Paixão pelo futebol expõe população à publicidade de bets

Paixão pelo futebol expõe população à publicidade de bets
Publicidade das casas de apostas cresce durante a Copa do Mundo e reacende o debate sobre proteção ao consumidor, saúde mental e regulação do setor/Divulgação / Adidas
Publicado em 27/06/2026 às 17:00

Da Redação de LexLegal

A Copa do Mundo de 2026 promete movimentar bilhões de dólares em apostas esportivas e consolidar ainda mais um mercado que cresce em ritmo acelerado no Brasil. Ao mesmo tempo em que as empresas do setor comemoram o aumento esperado nas receitas, especialistas, entidades de defesa do consumidor e pesquisadores alertam para os impactos jurídicos, econômicos e sociais dessa expansão.

O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) avalia que grandes eventos esportivos funcionam como um ambiente propício para ampliar a influência da publicidade das chamadas bets. Para a entidade, a combinação entre emoção, exposição intensa a campanhas publicitárias e facilidade de acesso às plataformas aumenta o risco de novos consumidores ingressarem nesse mercado, inclusive pessoas que normalmente não apostam.

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O alerta ganhou força após a divulgação de um estudo da Softswiss, empresa fornecedora de tecnologia para plataformas de apostas online. Segundo a pesquisa, o volume mundial de apostas esportivas durante a Copa pode crescer pelo menos 50% em comparação com o torneio de 2022.

Em termos financeiros, a expectativa é que o mercado passe de aproximadamente US$ 35 bilhões movimentados na edição anterior para cerca de US$ 52 bilhões neste Mundial.

“Os principais motores desse crescimento são o formato ampliado do torneio, o avanço contínuo dos mercados regulamentados de apostas, as melhorias na experiência de apostas móveis e a capacidade única da Copa do Mundo de atrair apostadores frequentes e ocasionais em todo o mundo”, afirma Alexander Kamenetsky, diretor de Operações da Softswiss.

A ampliação da competição ajuda a explicar parte desse crescimento. A Copa passou de 32 para 48 seleções e de 64 para 104 partidas. Mais jogos significam mais mercados de apostas, mais oportunidades de publicidade e maior tempo de exposição do público às plataformas.

Segundo estimativas do setor, os brasileiros poderão responder por aproximadamente 10% das apostas realizadas no mundo durante a competição. Esse percentual pode aumentar caso a seleção brasileira avance até as fases finais do torneio.

Os primeiros números já indicam uma forte movimentação financeira.

Dados do Placar das Bets, plataforma criada pela empresa de análise de dados Klavi com informações do sistema Open Finance, mostram que, desde 9 de junho, os brasileiros já gastaram mais de R$ 530 milhões em apostas esportivas relacionadas ao Mundial.

O gasto médio por apostador também aumentou rapidamente. Antes do início da competição, cada usuário havia desembolsado cerca de R$ 188. Poucos dias depois, esse valor já alcançava R$ 242.

Embora esses números sejam comemorados pelas empresas do setor, o Idec faz uma leitura completamente diferente.

“Eventos esportivos de grande mobilização emocional tendem a ampliar significativamente a exposição da população à publicidade de bets, atingindo não apenas apostadores habituais, mas também consumidores ocasionais e pessoas em situação de vulnerabilidade”, afirma, em nota, o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec).

Para a entidade, o problema não está apenas no crescimento das apostas. A principal preocupação é a forma como elas são apresentadas ao público.

Nos últimos anos, casas de apostas passaram a ocupar espaços antes dominados por bancos, montadoras e empresas de telefonia. Estão nas camisas dos clubes, nas placas dos estádios, nas transmissões esportivas, nas redes sociais e em campanhas protagonizadas por influenciadores digitais, atletas e ex-jogadores.

Esse cenário provocou uma mudança importante no comportamento do consumidor. A aposta deixou de aparecer como uma atividade excepcional e passou a integrar o cotidiano do futebol.

Do ponto de vista jurídico, esse crescimento ocorreu após uma sequência de mudanças legislativas. As apostas esportivas foram autorizadas pela Lei nº 13.756, de 2018. Durante vários anos, porém, o mercado operou sem regulamentação efetiva.

Somente em 2023 foram estabelecidas regras mais detalhadas para funcionamento das plataformas, fiscalização, tributação e publicidade. Mesmo assim, o debate jurídico continua longe de um consenso.

O próprio Idec defende que o Supremo Tribunal Federal declare inconstitucionais as normas que permitiram a exploração comercial das apostas esportivas online. Enquanto isso não acontece, a entidade sustenta que as regras atuais sobre publicidade continuam insuficientes para proteger consumidores.

“O que se observa hoje é uma naturalização crescente das apostas, impulsionada por campanhas massivas e pela atuação de influenciadores digitais, atletas, clubes e plataformas que apresentam o jogo como entretenimento simples, divertido e potencialmente lucrativo”, afirmou o Idec.

