PCC e CV viram peça geopolítica nas relações entre Brasil e EUA

José Renato Ferraz da Silveira e João Pedro Bandeira Soares*
O encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump em Washington revelou uma nova etapa da contratualização da política externa contemporânea. Se a reunião entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump havia demonstrado a sobrevivência da diplomacia presidencial em um ambiente dominado por cálculos econômicos e negociações transacionais, a aproximação entre Flávio e a Casa Branca expôs uma dinâmica distinta: a instrumentalização da agenda de segurança como mecanismo de alinhamento estratégico e projeção eleitoral.
A rápida movimentação da administração Trump para classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras ocorreu em um contexto político altamente sensível.
Leia também: Bolsa família não criou a miséria brasileira
O anúncio foi realizado poucos dias após os contatos entre Flávio Bolsonaro, Marco Rubio e Donald Trump, reforçando a percepção de que a questão da segurança pública brasileira passou a ocupar espaço relevante na estratégia regional da atual Casa Branca.
A lógica é profundamente compatível com a visão internacional de Trump. Diferentemente da tradição diplomática americana que durante décadas procurou enquadrar desafios regionais dentro de estruturas multilaterais e negociações institucionais, o trumpismo opera por meio da identificação de ameaças diretas e da mobilização de instrumentos de coerção. O combate ao narcotráfico deixa de ser apenas uma questão policial ou judicial e passa a ser enquadrado como problema de segurança nacional e terrorismo.
Nesse contexto, Flávio Bolsonaro apresenta-se aos interlocutores americanos como um parceiro político alinhado a essa leitura estratégica. A defesa da classificação do PCC e do CV como entidades narcoterroristas não representa apenas uma posição sobre segurança pública. Trata-se de uma linguagem capaz de aproximar o discurso bolsonarista da gramática geopolítica utilizada atualmente por Washington.
A questão central, entretanto, ultrapassa a retórica criminal. A designação de grupos como organizações terroristas amplia significativamente o campo de atuação dos Estados Unidos. Ela permite o acionamento de mecanismos financeiros, sanções internacionais, monitoramento ampliado de transações e, em determinadas circunstâncias, abre espaço para justificativas de atuação extraterritorial sob o argumento da proteção da segurança nacional americana.
Essa possibilidade explica parte da cautela demonstrada pelo governo Lula diante da iniciativa. Celso Amorim, principal assessor internacional do presidente brasileiro, deixou claro que a cooperação internacional contra lavagem de dinheiro e tráfico de armas é bem-vinda, mas rejeitou qualquer interpretação que possa servir como pretexto para formas de intervenção externa.
Outros artigos: Trump e Xi Jinping encerram encontro em Pequim e consolidam rivalidade por chips e IA
A discussão revela uma divergência estrutural sobre soberania. Para o campo bolsonarista, a aproximação com Washington pode representar acesso privilegiado a inteligência, recursos e apoio internacional no enfrentamento ao crime organizado. Para o governo Lula, existe o risco de que a agenda de combate ao narcotráfico seja progressivamente absorvida por uma estratégia hemisférica concebida fora do Brasil.
A experiência histórica latino-americana recomenda cautela. Desde a Guerra Fria, inúmeras intervenções norte-americanas foram justificadas pela necessidade de combater ameaças consideradas excepcionais.
Mudaram os conceitos. Antes era o comunismo. Depois o terrorismo internacional. Agora emerge a categoria do narcoterrorismo transnacional. O mecanismo político permanece semelhante: a transformação de problemas internos em questões de segurança internacional.
É nesse ponto que o encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump adquire relevância estratégica. A reunião não tratou apenas de facções criminosas. Ela sinalizou uma convergência política mais ampla entre o trumpismo e setores da direita brasileira sobre como interpretar segurança, soberania e ordem internacional.
O PCC e o CV tornam-se, simultaneamente, um problema criminal real, um tema de campanha eleitoral e uma peça dentro da arquitetura geopolítica construída pela atual administração americana.
Veja também: O Brasil do crédito infinito e da ansiedade permanente
A política externa brasileira volta, assim, a enfrentar um dilema recorrente de sua história: como cooperar com os Estados Unidos em temas estratégicos sem transformar essa cooperação em dependência política. Em 2026, essa discussão deixa de ser apenas diplomática. Ela passa a ocupar o centro do debate eleitoral brasileiro.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor titular da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutor e Mestre em Ciência Política pela PUC-SP. Artigo escrito com João Pedro Bandeira Soares – graduando em Relações Internacionais e membro do Grupo de Teoria, Arte e Política.
Mais análises de José Renato Ferraz da Silveira:
Do grito ao raio: quando a política vira espetáculo de choque e engajamento
Guerra, mercado e poder: a engrenagem estratégica israelense
O fim da deferência: Senado inaugura era de autonomia e trava indicação ao STF