A guerra às drogas fracassou, mas continua útil para o poder

A guerra às drogas fracassou, mas continua útil para o poder
Mais de 110 mil pessoas morrem por overdose todos os anos no país/Magnific
Publicado em 01/06/2026 às 16:00

José Renato Ferraz da Silveira*

Existe algo profundamente contraditório na forma como os Estados Unidos continuam se apresentando ao mundo como referência no combate ao narcotráfico enquanto enfrentam uma das maiores crises de drogas da própria história.

Mais de 110 mil pessoas morrem por overdose todos os anos no país. O fentanil, opioide sintético extremamente potente, se espalhou pelas grandes cidades americanas de maneira devastadora. Em bairros inteiros de cidades como Filadélfia, São Francisco, Portland e Los Angeles, o colapso social provocado pela dependência química deixou de ser exceção e virou parte da paisagem urbana.

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As imagens circulam diariamente nas redes sociais: pessoas desacordadas nas calçadas, regiões dominadas por drogas, moradores de rua em massa e sistemas públicos incapazes de responder ao problema.

Mesmo assim, o discurso oficial americano continua apontando para fora.
A lógica permanece quase intacta desde os anos 1970, quando Richard Nixon lançou oficialmente a chamada “War on Drugs”, a Guerra às Drogas. O objetivo declarado era destruir o tráfico internacional, reduzir o consumo e enfraquecer organizações criminosas.
Décadas depois, o resultado é difícil de defender.

O narcotráfico continua globalizado, os cartéis seguem funcionando, o consumo interno americano permanece gigantesco e o encarceramento em massa virou uma das marcas mais controversas do sistema penal dos Estados Unidos.

A guerra às drogas produziu presídios lotados, fortalecimento de facções, violência policial, militarização de fronteiras e um mercado ilegal extremamente sofisticado.
Ela nunca eliminou o tráfico. Em muitos casos, ajudou a torná-lo mais lucrativo e mais organizado.

A própria experiência latino-americana mostra isso. O Plano Colômbia, financiado pelos Estados Unidos ao longo de décadas, não eliminou a produção de cocaína. O combate militar aos cartéis mexicanos também não encerrou o tráfico. Pelo contrário: fragmentou grupos criminosos e espalhou ainda mais violência.

No Brasil, o cenário não é muito diferente. Facções como PCC e Comando Vermelho cresceram justamente dentro do sistema prisional criado para combater o crime organizado. A prisão virou centro de recrutamento, expansão financeira e articulação criminosa.

Enquanto isso, os EUA seguem tentando ocupar o papel de autoridade moral global no tema.
E talvez seja justamente aí que a discussão fique mais delicada. O narcotráfico virou também ferramenta geopolítica.

A discussão sobre PCC, Comando Vermelho e narcoterrorismo deixou de ser apenas policial.
Ela passou a ocupar espaço dentro da geopolítica internacional. Nos últimos anos, autoridades americanas começaram a ampliar o uso de conceitos ligados ao terrorismo para enquadrar organizações criminosas latino-americanas.

O debate ganhou força principalmente dentro de setores políticos ligados ao trumpismo e à ala de segurança nacional americana. O problema é que o termo “terrorismo” carrega consequências muito maiores do que simples cooperação policial.

Quando os Estados Unidos classificam uma organização como terrorista, eles ampliam significativamente sua capacidade de atuação internacional. Isso inclui sanções financeiras, bloqueio de ativos, monitoramento internacional de transações e pressão diplomática sobre outros países.

Em determinadas circunstâncias, esse enquadramento também abre espaço político para ações extraterritoriais sob o argumento de defesa da segurança nacional. A história recente mostra que Washington costuma expandir sua atuação global sempre utilizando justificativas moralmente fortes.

Já foi o combate ao comunismo. Depois veio a guerra ao terror. Agora surge com força crescente o conceito de narcoterrorismo. O mecanismo político é parecido: transformar um problema criminal ou regional em ameaça internacional. A coincidência geográfica chama atenção

Existe outro fator que torna esse debate ainda mais sensível: os recursos estratégicos. O Brasil possui algumas das maiores reservas de minerais críticos e terras raras do planeta. Esses minerais são fundamentais para inteligência artificial, baterias elétricas, semicondutores, indústria militar, transição energética e tecnologias avançadas.

O mundo atual depende desses recursos para praticamente tudo que envolve tecnologia de ponta. Controlar minerais críticos hoje pode ser tão estratégico quanto controlar petróleo no século XX. E isso muda completamente o peso geopolítico do Brasil.

O país deixa de ser visto apenas como potência agrícola ou mercado consumidor. Passa a ocupar espaço importante na disputa global por recursos estratégicos. Historicamente, existe um padrão difícil de ignorar. Muitas regiões que sofreram intervenções americanas ao longo das últimas décadas também possuíam importância econômica ou energética relevante.

Iraque, Líbia, Venezuela, Irã e vários países latino-americanos convivem há décadas com pressões diplomáticas, econômicas ou militares associadas a interesses geopolíticos. As justificativas quase sempre chegam embaladas em discursos sobre democracia, liberdade, segurança internacional ou direitos humanos.

Isso não significa automaticamente que toda ação internacional americana seja ilegítima ou conspiratória. O narcotráfico é um problema real. Facções criminosas representam ameaça concreta. O PCC possui atuação transnacional e movimenta bilhões de reais em drogas, armas e lavagem de dinheiro.

Mas a pergunta desconfortável continua existindo. Onde termina o combate legítimo ao crime organizado e onde começam interesses estruturais ligados à influência global? Os EUA enfrentam um problema que eles próprios não resolveram A crise do fentanil expõe uma contradição importante.
Os Estados Unidos nunca conseguiram resolver internamente o próprio problema de drogas. O país continua sendo um dos maiores mercados consumidores do planeta. Boa parte da violência internacional ligada ao narcotráfico existe justamente porque há enorme demanda de consumo dentro do território americano.

Sem mercado consumidor bilionário, os cartéis perderiam parte relevante do poder econômico. Ainda assim, o foco histórico da política antidrogas americana quase sempre recaiu sobre países produtores ou rotas internacionais. Durante décadas, a lógica predominante foi militarizar fronteiras, financiar operações policiais e pressionar governos estrangeiros.

Os resultados continuam limitados. As drogas mudam. As rotas mudam. Os cartéis mudam.
Mas o mercado continua funcionando. O Brasil entra num território delicado O debate atual sobre PCC, Comando Vermelho e terrorismo coloca o Brasil diante de uma situação complexa.

Por um lado, existe necessidade real de cooperação internacional contra lavagem de dinheiro, tráfico internacional de armas e crime organizado transnacional. Por outro, cresce o receio de que temas ligados à segurança pública passem a funcionar como porta de entrada para pressões geopolíticas maiores.

A América Latina conhece bem esse tipo de dinâmica histórica. O continente inteiro passou décadas convivendo com intervenções externas justificadas em nome de ameaças excepcionais. O discurso muda conforme a época. O mecanismo político muitas vezes permanece parecido.

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O século XXI talvez esteja testemunhando uma nova disputa global por influência, recursos estratégicos e domínio tecnológico. E, nesse cenário, o combate ao narcotráfico parece cada vez menos restrito à segurança pública. Ele também passou a ocupar espaço dentro da arquitetura de poder internacional.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-3).

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