Flávio Bolsonaro e a crise de coordenação da Direita brasileira

José Renato Ferraz da Silveira e João Pedro Bandeira Soares*
A política brasileira, esse eterno espetáculo de variedades, costuma nos presentear com enredos dignos da dramaturgia de Nelson Rodrigues, impulsionados pelo ruidoso drama familiar que insiste em ocupar o centro do palco nacional. No ato mais recente, o senador Flávio Bolsonaro experimenta o agridoce sabor de ser apontado por setores do bolsonarismo como possível candidato à Presidência da República.
Uma posição que, nas circunstâncias atuais, assemelha-se menos a uma consagração e mais a um assento ejetor. A pergunta que circula nos corredores de Brasília já não é apenas se ele venceria uma eventual disputa presidencial, mas se sua pré-candidatura permanecerá politicamente viável até o prazo legal de registro das candidaturas.
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O cenário tornou-se ainda mais complexo após o recente tarifaço anunciado por Donald Trump contra produtos brasileiros. Em determinados segmentos da opinião pública consolidou-se a narrativa de que Flávio Bolsonaro teria atuado, direta ou indiretamente, para pressionar o governo brasileiro por meio da aproximação com setores políticos norte-americanos.
Independentemente da veracidade dessa interpretação, o dano político parece concreto. Segundo pesquisa Genial/Quaest, parcela significativa dos entrevistados associa a família Bolsonaro aos desdobramentos das tarifas. Para o eleitorado de centro — historicamente decisivo em eleições presidenciais — a situação produz desgaste evidente, pois alimenta a percepção de que interesses domésticos estariam sendo projetados sobre a política externa brasileira.
A dificuldade, contudo, não se limita ao desgaste de imagem. Em sistemas presidencialistas com segundo turno, candidaturas competitivas dependem de um delicado processo de coordenação política. A capacidade de reunir lideranças, reduzir dissidências e construir uma narrativa comum costuma ser tão importante quanto a popularidade do candidato.
Quando múltiplos atores disputam simultaneamente a liderança de um mesmo campo ideológico, o resultado frequentemente é a fragmentação do eleitorado, a dispersão de recursos políticos e a redução da capacidade de mobilização.
Enquanto administra esse desgaste externo, Flávio enfrenta um problema igualmente delicado dentro do próprio campo conservador. A direita brasileira, que durante anos atuou de maneira relativamente coesa em torno da liderança de Jair Bolsonaro, passa por um processo crescente de fragmentação.
Novas lideranças disputam espaço, diferentes projetos eleitorais surgem simultaneamente e aumenta o risco de pulverização do eleitorado. Como costuma dizer a sabedoria popular, cachorro com muito dono passa fome.
Governadores, parlamentares e dirigentes partidários começam a construir estratégias próprias para um cenário em que Jair Bolsonaro permaneça impedido de disputar a Presidência.
Nesse ambiente, a competição deixa de ocorrer apenas contra adversários ideológicos e passa a acontecer também entre potenciais herdeiros do mesmo capital político. O desafio deixa de ser exclusivamente eleitoral e transforma-se numa disputa pela legitimidade da sucessão.
Como se o cenário já não fosse suficientemente delicado, Michelle Bolsonaro passou a ocupar um espaço político próprio. Impulsionada pelo PL Mulher e por índices favoráveis em pesquisas de opinião, a ex-primeira-dama deixou de ser apenas um ativo eleitoral complementar e tornou-se protagonista de uma parcela importante do eleitorado conservador. Ainda que não exista um rompimento explícito dentro da família Bolsonaro, sua crescente autonomia inevitavelmente altera os cálculos sucessórios no interior do grupo político.
Nesse contexto surgiu mais um episódio de desgaste: a repercussão da republicação, por Michelle Bolsonaro, de um vídeo antigo do ex-governador Anthony Garotinho envolvendo alegações sobre uma suposta festa organizada pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Embora não haja demonstração de qualquer vínculo de Flávio Bolsonaro com os fatos narrados — e informações públicas indiquem que ele sequer estaria presente no local e na data mencionados — o episódio rapidamente foi incorporado ao ambiente de disputas internas da direita.
Em política, muitas vezes, a força simbólica de uma narrativa supera sua relevância factual. A simples associação de um nome a uma controvérsia, ainda que desprovida de comprovação, pode produzir custos políticos consideráveis em um ambiente altamente polarizado.
Há quem aposte que toda essa sucessão de conflitos será esquecida durante a campanha e que, diante de um eventual segundo turno, a direita voltará naturalmente a se reunir. A hipótese não é impossível. A política brasileira oferece inúmeros exemplos de antigas rivalidades superadas em nome da sobrevivência eleitoral.
Entretanto, processos de fragmentação costumam deixar cicatrizes. Lideranças que disputam protagonismo hoje nem sempre aceitam desempenhar papéis secundários amanhã, especialmente quando já desenvolveram bases próprias de apoio político e eleitoral.
Além disso, o eleitorado moderado tende a observar menos os conflitos pessoais e mais a capacidade de coordenação das forças políticas. Em democracias competitivas, a percepção de unidade, estabilidade e previsibilidade frequentemente influencia a confiança do eleitor tanto quanto os programas de governo. Uma coalizão permanentemente dividida transmite sinais de incerteza justamente para o segmento do eleitorado que costuma decidir eleições presidenciais.
Permanece, portanto, uma dúvida central: depois de tantos desgastes públicos, disputas internas e narrativas conflitantes, haverá capital político suficiente para reconstruir uma candidatura competitiva perante o eleitorado moderado? Ou a sucessão conservadora entrará para a história como mais um exemplo de que, na política, muitas derrotas começam antes mesmo da abertura oficial da campanha?
Essa talvez seja a principal incógnita do tabuleiro eleitoral que começa a ser desenhado. Mais do que definir quem representará a direita na próxima eleição presidencial, o processo em curso determinará quem exercerá a liderança política do campo conservador em um cenário de progressiva transição.
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A verdadeira disputa talvez não seja apenas pela Presidência da República, mas pela própria liderança da direita brasileira no período pós-Jair Bolsonaro. E essa sucessão, ao contrário das eleições, já começou.
Flávio Bolsonaro conseguirá reunir novamente uma direita que demonstra sinais crescentes de fragmentação?
*José Renato Ferraz da Silveira é Professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutor e Mestre em Ciência Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Editor-chefe da Revista InterAção e pesquisador nas áreas de Política Internacional, Geopolítica e Teoria das Relações Internacionais. João Pedro Bandeira Soares é graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).
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