Trump e Xi Jinping encerram encontro em Pequim e consolidam rivalidade por chips e IA

Trump e Xi Jinping encerram encontro em Pequim e consolidam rivalidade por chips e IA
Donald Trump e Xi Jinping simbolizam modelos distintos de liderança, mas compartilham estratégias centradas em poder, influência e disputa geopolítica/Arte LexLegal
Publicado em 15/05/2026 às 12:01

José Renato Ferraz da Silveira*

Donald Trump e Xi Jinping não possuem estilos semelhantes. Durante anos, muitos analistas insistiram em tratá-los como figuras incompatíveis. Um encarnaria o nacionalismo impulsivo do Ocidente em crise. O outro representaria a paciência estratégica de uma civilização milenar que aprendeu a pensar em décadas enquanto democracias pensam em ciclos eleitorais.

Mas há um equívoco confortável nessa interpretação. Trump e Xi talvez sejam menos opostos do que aparentam.

Ambos compreendem o poder como linguagem de força. Ambos desconfiam do universalismo liberal construído após 1945. Ambos enxergam instituições multilaterais não como espaços morais, mas como instrumentos de disputa. E ambos entendem que o século XXI deixou de ser governado pelas promessas da globalização e passou a ser organizado pela competição aberta entre grandes potências.

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A partida de Trump de Pequim nesta sexta-feira encerrou muito mais do que uma visita diplomática. Encerrrou um símbolo. O encontro entre os presidentes das duas maiores economias do planeta explicitou algo que muitos governos ainda tentam negar: a era da ingenuidade geopolítica terminou.

Durante décadas, acreditou-se que comércio produziria convergência política. Que cadeias globais de produção aproximariam valores. Que crescimento econômico acabaria domesticando rivalidades estratégicas. Nada disso ocorreu.

A China tornou-se mais rica sem se tornar liberal. Os Estados Unidos tornaram-se mais protecionistas sem abandonar sua pretensão de hegemonia. E o resultado é um sistema internacional crescentemente marcado pela lógica da contenção, da dependência tecnológica e da disputa por capacidade industrial.
O encontro em Pequim foi menos uma tentativa de reconciliação e mais uma administração racional da rivalidade.

Os dois líderes sabem que a interdependência entre Washington e Pequim é profunda demais para permitir ruptura total — mas perigosa demais para permitir confiança genuína.
É uma relação marcada por medo estratégico mútuo.

Os Estados Unidos observam o avanço chinês em semicondutores, inteligência artificial, infraestrutura, defesa e minerais críticos com crescente ansiedade histórica. Pela primeira vez desde o colapso soviético, Washington enfrenta um competidor capaz de desafiar simultaneamente poder econômico, tecnológico, industrial e militar americano.

A China, por sua vez, enxerga os EUA como uma potência que tenta retardar artificialmente sua ascensão. Para Pequim, tarifas, sanções tecnológicas, bloqueios produtivos e alianças militares no Indo-Pacífico fazem parte de um mesmo desenho estratégico: impedir que o século XXI se torne um século chinês.

Nesse contexto, o encontro entre Trump e Xi possui uma dimensão quase teatral. Trump representa uma América ferida em seu orgulho industrial. Xi representa uma China convencida de que a história voltou a trabalhar a seu favor.

Há algo profundamente simbólico na imagem do Air Force One deixando Pequim após dias de cerimônias cuidadosamente coreografadas pelo Partido Comunista Chinês. O gesto revela um detalhe essencial da política internacional contemporânea: a diplomacia voltou a ser espetáculo de poder.
Não se trata apenas do que foi dito nas reuniões fechadas.

Trata-se das imagens. Dos protocolos. Da postura corporal. Da arquitetura monumental. Da mensagem implícita destinada ao planeta. Pequim quis demonstrar estabilidade civilizacional. Trump quis demonstrar que continua capaz de negociar diretamente com o principal rival estratégico dos Estados Unidos. Ambos saíram tentando projetar força. E talvez ambos tenham conseguido.

Mas o aspecto mais importante do encontro não está nas fotografias oficiais nem nos comunicados diplomáticos cuidadosamente moderados. Está na percepção crescente de que o sistema internacional entrou definitivamente numa era pós-ilusória. A globalização não morreu. Mas deixou de ser romântica.

Hoje, comércio exterior significa segurança nacional. Microchips significam soberania. Portos significam projeção militar. Terras raras significam autonomia estratégica. E inteligência artificial passou a representar capacidade de poder comparável ao petróleo no século XX.

O mundo que emerge do encontro entre Trump e Xi não é necessariamente uma nova Guerra Fria clássica. É algo talvez mais complexo — e potencialmente mais instável. Na Guerra Fria original, havia separação relativamente clara entre os blocos. Agora, há rivalidade profunda combinada com dependência econômica simultânea.

Washington e Pequim competem ferozmente enquanto continuam estruturalmente conectados.
Essa é a grande contradição do século XXI. E talvez seja exatamente isso que torne o atual momento histórico tão perigoso.

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Porque impérios conseguem sobreviver à distância. O que frequentemente produz tensão explosiva é a proximidade inevitável entre gigantes que já não confiam um no outro — mas também não conseguem se separar completamente.

*José Renato Ferraz da Silveira é Professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutor e Mestre em Ciência Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Editor-chefe da Revista InterAção e pesquisador nas áreas de Política Internacional, Geopolítica e Teoria das Relações Internacionais.

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