A guerra da informação e o novo campo de batalha global no século 21

A guerra da informação e o novo campo de batalha global no século 21
O controle da narrativa e a inteligência digital tornaram-se mais letais que o poderio bélico tradicional em conflitos como o do Oriente Médio/Freepik
Publicado em 05/03/2026 às 8:00

José Renato Ferraz da Silveira*

A informação tornou-se um dos elementos centrais dos conflitos contemporâneos. Se em períodos anteriores o poder militar estava associado principalmente à capacidade material, como o número de soldados, armamentos ou território, hoje a informação passou a ser um recurso estratégico fundamental para a vitória ou para a derrota em um conflito.

Na verdade, a informação sempre teve importância na guerra. Desde a Antiguidade, generais buscavam conhecer as intenções do inimigo, suas forças, seus movimentos e suas vulnerabilidades. Espionagem, mensageiros e reconhecimento do terreno sempre fizeram parte da prática militar, mas o que mudou foi a velocidade e o alcance.

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No mundo contemporâneo, o papel da informação se ampliou enormemente. O desenvolvimento tecnológico, a comunicação em tempo real e a digitalização da vida social transformaram profundamente a forma como as guerras são conduzidas. No plano militar, a informação é essencial para a tomada de decisão estratégica e tática.

Sistemas de inteligência, satélites, drones, interceptação de comunicações e análise de dados permitem que Estados acompanhem os movimentos do adversário com grande precisão. Ter informação correta, atualizada e bem analisada pode significar antecipar ataques, evitar emboscadas ou identificar fraquezas no inimigo.

Mas a informação não atua apenas no campo militar tradicional. Ela também opera no plano político, psicológico e comunicacional. As guerras contemporâneas envolvem intensas disputas narrativas. Governos e atores não estatais buscam moldar a percepção pública sobre os acontecimentos.

A chamada guerra informacional inclui propaganda, desinformação, manipulação de imagens, operações psicológicas e campanhas nas redes sociais. O objetivo é influenciar opiniões, enfraquecer a moral do adversário ou legitimar determinadas ações perante a comunidade internacional.

Essa disputa pela informação ocorre em três níveis principais que se entrelaçam o tempo todo. Existe o nível militar, relacionado à inteligência estratégica e à superioridade informacional no campo de batalha. Há o nível político, no qual a informação é utilizada para justificar decisões e construir legitimidade.

E existe o nível social e psicológico, onde narrativas, imagens e discursos disputam a interpretação pública do conflito. Por isso, a chamada superioridade informacional tornou-se um objetivo central das estratégias militares contemporâneas. Quem possui maior capacidade de coletar, processar, interpretar e disseminar informações tende a controlar o ritmo da guerra e muitas vezes também seus resultados.

Na guerra contemporânea, a informação não é um instrumento auxiliar. Ela se tornou um verdadeiro campo de batalha. Isso pode ser observado no atual cenário de tensão envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. Nos últimos dias, vimos um exemplo claro dessa disputa informacional.

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Após declarações do presidente Donald Trump sobre a possibilidade de enviar a Marinha americana para escoltar petroleiros no estreito de Hormuz, autoridades iranianas responderam afirmando que controlam a passagem por onde circula cerca de 20% do petróleo e do gás do mundo. Em resposta, o comando militar americano afirmou que não haveria sequer navios iranianos operando na região naquele momento.

Cada lado tenta construir uma narrativa de força, controle e superioridade. Existe também a possibilidade de blefe estratégico. Mesmo com perdas recentes de navios, o Irã ainda possui bases de mísseis, drones, minas navais e lançadores móveis capazes de ameaçar a navegação na região.

Essa incerteza já produz efeitos concretos. Navios comerciais estão evitando o estreito de Hormuz e países produtores da região começam a suspender ou reduzir atividades. A informação, e às vezes a dúvida, também pode ser uma arma estratégica.

Olhando para as perspectivas futuras, a tendência é que a inteligência artificial e os algoritmos de processamento de dados acelerem ainda mais esse processo. Se antes uma notícia levava dias para atravessar o oceano e influenciar a política de um país, hoje um vídeo manipulado ou uma declaração agressiva em rede social pode derrubar bolsas de valores e provocar ordens de ataque em minutos. O perigo é que a rapidez da informação supere a capacidade de análise humana, levando a escaladas de violência baseadas em dados falsos ou mal interpretados.

Em meio a esse cenário complexo, vale lembrar um velho problema das guerras modernas que é o chamado fogo amigo. Quando a tensão aumenta, os riscos de erro, desinformação e decisões precipitadas também aumentam.

O fogo amigo ocorre não apenas quando um soldado atira em um aliado, mas quando uma informação errada destrói alianças políticas ou provoca pânico em populações civis de forma desnecessária. O custo da ignorância em um mundo hiperconectado é a destruição da própria verdade como base para a paz.

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O futuro dos conflitos será decidido por quem conseguir proteger seus sistemas de dados enquanto expõe as mentiras do oponente. A soberania de uma nação hoje depende da segurança de seus servidores tanto quanto da guarda de suas fronteiras. No fim das contas, a informação é a munição mais barata e eficiente da atualidade, e o fogo amigo, provocado pelo excesso de confiança em dados não verificados, é sempre perigoso.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).

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