A guerra e o poder no Irã: entenda quem manda no país em meio à escalada do conflito com EUA e Israel

Da redação de LexLegal
A ofensiva militar deflagrada neste fim de semana pelos Estados Unidos contra instalações nucleares no Irã marcou um novo capítulo na escalada do conflito no Oriente Médio. O ataque, coordenado em conjunto com Israel, reacendeu tensões históricas e desencadeou uma reação imediata do governo iraniano, que prometeu retaliar com força. Mesmo com a intensidade da ação militar, o presidente norte-americano Donald Trump declarou que não pretende derrubar o governo iraniano — uma afirmação que contrasta com a profundidade do ataque às estruturas estratégicas do país persa.
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O envolvimento direto dos EUA, até então limitados ao apoio diplomático e logístico a Israel, muda o patamar da crise. A entrada formal dos norte-americanos no campo de batalha eleva o risco de internacionalização do conflito e coloca à prova tratados internacionais, normas da ONU e o equilíbrio regional. O alvo dos bombardeios foram três usinas nucleares — Fordow, Natanz e Isfahan — apontadas por Washington como potenciais focos de desenvolvimento de armas atômicas, apesar das alegações iranianas de uso civil.
O contexto do ataque ocorre após dias de intensificação dos embates entre Israel e o Irã. Além das ofensivas aéreas, o Parlamento iraniano aprovou o fechamento do Estreito de Ormuz, principal corredor marítimo do petróleo mundial, como forma de resposta. Com o apoio indireto da Guarda Revolucionária Iraniana, considerada uma força paralela ao Exército regular, Teerã anunciou a suspensão temporária de inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Diante desse cenário, aumenta o interesse internacional por entender quem realmente comanda o Irã. Afinal, trata-se de uma república islâmica teocrática, onde o poder político e religioso se fundem em uma estrutura única e bastante particular no cenário global.
O poder no Irã: quem manda?
O Irã é comandado por uma figura central: o líder supremo, atualmente o aiatolá Ali Khamenei. Ele tem autoridade sobre todas as esferas do Estado, incluindo Forças Armadas, Judiciário, mídia estatal e política externa. Mesmo com a existência de um presidente eleito, nenhuma decisão estratégica pode ser tomada sem sua aprovação direta ou indireta.
O sistema político do país é baseado em uma teocracia. Ou seja, uma forma de governo onde as normas religiosas moldam as estruturas legais e institucionais. O modelo foi implantado após a Revolução Islâmica de 1979, que derrubou a monarquia liderada por Mohammad Reza Pahlavi. No lugar, foi instaurado um regime religioso com base no islã xiita, tendo o aiatolá Ruhollah Khomeini como primeiro líder supremo.
O presidente tem poder?
Sim, mas de forma limitada. O presidente do Irã é escolhido por voto direto a cada quatro anos, mas sua autoridade está subordinada ao líder supremo. Ele comanda a administração do governo, define políticas públicas e representa o país em negociações internacionais — desde que essas atividades estejam alinhadas com os interesses do aiatolá.
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O atual presidente é Masoud Pezeshkian, eleito em julho de 2024 após a morte do ex-presidente Ebrahim Raisi. Considerado moderado, Pezeshkian prometeu durante a campanha retomar o diálogo com o Ocidente e realizar reformas sociais pontuais. No entanto, suas iniciativas precisam ser chanceladas por órgãos que representam o clero islâmico.
O papel do Parlamento
O Parlamento iraniano, conhecido como Majlis, tem 290 membros eleitos por voto direto. Cabe a ele aprovar leis, discutir o orçamento e ratificar acordos internacionais. No entanto, suas decisões estão sujeitas à análise do Conselho dos Guardiães — uma espécie de câmara superior formada por 12 membros, sendo 6 juristas indicados pelo Parlamento e 6 clérigos nomeados pelo líder supremo.
O Conselho tem poder de veto sobre leis que considerar incompatíveis com a Constituição ou com os princípios islâmicos. Além disso, ele também tem influência direta nas eleições, podendo barrar candidaturas com base em critérios ideológicos e religiosos.
Guarda Revolucionária: o “Estado dentro do Estado”
A Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC) é uma força militar independente das Forças Armadas tradicionais. Criada logo após a revolução de 1979, sua missão é proteger os valores do regime islâmico. Internamente, atua no controle de protestos e repressão à dissidência. Externamente, por meio da força Quds, desempenha papel fundamental no apoio a grupos armados aliados ao Irã em países como Síria, Líbano e Iraque.
A IRGC também tem poder econômico. Estima-se que controle entre 20% e 40% da economia iraniana, com ramificações em construção civil, petróleo, bancos e tecnologia. Após a morte do comandante Hossein Salami em um ataque israelense, o aiatolá nomeou Mohammad Pakpour como novo chefe da organização.
Outras estruturas de poder
Além do Parlamento e da Guarda, há o Conselho de Discernimento — órgão que arbitra conflitos entre o Majlis e o Conselho dos Guardiães. Seus membros também são nomeados pelo líder supremo, e sua função prática é garantir que decisões estratégicas estejam alinhadas com os interesses do regime.
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No topo dessa pirâmide, o aiatolá Khamenei detém controle final sobre todos os assuntos. Seu poder é vitalício e só pode ser revogado por um colégio de clérigos.