China amplia uso do yuan na África para reduzir dependência do dólar

China amplia uso do yuan na África para reduzir dependência do dólar
Acordos bancários reforçam comércio bilateral, mas dólar segue dominante/Magnific
Publicado em 06/07/2026 às 15:00

Da Redação de LexLegal

A China está ampliando sua estrutura financeira na África para facilitar transações comerciais em yuan e moedas locais, reduzindo a necessidade de utilizar o dólar em operações entre empresas dos dois lados. A estratégia avança com novos acordos bancários, mas especialistas avaliam que a moeda chinesa ainda ocupa uma participação pequena no comércio internacional e está longe de substituir a divisa americana.

No fim de junho, o Banco Popular da China autorizou que pagamentos em yuan fossem processados diretamente pelo Standard Bank, maior grupo bancário da África, em parceria com o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC). A medida permite que empresas realizem pagamentos e recebimentos diretamente na moeda chinesa, sem a necessidade de converter valores para dólares durante a operação.

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Segundo o Standard Bank, presente em 21 países africanos, a parceria amplia as opções para empresas que mantêm relações comerciais com a China. “[A parceria] nos coloca em uma posição única para lidar com renminbi chinês (RMB), permitindo que as empresas façam e recebam pagamentos em RMB para liquidações comerciais, viabilizando o comércio entre a África e a China”, informou o banco em comunicado.

A China é hoje o principal parceiro comercial do continente africano. Dados da Administração Geral das Alfândegas da China indicam que, entre 2000 e 2024, o comércio entre as duas regiões cresceu, em média, 14% ao ano. Em maio deste ano, Pequim também eliminou tarifas de importação para diversos produtos africanos, medida que tende a ampliar ainda mais esse intercâmbio.

Yuan cresce, mas participação ainda é pequena

Apesar dos avanços, especialistas afirmam que o yuan ainda representa uma fatia reduzida das transações globais. O analista geopolítico Marco Fernandes, integrante do Conselho Popular do Brics, avalia que a estratégia chinesa busca criar uma infraestrutura financeira para reduzir gradualmente a dependência do dólar.

“Isso é um começo. A China tem feito uma série de iniciativas, como essas, no mundo inteiro para poder comercializar sem o dólar. Mas o montante negociado em yuan é ainda irrelevante considerando o tamanho da economia global. É como se eles estivessem construindo os trilhos para o trem bala chinês passar no futuro”, afirmou Marco Fernandes, analista geopolítico do Conselho Popular do Brics.

Segundo Fernandes, a maior parte das negociações internacionais de commodities, como petróleo, minério e alimentos, continua sendo realizada em dólares.

“O yuan é hoje a quinta moeda de comércio mundial com cerca de 8,5% das transações globais, ou seja, muito pouco ainda. Mas está crescendo se você comparar com três, cinco ou dez anos atrás”, disse Fernandes.

China evita avanço acelerado da desdolarização

O fortalecimento do yuan faz parte de uma agenda defendida por integrantes do Brics, grupo formado por economias emergentes que inclui Brasil, China, Índia e África do Sul. O objetivo é ampliar o uso de moedas nacionais nas transações internacionais e reduzir a dependência do dólar, que concentra boa parte do comércio mundial e das reservas internacionais.

Ao mesmo tempo, especialistas observam que a própria China adota cautela. O país mantém grandes reservas em ativos denominados em dólar e procura evitar mudanças bruscas que possam afetar sua economia ou comprometer a competitividade das exportações chinesas.

Outro fator é que Pequim mantém controle sobre a movimentação internacional de capitais. Essa política limita a livre circulação de recursos financeiros para reduzir riscos de instabilidade provocados por movimentos especulativos nos mercados globais.

“Uma rápida desvalorização do dólar significaria um prejuízo muito grande, tanto para o Estado chinês, quanto para as empresas chinesas. É preciso que esse processo de desdolarização seja lento, gradual e seguro”, afirmou Fernandes.

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O debate sobre alternativas ao dólar também ganhou força dentro do Brics. Em artigo publicado neste ano, o economista Paulo Nogueira Batista Jr., ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, propôs a criação de uma unidade de conta baseada em uma cesta de moedas dos países do Sul Global, que futuramente poderia evoluir para uma nova moeda voltada ao comércio internacional. Segundo ele, a proposta evitaria a substituição direta do dólar pelo yuan e criaria uma alternativa compartilhada entre economias emergentes.

SÃO PAULO WEATHER