Segundo a entidade, esse tipo de comunicação tende a reduzir a percepção dos riscos envolvidos, especialmente entre jovens, consumidores ocasionais e pessoas em situação de vulnerabilidade econômica.

A preocupação vai além das perdas financeiras. Para o instituto, o discurso publicitário frequentemente deixa em segundo plano problemas já observados no Brasil, como superendividamento, comprometimento da renda familiar e impactos sobre a saúde mental.

É justamente nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas econômica e passa a envolver direitos do consumidor, saúde pública, responsabilidade das plataformas e limites constitucionais para a publicidade de atividades potencialmente nocivas.

Publicidade, comportamento e o desafio da regulação

A discussão também envolve a forma como as pessoas tomam decisões financeiras durante grandes eventos esportivos. Para o professor da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ahmed El Khatib, o crescimento das apostas durante a Copa é resultado da combinação entre emoção, tecnologia e publicidade.

“Cada partida gera centenas de combinações distintas: do resultado final ao número de cartões, escanteios, faltas e expulsões. Tudo gera apostas. O que multiplica exponencialmente o volume de dinheiro movimentado. Então, é claro que torneios como a Copa são um grande negócio para as casas de apostas”, explica El Khatib.

Segundo o especialista, o avanço dos aplicativos tornou as apostas mais acessíveis. Hoje, basta um telefone celular para que qualquer pessoa participe do mercado em poucos segundos, em qualquer lugar e a qualquer momento.

“Sob a ótica comportamental, estes grandes eventos esportivos despertam muitas emoções. Algumas pessoas que normalmente não apostam, acabam fazendo isso por influência de fatores comportamentais. Além disso, com a evolução tecnológica, a pessoa consegue apostar de onde e quando quiser, usando um telefone celular”, diz El Khatib.

O pesquisador explica que esse comportamento é conhecido pela psicologia econômica. Grandes competições criam um ambiente de entusiasmo coletivo que reduz a percepção de risco e aumenta a confiança dos torcedores na própria capacidade de prever resultados.

“As pessoas acham que conhecem muito bem os jogadores e as equipes; acham que são capazes de antecipar todas as variáveis de uma partida e superestimam suas capacidades de prever os resultados”, explica El Khatib.

Essa percepção tem reflexos econômicos relevantes. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), entre janeiro de 2023 e março de 2025, o aumento dos gastos com apostas retirou cerca de R$ 143 bilhões do comércio varejista.

O dinheiro que antes era destinado ao consumo de bens e serviços passou a alimentar um mercado cuja lógica econômica é diferente da atividade produtiva tradicional.

“Diferentemente do consumo tradicional, boa parte desse dinheiro [captado pelas bets] não financia bens de produção ou serviços. Em grande medida, é uma redistribuição de riqueza entre apostadores. Os perdedores bancam os ganhadores”, observou El Khatib.

Ao mesmo tempo, o professor reconhece que o setor também gera arrecadação tributária, movimenta empresas de tecnologia, meios de pagamento, publicidade e mídia esportiva. O mercado tornou-se um dos principais patrocinadores do futebol brasileiro, financiando clubes, campeonatos e transmissões.

Esse crescimento econômico, entretanto, amplia o desafio regulatório.

Hoje, o Brasil possui regras para funcionamento das plataformas autorizadas, exigências de identificação dos apostadores, mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro e limitações para publicidade. Mesmo assim, especialistas avaliam que o modelo ainda está em construção e deverá passar por novos ajustes à medida que os impactos sociais forem medidos.

Outro ponto discutido é a responsabilidade das próprias plataformas. Para El Khatib, as empresas poderiam utilizar inteligência artificial para identificar comportamentos compulsivos, limitar apostas sucessivas e interromper automaticamente o acesso de usuários com sinais claros de dependência.

“Também acho que as plataformas deveriam ser mais transparentes, sendo obrigadas a informar, por exemplo, a possibilidade real de ganhos em curto e médio prazos”, concluiu El Khatib destacando que a prevenção tende a ser mais eficaz e menos custosa em termos de saúde pública do que o tratamento das pessoas.

Especialistas também defendem campanhas permanentes de educação financeira, regras mais rígidas para publicidade e restrições à associação das apostas com promessas de enriquecimento ou sucesso financeiro. A ideia é aproximar a regulação das bets da lógica já adotada para produtos que oferecem riscos à saúde, como bebidas alcoólicas e cigarros.

O debate tende a ganhar força nos próximos meses. A ampliação da Copa do Mundo, o crescimento do mercado brasileiro e o aumento da participação das bets no financiamento do esporte colocam o tema entre os principais desafios regulatórios do país. A discussão envolve liberdade econômica, proteção ao consumidor, saúde pública e responsabilidade social das empresas, temas que devem continuar chegando aos tribunais e ao Congresso Nacional.

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A reportagem procurou a Associação de Bets e Fantasy Sport (ABFS) para comentar as críticas apresentadas na reportagem, mas a entidade não havia se manifestado até a publicação do texto. Com informações da Agência Brasil.

SÃO PAULO WEATHER