está pronto para a era quântica?

Priscila Spadinger*

Um escritório de advocacia movido por inteligência artificial acaba de vencer o seu primeiro processo na Inglaterra. Na mesma semana, fui ouvir uma palestra sobre computação quântica. Saí de lá com uma certeza perturbadora: o setor jurídico está mais perto do abismo do que imagina.
Era uma quinta-feira comum. Entrei no auditório sem grandes expectativas. Saí de lá querendo ligar para cada cliente, cada sócio, cada fundador de legaltech que conheço e dizer, com toda a clareza possível: o relógio está correndo. E a maioria de nós ainda não ouviu o alarme.
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A palestra era sobre computação quântica. O apresentador era Carlos Foz, Chairman do AndBank e Conselheiro da Aleve LegalTech, sendo ele um dos nomes que mais respeito nesse ecossistema. Em menos de uma hora, ele desmontou confortavelmente a ideia de que essa é uma tecnologia do futuro distante, coisa de laboratório, assunto para físicos.
Não é. Já está acontecendo. E o direito está no centro da tempestade.
Uma firma de IA acabou de ganhar um processo. Na vida real.
Na mesma semana em que eu ouvia essa palestra, o The Guardian publicava uma notícia que deveria ter parado o mercado jurídico: a Garfield AI, primeira firma de advocacia do mundo autorizada e regulada por IA pelo Solicitors Regulation Authority do Reino Unido, venceu seu primeiro processo em tribunal. Uma freelancer chamada Tamires Camal Taquidir recuperou 7 mil libras em honorários não pagos. Ela pagou cerca de 400 libras à Garfield AI por todo o trabalho jurídico pré-julgamento, enquanto o réu contratou tanto um solicitor** quanto um barrister***.
A IA fez tudo: correspondências pré-ação, petições, produção documental, declarações de testemunhas e o bundle completo para julgamento. Um barrister humano júnior apenas apresentou o caso em audiência. O tribunal decidiu a favor da cliente e rejeitou a reconvenção do réu.
“Eu tinha valores a receber por um trabalho realizado, mas sentia que o processo de recuperação poderia ser excessivamente estressante, caro e demorado. A Garfield tornou possível dar continuidade à cobrança”, disse Camal Taquidir ao The Guardian.
Isso não é futuro. Isso foi 14 de maio de 2026, no Wandsworth County Court, Londres. E a pergunta que ninguém quer fazer em voz alta é: quanto tempo falta para que isso chegue ao Brasil?
O que a computação quântica tem a ver com o seu escritório
Muito mais do que você imagina. E muito mais rápido do que o mercado está admitindo.
Computadores quânticos não trabalham com bits, aquelas unidades binárias de zero ou um que sustentam toda a computação clássica. Eles trabalham com qubits, que podem ser zero, um, ou os dois ao mesmo tempo, graças a um fenômeno chamado superposição. Isso significa que, onde um computador clássico testa uma rota de cada vez, um computador quântico explora todas as rotas simultaneamente.
O Google lançou em 2024 o processador Willow. Esse chip resolveu um cálculo em menos de cinco minutos que levaria 10 septilhões de anos no melhor supercomputador do planeta. Mais do que a idade do universo. Em cinco minutos.
O mercado global de tecnologia quântica movimenta hoje cerca de US$ 1,9 bilhão e deve saltar para US$ 72 bilhões até 2035. O investimento em startups quânticas cresceu 6 vezes em um único ano. China, Estados Unidos e Europa já travam uma corrida geopolítica por domínio quântico. O Brasil ainda está assistindo à largada.
O risco que ninguém está contando para os advogados
Tudo que protege sua vida digital hoje, e a dos seus clientes, foi feito para um mundo sem computação quântica.
A criptografia que protege e-mails confidenciais, contratos digitais, dados de due diligence, comunicações entre advogados e clientes, laudos periciais, petições sigilosas, toda essa estrutura foi construída sobre um pressuposto simples: que quebrar a chave criptográfica levaria milhões de anos. Um computador quântico suficientemente poderoso resolve isso em horas.
E aqui está a parte que deveria tirar o sono de qualquer gestor jurídico: existe uma estratégia já em curso chamada Harvest Now, Decrypt Later. Agentes maliciosos, incluindo programas estatais ativos na Coreia do Norte e na Rússia, já estão coletando dados criptografados hoje para descriptografá-los quando a tecnologia quântica estiver disponível. Aquele contrato de M&A confidencial trocado por e-mail neste ano? Pode já estar guardado em algum servidor esperando o momento certo.
O maior risco para o setor jurídico não é a computação quântica em si. É a inércia empresarial diante dela.
A história tem o péssimo hábito de rimar
Em 1993, as pessoas diziam que “internet era para acadêmicos”, que “ninguém compraria online”, que “meu negócio não precisa de site”. Em 2025, as pessoas dizem que “quântico é para laboratórios”, que “meu escritório não precisa se preocupar com isso agora”.
A história não se repete de forma idêntica. Mas tem o péssimo hábito de rimar.
O que me preocupa não é a chegada da computação quântica. O que me preocupa é a velocidade com que o mercado jurídico está ignorando os sinais. Uma firma de IA já venceu um processo em tribunal. Processadores quânticos já existem em escala crescente. Bilhões de dólares estão sendo alocados agora, não amanhã, nessa direção.
O futuro não vai pedir licença para entrar no seu escritório. E ele já bateu na porta.
O que fazer a partir de hoje
Não é preciso virar físico quântico. É preciso parar de ignorar. Três movimentos práticos para começar:
Primeiro: audite sua criptografia. Mapeie quais dados do seu escritório, dos seus clientes e das suas operações precisam de proteção pós-quântica. A migração precisa começar antes de ser urgente.
Segundo: monitore o que a IA jurídica está fazendo no mundo. A Garfield AI não é um caso isolado. É um sinal. O mercado regulatório do Reino Unido saiu na frente. O Brasil vai seguir, mais cedo ou mais tarde.
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Terceiro: faça a pergunta estratégica mais importante. Qual parte do seu modelo de negócio jurídico muda se um problema considerado impossível se torna trivial? Se você ainda não fez essa pergunta, está atrasado.
A computação quântica ainda não mudou o mundo. Mas o mundo já começou a mudar por causa dela. E o setor jurídico, que tanto preza pela segurança da informação e pelo sigilo, é um dos mais expostos a essa virada. Prefiro escrever isso agora, enquanto ainda há tempo de agir.
*Priscila Spadinger e CEO da Aleve LegalTech Ventures, Venture Builder dedicada ao setor jurídico.
**Um solicitor é o advogado que presta atendimento direto ao cliente em países que adotam o sistema jurídico da common law, como o Reino Unido, Irlanda e Austrália. É ele quem acompanha o cliente no dia a dia, orienta juridicamente, elabora contratos, conduz negociações, prepara processos e gerencia casos.
***Barrister é um advogado especializado em atuar perante os tribunais, especialmente em audiências e julgamentos, nos países que seguem o sistema jurídico da common law, como o Reino Unido, Austrália e Irlanda.
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