Brasil, Estados Unidos e o uso do comércio como coerção

José Renato Ferraz da Silveira*

As relações entre Brasil e Estados Unidos sempre alternaram momentos de cooperação, divergência e competição. Com Donald Trump, porém, essa relação passou a ser marcada por um método mais agressivo: transformar questões comerciais em instrumentos de pressão política.
O objetivo não é apenas obter vantagens econômicas imediatas. Trata-se de enviar uma mensagem à maior economia da América do Sul e, ao mesmo tempo, aos demais países do chamado Sul Global: decisões soberanas que contrariem interesses estratégicos de Washington podem gerar custos econômicos significativos.
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Não se trata apenas de tarifas. Trata-se de uma forma de coerção.
Trump costuma apresentar déficits comerciais, regulações nacionais, sistemas públicos de pagamento e aproximações diplomáticas como se fossem prejuízos impostos aos Estados Unidos. A partir dessa narrativa, cria-se uma cobrança. O outro país passa a ser tratado não como parceiro soberano, mas como alguém que deve corrigir seu comportamento.
É isso que proponho chamar de diplomacia da cobrança.
Nesse modelo, primeiro se constrói uma acusação. Depois surge a ameaça de tarifas, sanções ou restrições. Em seguida, abre-se uma negociação já marcada pela desigualdade de poder. O objetivo não é apenas obter vantagens comerciais, mas elevar o custo da resistência e induzir mudanças de comportamento.
O Brasil tornou-se um alvo particularmente sensível porque busca preservar autonomia em áreas estratégicas. O Pix, a regulação das plataformas digitais, a ampliação das relações econômicas com a China e a defesa de interesses industriais nacionais podem ser apresentados por Washington como obstáculos aos negócios norte-americanos.
O problema é que decisões soberanas passam a ser reinterpretadas como infrações comerciais.
A tarifa, nesse contexto, não é apenas uma medida econômica. Ela também produz medo, incerteza e pressão interna. Empresas suspendem investimentos, exportadores perdem previsibilidade e setores econômicos pressionam o governo por concessões. Mesmo antes de ser aplicada, a ameaça já produz efeitos concretos sobre a economia e sobre o ambiente político.
Vale lembrar que o senador Flávio Bolsonaro defendeu o adiamento por 180 dias da entrada em vigor das tarifas anunciadas pelos Estados Unidos. Não questionou a legitimidade da medida em si, mas propôs mais tempo para negociação. Independentemente da avaliação política dessa posição, ela revela como a diplomacia da cobrança desloca o debate: em vez de discutir a legitimidade da pressão externa, passa-se a discutir apenas seus prazos e condições.
Trump compreende a negociação como uma disputa de força. Primeiro, ele aumenta a tensão. Depois, procura obrigar o outro lado a negociar sob pressão. Ao final, qualquer recuo do adversário pode ser apresentado como vitória.
Essa lógica revela uma visão empresarial aplicada ao poder do Estado. A diferença é que os Estados Unidos não são uma empresa comum. Dispõem da principal moeda do sistema financeiro internacional, enorme influência sobre mercados, capacidade tecnológica sem paralelo e extraordinário poder militar. A assimetria transforma uma negociação comercial em um instrumento de coerção política.
Por isso, a diplomacia da cobrança possui alcance muito maior do que uma simples disputa comercial.
Para o Brasil, o risco central está na erosão da autonomia. Se decisões regulatórias, tecnológicas ou diplomáticas forem alteradas por medo de retaliação, a pressão comercial terá alcançado um objetivo político. O comércio deixa de ser um espaço de intercâmbio econômico para transformar-se em mecanismo de condicionamento da soberania.
A resposta brasileira não deve ser impulsiva, mas firme. O país precisa preservar o diálogo com os Estados Unidos sem aceitar a condição de devedor permanente. Negociar é necessário. Submeter decisões internas à pressão externa, não.
O Brasil deve combinar serenidade diplomática, diversificação de parceiros comerciais, fortalecimento de sua infraestrutura tecnológica e defesa dos mecanismos multilaterais. Quanto maior a dependência, maior a vulnerabilidade. Quanto maior a capacidade de diversificação, menor a eficácia da ameaça.
A diplomacia da cobrança funciona quando o país pressionado aceita discutir apenas o tamanho da concessão. A primeira tarefa brasileira é rejeitar essa premissa.
Estados soberanos negociam interesses. Não recebem faturas políticas.
Trump transforma o comércio em instrumento de coerção porque compreende a política internacional como uma negociação permanente entre atores profundamente desiguais. Tarifas deixam de ser apenas instrumentos de política comercial e passam a funcionar como mecanismos de disciplina política. A mensagem é simples: quem desafia interesses estratégicos dos Estados Unidos deve estar preparado para pagar um preço econômico.
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É exatamente essa lógica que define a diplomacia da cobrança.
E é justamente contra essa lógica que o Brasil precisa defender sua autonomia, sua capacidade regulatória e sua soberania, pois soberania não é mercadoria, e a independência nacional jamais pode ser tratada como moeda de troca.
*José Renato Ferraz da Silveira é Professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutor e Mestre em Ciência Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Editor-chefe da Revista InterAção e pesquisador nas áreas de Política Internacional, Geopolítica e Teoria das Relações Internacionais.
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