ONU alerta: degradação dos oceanos ameaça clima e costa do Brasil

ONU alerta: degradação dos oceanos ameaça clima e costa do Brasil
Relatório global aponta avanço do degelo na Antártica, aumento do nível do mar, poluição e riscos para o agronegócio, cidades costeiras e segurança alimentar/Prefeitura Macaé/Divulgação
Publicado em 13/06/2026 às 7:00

Da Redação de LexLegal

A saúde dos oceanos está piorando em ritmo acelerado e os efeitos já chegam ao Brasil. O alerta faz parte da Terceira Avaliação Global dos Oceanos, divulgada pela Organização das Nações Unidas (ONU), que aponta impactos crescentes sobre o clima, a economia, a biodiversidade e a segurança alimentar.

O estudo reúne dados científicos de diversos países e destaca que o avanço do degelo nos polos, o aumento da poluição marinha e as mudanças na dinâmica dos oceanos podem afetar diretamente setores estratégicos da economia brasileira, como agronegócio, pesca, turismo e infraestrutura costeira.

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Entre os autores do relatório está o pesquisador marinho Ronaldo Christofoletti, que chama atenção para a velocidade das transformações registradas nos últimos anos e seus reflexos sobre o território brasileiro.

Degelo na Antártica altera clima e ciclo de chuvas

Um dos pontos centrais do relatório é a aceleração do degelo na Antártica. Segundo os pesquisadores, os últimos quatro anos registraram níveis recordes de perda de gelo no continente, fenômeno que contribui para a elevação do nível dos oceanos e interfere na circulação atmosférica.

“Os últimos quatro anos são recordes de degelo na Antártica. Isso influencia drasticamente toda a sociedade brasileira, porque a gente está falando de mais água no oceano e uma desregulação da relação do oceano com a atmosfera, que faz alterar as frentes frias. A frente fria regula o clima no Brasil, regula o agronegócio, regula o ciclo de chuva”, afirmou Ronaldo Christofoletti, pesquisador marinho e autor da Terceira Avaliação Global dos Oceanos da ONU.

De acordo com o relatório, a velocidade de elevação do nível do mar aumentou mais de 50% nos últimos quatro anos e alcançou uma média de 4,3 milímetros por ano. Embora o número pareça pequeno, especialistas explicam que o acúmulo contínuo desse processo pode ampliar riscos de erosão costeira, alagamentos e perda de áreas urbanas próximas ao mar.

Mais de 8 mil quilômetros de costa sob pressão

O Brasil possui cerca de 8,5 mil quilômetros de litoral e concentra parte relevante da população e da atividade econômica em cidades costeiras. O avanço do mar é apontado pelos cientistas como uma ameaça crescente para diversas regiões.

Segundo o estudo, algumas áreas já apresentam processos de erosão costeira, caracterizados pelo desgaste gradual das praias e da faixa de areia causado pela ação das ondas, correntes marítimas e mudanças climáticas.

Os impactos podem atingir infraestrutura urbana, portos, rodovias, empreendimentos turísticos e comunidades instaladas próximas ao oceano. Capitais como Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Santos aparecem frequentemente em estudos sobre vulnerabilidade costeira.

Os pesquisadores também alertam que a interação entre a umidade transportada pela Amazônia e as massas de ar frio vindas da Antártica está sofrendo alterações. Essa mudança pode influenciar o regime de chuvas e aumentar a frequência de eventos extremos.

Microplásticos e medicamentos avançam nos mares

O relatório também aponta crescimento da contaminação dos oceanos por resíduos produzidos pela atividade humana.

Segundo o levantamento, triplicou nos últimos quatro anos o número de espécies marinhas em que foram identificados microplásticos. Essas partículas microscópicas surgem a partir da degradação de embalagens, roupas sintéticas e outros produtos descartados inadequadamente.

Além do plástico, pesquisadores encontraram 56 substâncias farmacêuticas diferentes em ambientes marinhos. Os compostos chegam ao oceano principalmente por meio de sistemas de esgoto e descarte inadequado de medicamentos.

“A gente passa a um impacto de poluição por esgoto, por fármaco, por plástico, que está afetando todo o ambiente. E isso conecta com o oceano que regula o clima. Porque quando ele está poluído por todas essas fontes de recursos, é como se ele tivesse intoxicado. Um oceano que não está bem, ele não está com saúde para regular o clima”, afirmou Ronaldo Christofoletti.

Os cientistas alertam que a poluição marinha não afeta apenas animais e ecossistemas. Há preocupação crescente com impactos sobre a cadeia alimentar e sobre atividades econômicas ligadas à pesca.

Ciência ganha papel estratégico

Outro destaque da avaliação da ONU é a necessidade de ampliar investimentos em pesquisa científica. Segundo os especialistas, compreender o funcionamento dos oceanos será fundamental para enfrentar os desafios climáticos das próximas décadas.

O relatório destaca que vastas áreas do fundo do mar permanecem pouco conhecidas pela ciência. Em muitos aspectos, os pesquisadores possuem mais informações sobre a superfície da Lua do que sobre as regiões mais profundas dos oceanos.

A expectativa é que estudos futuros permitam identificar novos compostos para medicamentos, materiais inovadores e minerais considerados estratégicos para a transição energética e para o desenvolvimento tecnológico.

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Para os autores do relatório, a exploração desses recursos exige planejamento, monitoramento ambiental e produção de conhecimento científico. A avaliação da ONU conclui que a recuperação da saúde dos oceanos deixou de ser uma questão exclusivamente ambiental e passou a integrar debates sobre economia, segurança alimentar, infraestrutura e estabilidade climática em escala global.

SÃO PAULO WEATHER