A febre dos cafés de Palo Alto, na Califórnia, e o que o Direito tem a ver com isso

A febre dos cafés de Palo Alto, na Califórnia, e o que o Direito tem a ver com isso
Entre códigos e prazos, cafés de Palo Alto viram escritórios de alta intensidade para desenvolvedores de IA/Stanford University
Publicado em 30/04/2026 às 6:00

Priscila Spadinger*

Nos últimos dias, assisti a um vídeo que não saiu mais da minha cabeça. A cena era esta: cafés em Palo Alto, no coração do Vale do Silício, completamente tomados por pessoas curvadas sobre laptops, fones no ouvido, olhos fixos nas telas. Não estavam lá para tomar um café com calma ou para um bate-papo descompromissado. Estavam trabalhando, de forma intensa, quase febril.

As únicas ocasiões em que essas pessoas saem são quando seus tokens de IA terminam, quando o modelo finalmente rodou, quando o funding foi fechado. Aí, sim, há espaço para uma festa, para um encontro, para respirar. Mas logo voltam.

Leia também: O Vale do Silício falou e eu ouvi daqui do Brasil! Você também deveria ter ouvido…

Quem narrava o vídeo chamou aquilo de “surto coletivo”. Eu entendi exatamente o que ele quis dizer.

Estamos vivendo um momento histórico de corrida tecnológica e o epicentro, pelo menos simbolicamente, é esse. Mas o que me perturbou não foi a cena em si. Foi perceber que a maioria dos profissionais do Direito no Brasil ainda olha para isso como se fosse um fenômeno de outro mundo.

Não é.

Sou advogada. Sou CEO de uma venture builder de legaltechs. Vivo exatamente nessa fronteira entre o jurídico e o tecnológico e posso dizer, com total convicção, que o que está acontecendo lá fora está chegando aqui. Já chegou. A diferença é que alguns de nós já estamos dentro dos cafés. E outros ainda estão do lado de fora, sem entender bem o que está se passando.

Repertório é a chave. E a Geração X tem muito dele

Sou da Geração X. E tenho observado algo que, honestamente, não esperava: a minha geração, ou seja, aquela que cresceu sem internet, que aprendeu a escrever à mão antes de digitar, que leu livros físicos e viveu décadas de experiências acumuladas, está sendo, na minha percepção, uma das que mais se beneficia da inteligência artificial no ambiente profissional.

Por quê? Porque a IA não trabalha sozinha. Ela amplifica quem já tem algo para amplificar.

Quando uso IA nas minhas rotinas jurídicas, seja para estruturar uma tese, revisar cláusulas contratuais, pesquisar jurisprudência ou preparar apresentações para investidores, o que acontece é uma multiplicação da minha capacidade, não uma substituição dela. O repertório que acumulei ao longo de anos de prática, de estudo, de erros e acertos, é o combustível que faz a IA render de verdade.

Tenho conversado com muitos profissionais mais jovens e percebo uma ambivalência que não esperava encontrar. A Geração Z, que cresceu com a informação na ponta dos dedos, que nunca precisou ir a uma biblioteca física para pesquisar, está estranhamente menos entusiasmada com a IA do que eu imaginaria. E acho que sei o motivo.

Outros artigos: O Cubo descobriu as legaltechs. O mercado precisa entender o que vem a seguir

Não é preguiça. Não é resistência tecnológica. É repertório. A IA exige que você saiba o que quer. Exige que você questione, refine, valide o output. E para isso, é preciso ter algo que só o tempo, as leituras e as experiências de vida constroem. Não existe atalho para isso.

O Direito no epicentro da transformação

Dizem que o Direito é uma das profissões mais resistentes à mudança. Em parte, isso faz sentido: lidar com lei, segurança jurídica e precedentes é inerentemente conservador. Mas confundir prudência com paralisia é um erro que poucos podem se dar ao luxo de cometer.

Estou vendo clientes de startups exigindo contratos fechados em horas, não em dias. Estou vendo due diligences sendo conduzidas com apoio de ferramentas de IA que vasculham milhares de documentos em minutos. Estou vendo escritórios perdendo clientes porque não conseguem entregar a velocidade e a precisão que o mercado passou a exigir.

O surto coletivo de Palo Alto não é uma curiosidade sociológica. É um sinal. E no Direito, que sempre foi o guardião das regras do jogo, ignorar esse sinal pode significar ficar fora do jogo.

o que fazemos com isso?

Não estou escrevendo este artigo para dizer que a IA vai substituir advogados. Essa conversa já está ultrapassada. O que estou dizendo é que a IA vai separar os advogados que souberem usá-la dos que não souberem. E essa separação já está em curso.

Veja também: Legaltech e IA jurídica: como venture building gera valor na advocacia?

O repertório jurídico, a vivência, o olhar crítico formado por anos de prática, tudo isso não se torna obsoleto com a chegada da IA. Pelo contrário: torna-se mais valioso do que nunca. O profissional que souber combinar sua experiência com o poder das ferramentas disponíveis hoje terá uma vantagem competitiva enorme. O que não dá mais é fazer de conta que isso não nos diz respeito.

Os cafés em Palo Alto estão cheios. A pergunta que fica é: você está dentro ou está do lado de fora, achando que isso não tem nada a ver com você?

Eu escolhi estar dentro. E convido você a fazer o mesmo.

*Priscila Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A, advogada e palestrante, professora de M&A e Venture Capital.

Outros artigos de Priscila Spadinger em LexLegal:

Due diligence e venda de empresas: caminhos usados pelo mercado legaltech

Quando o advogado para de crescer: o risco de ignorar mudanças, críticas e pessoas

O segredo das legaltechs que decolam: marketing como decisão de conselho

SÃO PAULO WEATHER