A incerteza como instrumento de poder

A incerteza como instrumento de poder
Tabuleiro geopolítico reflete as tensões entre Estados Unidos e Irã e os impactos da imprevisibilidade nas relações internacionais/Magnific
Publicado em 15/07/2026 às 8:00

José Renato Ferraz da Silveira*

Há uma antiga máxima das Relações Internacionais segundo a qual a previsibilidade reduz conflitos. Tratados, instituições multilaterais e canais diplomáticos existem, em grande medida, para diminuir a incerteza e impedir que erros de percepção se transformem em crises.

Donald Trump parece desafiar essa lógica.

O recente episódio envolvendo o Estreito de Ormuz é ilustrativo. Primeiro, anunciou que pretendia cobrar uma taxa de 20% sobre as cargas transportadas por navios que utilizassem aquela rota estratégica. Pouco depois, abandonou a proposta e afirmou que buscaria acordos comerciais e investimentos dos países do Golfo Pérsico.

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À primeira vista, trata-se apenas de mais uma mudança de posição. Uma análise mais cuidadosa, porém, revela um padrão recorrente: formular uma proposta extrema, medir a reação dos mercados e dos governos, aumentar a pressão política e, finalmente, substituir a ameaça inicial por uma alternativa aparentemente mais moderada.

A mudança não representa, necessariamente, ausência de estratégia. Ela pode ser parte da estratégia.

É justamente a partir dessa constatação que proponho o conceito de diplomacia da incerteza calculada: uma forma de atuação internacional na qual a imprevisibilidade deixa de ser apenas um problema e passa a ser utilizada deliberadamente como instrumento de poder.

O objetivo não é agir de maneira irracional, mas dificultar o cálculo estratégico dos adversários, ampliar o poder de barganha e preservar maior liberdade de ação.

O episódio de Ormuz ilustra essa lógica.

Do ponto de vista jurídico, a proposta do chamado “pedágio” encontrava obstáculos significativos. O Estreito de Ormuz é uma via marítima internacional submetida a regras específicas do Direito do Mar. Os Estados Unidos não possuem soberania sobre aquela passagem e, portanto, dificilmente poderiam instituir unilateralmente uma cobrança sobre mercadorias transportadas por navios estrangeiros.

Mas talvez essa nunca tenha sido a questão principal. Mais importante do que perguntar se a proposta era juridicamente viável é compreender sua função política.

Ao anunciar uma medida extrema, Trump deslocou o centro do debate internacional. A discussão deixou de ser apenas sobre a presença norte-americana no Golfo e passou a girar em torno da possibilidade de uma cobrança extraordinária. Quando, posteriormente, substituiu a taxa por promessas de investimentos e acordos comerciais, a nova proposta passou a parecer razoável.

Essa é uma técnica clássica de negociação: apresentar inicialmente uma exigência máxima para tornar aceitável aquilo que, em condições normais, encontraria maior resistência.

Nesse sentido, os investimentos não substituem tecnicamente o pedágio, pois pertencem a categorias jurídicas completamente distintas. Um representa uma cobrança compulsória; o outro decorre de negociações entre Estados, fundos soberanos e empresas privadas.

Politicamente, contudo, ambos cumprem função semelhante: transformar a segurança oferecida pelos Estados Unidos em contrapartidas econômicas.

Sob essa lógica, alianças deixam de ser vistas apenas como compromissos estratégicos permanentes e passam a ser compreendidas como relações transacionais, nas quais proteção, comércio e investimento se tornam partes de uma mesma negociação.

A diplomacia transforma-se em transação. Essa forma de atuação possui antecedentes teóricos importantes.

Thomas Schelling demonstrou que a incerteza pode fortalecer o poder de coerção. Uma ameaça cuja execução permaneça parcialmente imprevisível pode produzir maior impacto psicológico do que uma ameaça completamente previsível.

Richard Nixon, por sua vez, desenvolveu aquilo que ficou conhecido como Madman Theory, segundo a qual o adversário deveria acreditar que o presidente norte-americano seria capaz de tomar decisões extremas caso fosse pressionado.

Trump recupera parte dessa lógica, mas a adapta ao ambiente político contemporâneo, marcado pelas redes sociais, pela velocidade da informação e pela repercussão instantânea nos mercados financeiros.

Primeiro anuncia. Depois observa. Em seguida, negocia. Por fim, apresenta o resultado como uma vitória. Essa estratégia, entretanto, possui limites.

Quando a imprevisibilidade se torna permanente, ela deixa de gerar insegurança apenas nos adversários. Passa também a produzir dúvidas entre aliados, investidores e parceiros comerciais.

Os mercados tornam-se mais voláteis. As empresas adiam investimentos. Os governos passam a buscar alternativas estratégicas. Mais grave ainda: aumenta o risco de erros de cálculo.

Na política internacional, guerras raramente começam porque seus protagonistas desejam um conflito de grandes proporções. Muitas vezes, surgem porque um dos lados interpreta incorretamente os sinais emitidos pelo outro.

Por isso, costumo afirmar que as crises internacionais raramente começam por falta de poder. Elas costumam nascer do excesso de confiança ou do erro de cálculo.

A história oferece inúmeros exemplos. A Pérsia subestimou as cidades gregas. A Espanha acreditou na invencibilidade de sua Armada. O Império Russo não compreendeu adequadamente a transformação militar japonesa em 1905. Os Estados Unidos imaginaram que venceriam rapidamente no Vietnã.

A União Soviética encontrou no Afeganistão limites que seu enorme poder militar não conseguiu superar. Em todos esses casos, a superioridade material existia. O que faltou foi prudência estratégica.

A narrativa de Davi e Golias permanece atual justamente porque simboliza essa realidade permanente das Relações Internacionais. O gigante olha para o pequeno e enxerga apenas fraqueza. O pequeno observa o gigante procurando vulnerabilidades.

E, muitas vezes, encontra. Os gregos chamavam esse excesso de confiança de hybris. Era a arrogância produzida pelo próprio sucesso. Ícaro não caiu porque lhe faltassem asas. Caiu porque acreditou que poderia ignorar os limites que tornavam possível o seu voo.

Talvez essa seja a maior advertência que a história oferece às grandes potências. A diplomacia da incerteza calculada pode produzir ganhos imediatos. Pode ampliar o poder de barganha. Pode gerar concessões.

Mas também pode corroer a confiança, aumentar a volatilidade internacional e criar crises que escapem ao controle de seus próprios formuladores.

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O episódio do Estreito de Ormuz talvez seja lembrado menos pelo pedágio que nunca existiu e mais pela maneira como revelou uma característica marcante da política externa contemporânea: a utilização deliberada da imprevisibilidade como instrumento de negociação.

Toda estratégia baseada na incerteza contém, porém, um paradoxo. Ela pretende calcular o medo do adversário. Mas nem sempre consegue calcular as consequências de si mesma.

*José Renato Ferraz da Silveira é Professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutor e Mestre em Ciência Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Editor-chefe da Revista InterAção e pesquisador nas áreas de Política Internacional, Geopolítica e Teoria das Relações Internacionais.

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