Enquanto a advocacia debate se a IA é ameaça, o resto da empresa já decidiu o que fazer com ela

Priscila Spadinger*

Estou escrevendo este artigo poucas horas antes de subir ao palco do Minas Summit para contar como transformamos a Aleve em uma tese de mais de R$200 milhões em legaltechs. Mas o gatilho deste texto não foi o meu painel. Foi a grade de horários do evento, que abri no celular enquanto espero minha vez de entrar.
Reparei em algo estranho. Antes do nosso painel, alguém fala sobre como a inteligência artificial está fugindo do modismo dentro das empresas. Depois de nós, o assunto é Service as a Software no ambiente jurídico e a maior dor do pós-venda.
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No mesmo palco, ao longo dos dois dias do evento, tem painel sobre liderança e colaboração na era da IA, sobre governança e reestruturação de poder dentro das empresas, sobre a passagem da era da informação para a era da decisão, sobre experiência do cliente e, lá pelo fim da tarde, sobre como a inteligência artificial já está sendo aplicada ao agronegócio.
Nenhum desses títulos fala de Direito. E todos eles são sobre Direito.
São sobre governança. São sobre risco. São sobre quem decide o quê, com base em quê, e quem responde por isso quando dá errado. Coloque qualquer head jurídico, qualquer compliance officer, qualquer sócio de escritório para assistir a esses painéis, e ele vai sair de lá com mais repertório prático do que em boa parte dos eventos jurídicos que conheço.
O painel que eu vim apresentar
No painel que apresentarei logo mais, contarei como a Aleve se tornou a única venture builder do Brasil com tese exclusiva em legaltechs: fundada em 2021, hoje avaliada em mais de R$200 milhões, com mais de 15 legaltechs investidas e 80% de crescimento de valor em um único ano.
Mostraremos cases reais de como a IA já mudou a rotina de quem trabalha com contrato, automatizando redação, análise e revisão com IA generativa no jurídico. Mas também mostraremos como a mesma tecnologia já monitora conformidade trabalhista em tempo real no RH, e já protege caixa de empresa checando fornecedor e analisando documento no financeiro.
Ou seja: o nosso painel, que tecnicamente é sobre legaltech, também não é só sobre Direito. É sobre RH. É sobre financeiro. É sobre uma mesma onda de tecnologia atravessando departamentos que, há cinco anos, dificilmente trocariam um e-mail entre si.
A advocacia ainda separa o que o mercado já uniu
Esse é o ponto que mais me incomoda, e por isso decidi escrever este texto ainda dentro do evento, antes de descer do palco. A advocacia brasileira insiste em tratar legaltech como nicho. Um assunto de painel temático, de comunidade fechada, de coluna especializada (a minha, inclusive). Como se fosse uma ilha.
Só que o resto do mercado não pensa assim. Na sala ao lado da nossa, no mesmo Minascentro, falamos sobre o case Zarp da Localiza, sobre assessoria de imprensa como estratégia de reputação mensurável, sobre o exit da Cria.AI, vendida para a Preâmbulo Tech, sobre Service as a Software substituindo o SaaS tradicional.
No palco do Mineirão é tudo Innovation Race, captação de capital semente, rodada de venture capital. Em nenhum desses espaços alguém separa tecnologia jurídica de tecnologia. É a mesma transformação, vista por ângulos diferentes.
O mercado global de legaltechs deve chegar a US$68 bilhões até 2034, crescendo 8,7% ao ano, e as legaltechs com IA devem crescer 31% ao ano até 2029. Esse crescimento não vem só de departamento jurídico comprando software jurídico. Vem de empresa inteira decidindo, de uma vez, repensar como produz, vende, contrata e decide.
No Brasil, o ecossistema de legaltechs já passa de 600 startups ativas, segundo a AB2L. Isso deixou de ser nicho. É setor, com captação, fusão e aquisição, e ciclo de liquidez de verdade, como vimos com a venda da Cria.AI para a Preâmbulo Tech. Só que esse setor continua sendo discutido, dentro da advocacia, como se fosse curiosidade de congresso.
Quem compra inovação jurídica hoje não está mais só dentro do departamento jurídico.
Está no RH que precisa de compliance trabalhista automatizado. Está no financeiro que precisa proteger caixa. Está no dono de empresa que assistiu, de manhã, o painel sobre IA no agronegócio e, à tarde, quer saber por que o jurídico dele ainda demora dez dias para devolver um contrato simples.
O que eu levo deste palco
É exatamente esse o método que usamos na Aleve: entender a dor de quem compra, seja ela jurídica, financeira ou de RH, antes de construir qualquer linha de código. Convidar a advocacia a olhar para os painéis de venda, de RH, de governança, de agronegócio não é desviar da pauta. É a pauta.
Quem estiver no Minas Summit hoje e passar pelo evento só assistindo painel com a palavra Direito no título vai sair de lá achando que viu pouco. Quem passar pelo dia todo, sala por sala, vai sair sabendo exatamente o que vai bater na porta do departamento jurídico dentro de poucos meses, porque já bateu primeiro na porta do RH, do comercial e do financeiro da mesma empresa.
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A pergunta que fica, para quem lê este artigo de dentro de um escritório ou de um departamento jurídico, é simples: você está acompanhando a mesma transformação que está acontecendo nas outras salas da sua empresa? Ou está esperando que ela chegue até você, sozinha, com aviso prévio?
Eu escolhi estar nas duas salas ao mesmo tempo. Convido você a fazer o mesmo.
*Priscila Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A, advogada, palestrante e professora de M&A e Venture Capital.
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