A guerra que o Rio já perdeu

André Pereira César – Brasília

A terça-feira, 28 de outubro, ficará marcada como uma das mais violentas da história recente do Rio de Janeiro. A megaoperação das polícias civil e militar, que resultou em mais de 120 mortes — segundo estimativas de moradores e observadores independentes —, revelou, mais uma vez, a falência de um modelo de segurança pública sustentado por ações espetaculosas e respostas imediatistas. A crise, que rapidamente ganhou contornos políticos, expôs o abismo entre o governo estadual e o governo federal, abrindo um novo flanco de disputa entre Cláudio Castro (PL) e a administração Lula (PT).
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Durante entrevista coletiva, o governador acusou o governo federal de “negligenciar” as demandas do estado e, em tom desafiador, afirmou que o Rio “não pode esperar por Brasília”. A resposta veio poucas horas depois, pelas palavras do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, que negou qualquer omissão e lembrou que não houve pedido formal de apoio federal à operação. O embate verbal ilustra um cenário de descoordenação e, mais profundamente, de desconfiança política em torno de um tema que será central nas eleições de 2026: a segurança pública.
O discurso de guerra e a política do espetáculo
Ao classificar a operação como um combate ao “narcoterrorismo”, Cláudio Castro adotou uma retórica que remete a discursos autoritários. A escolha das palavras não é trivial: reproduz a narrativa populista do presidente norte-americano Donald Trump, que tem utilizado o termo para justificar ações militares na América Latina. No caso brasileiro, a tática discursiva busca reforçar a imagem de um governador forte e “duro com o crime”, ainda que os resultados práticos sejam questionáveis.
O problema é que o Rio vive há décadas sob o mesmo ciclo: operações policiais de alto impacto, números alarmantes de mortos — muitos sem identificação — e pouco avanço estrutural. As comunidades, por sua vez, seguem como palco de uma guerra cotidiana. A ausência de políticas de inteligência, de articulação entre os entes federativos e de investimento consistente em prevenção transforma cada nova operação em uma tragédia anunciada.
Competências constitucionais e o impasse federativo
A Constituição brasileira é clara: a segurança pública é responsabilidade dos estados. O governo federal atua como apoio, especialmente em áreas como fronteiras e combate a organizações criminosas de alcance nacional. No entanto, o conflito entre Cláudio Castro e o Planalto revela o quanto o tema se tornou uma arena de disputa política.
Governadores de oposição, entre eles Castro, têm resistido à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Segurança Pública, em tramitação na Câmara dos Deputados, sob relatoria de Mendonça Filho (União Brasil-PE). A proposta busca estabelecer diretrizes nacionais de cooperação entre as polícias e fortalecer a integração entre as forças de segurança.
A resistência dos governadores, entretanto, tem explicação política: aceitar uma coordenação nacional poderia reduzir o poder dos estados sobre suas corporações e, por tabela, enfraquecer o controle político que exercem sobre elas. A disputa, portanto, vai muito além da eficiência administrativa — trata-se de uma batalha pelo poder.
O preço da ausência de políticas de Estado
As soluções para o colapso da segurança pública brasileira não são desconhecidas. Especialistas defendem há décadas a criação de um sistema integrado de informações criminais, o fortalecimento de investigações financeiras e o controle das fronteiras — áreas em que a Polícia Federal teria papel central. Também é consenso que o investimento em inteligência, capacitação e valorização das forças policiais é mais eficaz do que o simples aumento de operações de confronto.
Contudo, essas medidas exigem continuidade, recursos e, sobretudo, vontade política. No Brasil, os planos de segurança costumam morrer junto com os mandatos. E enquanto cada gestão tenta imprimir sua marca com operações midiáticas, o crime organizado se adapta, se estrutura e se infiltra nas instituições.
A crise no Rio não tem impacto apenas social. O clima de insegurança e de conflito institucional já começa a afetar o ambiente político em Brasília. O debate sobre a reforma administrativa, recém-protocolada no Congresso, deve perder força diante da pressão pública por respostas imediatas à violência.
Além disso, o episódio reacende o debate sobre o papel das Forças Armadas na segurança interna — tema sempre sensível e carregado de implicações democráticas. Embora improvável, qualquer movimentação nessa direção seria um sinal perigoso de retrocesso institucional.
O retrato de uma tragédia anunciada
O Rio de Janeiro não é apenas o retrato da falência da segurança pública — é o espelho de uma nação que, há décadas, convive com a naturalização da violência. A tragédia dos complexos da Penha e do Alemão é resultado direto da ausência de políticas duradouras, da desarticulação entre os entes federativos e da exploração política da dor alheia.
Na prática, o Estado brasileiro parece ter desistido de disputar o controle territorial nas favelas com políticas públicas. Opta, vez após vez, por operações que rendem manchetes, mas deixam um rastro de corpos e desconfiança. Enquanto isso, os grupos criminosos seguem expandindo seu domínio, integrando economias ilegais e criando suas próprias redes de governança paralela.
O “dia de cão” vivido pelos moradores do Rio poderia ser um ponto de inflexão, um momento para reavaliar prioridades e repensar a política de segurança nacional. Mas nada indica que isso vá acontecer. O embate entre Castro e o governo federal reforça a polarização e o uso eleitoral do tema, deixando de lado a busca por soluções reais.
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As posições estão cristalizadas, e o bonde da história está passando”. Se não houver disposição para o diálogo e a construção de políticas públicas integradas, o Rio continuará refém de operações que se repetem como tragédias — e o Brasil, como um todo, seguirá refém de sua própria inércia institucional.
*André Pereira César é cientista político e sócio da Hold Assessoria Legislativa.