O Brasil continua sendo o país que move a América do Sul?

José Renato Ferraz da Silveira*

“Para onde vai o Brasil, a América do Sul vai atrás.” A frase é frequentemente atribuída ao ex-presidente norte-americano Harry S. Truman (1945-1953). Independentemente da precisão histórica dessa citação, ela sintetiza uma percepção que permanece viva nas chancelarias, nos mercados e nos centros de inteligência estratégica: quando o Brasil muda de direção, o continente inevitavelmente sente os efeitos.
Os acontecimentos das últimas semanas reforçam essa realidade. Ao compartilhar em sua rede social um artigo que classificava a próxima eleição presidencial brasileira como o “próximo grande teste” para a direita latino-americana e a disputa política mais consequente do hemisfério, Donald Trump recolocou o Brasil no centro do debate geopolítico regional.
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A resposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi imediata. Ao afirmar que as eleições brasileiras dizem respeito exclusivamente aos brasileiros, o presidente evocou um dos princípios estruturantes das Relações Internacionais: a soberania.
O episódio, entretanto, vai muito além da troca de declarações entre dois líderes políticos. Ele evidencia uma realidade frequentemente negligenciada no debate público: o Brasil permanece sendo o principal polo de gravidade da América do Sul.
O país responde por aproximadamente metade do território, da população e do Produto Interno Bruto da região. É a maior potência agrícola do continente, uma das maiores economias do planeta, detentor de recursos naturais estratégicos e protagonista em temas como segurança alimentar, transição energética, Amazônia, mudanças climáticas e integração regional. Poucos países concentram, simultaneamente, tamanho peso econômico, territorial, demográfico e diplomático.
Por essa razão, eleições brasileiras nunca são apenas eleições brasileiras.
Cada mudança de orientação política em Brasília produz efeitos sobre negociações comerciais, investimentos, prioridades diplomáticas, mecanismos de integração regional e sobre o próprio equilíbrio de poder sul-americano. Não surpreende, portanto, que governos estrangeiros, organismos multilaterais, investidores e empresas acompanhem atentamente o processo político brasileiro.
Confundir esse interesse com interferência, contudo, seria um equívoco analítico.
Na política internacional, observar é natural. Influenciar também faz parte da dinâmica do poder. O limite encontra-se quando essa influência busca substituir a vontade soberana dos cidadãos. Democracias maduras convivem com a atenção internacional, mas preservam um princípio fundamental: a decisão política pertence exclusivamente ao eleitorado nacional.
Essa preocupação não é nova.
Durante a Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética disputaram influência política em praticamente todos os continentes. Eleições, partidos políticos, meios de comunicação e movimentos sociais tornaram-se instrumentos da competição estratégica entre as grandes potências. O mundo mudou desde então, mas a lógica do poder permanece surpreendentemente semelhante.
A diferença é que, no século XXI, essa disputa ocorre em velocidade muito maior.
As redes sociais reduziram drasticamente a distância entre política doméstica e política internacional. Hoje, uma declaração publicada em Washington repercute instantaneamente em Brasília.
Um pronunciamento feito no Palácio do Planalto é imediatamente analisado em Nova York, Bruxelas, Pequim ou Moscou. Narrativas, percepções e disputas por influência atravessam fronteiras em questão de segundos.
Nesse contexto, a questão central não é saber por que o mundo acompanha as eleições brasileiras. A resposta é simples. Porque o Brasil importa.
Importa para os Estados Unidos, que enxergam na estabilidade política regional um componente relevante de sua estratégia hemisférica. Importa para a China, principal parceiro comercial brasileiro e grande investidor em infraestrutura e energia.
Importa para a União Europeia, em razão das negociações comerciais e das agendas ambiental e climática. Importa para a Rússia e para os demais membros dos BRICS, que observam o papel crescente do Brasil na construção de uma ordem internacional mais multipolar.
A verdadeira questão, portanto, não é explicar o interesse internacional pelo Brasil.
O desafio consiste em compreender como uma potência regional preserva sua autonomia decisória em um sistema internacional cada vez mais competitivo, conectado e permeado por disputas de influência.
A eleição brasileira de 2026, portanto, transcende as fronteiras nacionais. Em um momento em que parte significativa da América do Sul experimenta uma inflexão política em direção a governos conservadores e de centro-direita, enquanto Washington procura ampliar sua influência regional, o resultado brasileiro produzirá repercussões muito além de Brasília.
Mais do que definir quem ocupará o Palácio do Planalto, a disputa ajudará a determinar o posicionamento da principal potência sul-americana diante da nova configuração geopolítica do continente.
O Brasil acompanhará a reconfiguração política observada em parte da região ou seguirá uma trajetória própria, preservando sua tradição de autonomia diplomática e pragmatismo na política externa?
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A resposta interessará muito além dos eleitores brasileiros. Ela será acompanhada atentamente por governos, mercados financeiros, organismos multilaterais e centros de decisão espalhados pelo mundo.
Porque, no fim das contas, continua válida uma antiga percepção da geopolítica sul-americana: quando o Brasil muda de direção, dificilmente a América do Sul permanece a mesma.
*José Renato Ferraz da Silveira é Professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutor e Mestre em Ciência Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Editor-chefe da Revista InterAção e pesquisador nas áreas de Política Internacional, Geopolítica e Teoria das Relações Internacionais.
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