Direito entra na era dos bilionários com a ascensão de IA e novos modelos de negócio

Direito entra na era dos bilionários com a ascensão de IA e novos modelos de negócio
Agora é a vez do Direito aprender a falar com o capital, não para abandonar o que o torna essencial, mas para garantir que esse valor seja reconhecido, precificado e preservado no novo ciclo que já começou/Magnific
Publicado em 15/05/2026 às 10:37

Priscila Spadinger* 

Durante anos, eu me sentei em salas onde era preciso convencer. Convencer investidor de que problema jurídico era problema de negócio. Convencer fundador de que escalar uma legaltech exigia disciplina de empresa, não só de escritório. Convencer o mercado de que o Direito poderia, sim, gerar múltiplos de tecnologia, desde que fosse tratado com a seriedade que ele exige.

A conversa mudou.

Na semana passada a Enter, legaltech brasileira de inteligência artificial aplicada ao contencioso de massa de grandes empresas, atingiu valuation de US$ 1,2 bilhão e passou a ser reconhecida como o primeiro unicórnio de IA da América Latina com foco no setor jurídico. Nos Estados Unidos, a Manifest OS levantou US$ 60 milhões em rodada Série A, alcançando valuation de US$ 750 milhões, com uma proposta que desafia diretamente o modelo de cobrança por hora faturável.

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O capital chegou ao Direito. E agora, pela primeira vez em muito tempo, é o mercado jurídico que precisa estar à altura da conversa.

O que o capital enxerga que o mercado jurídico ainda não aprendeu a mostrar

Investidores não compram setores. Compram teses. E uma tese precisa responder a perguntas muito específicas: qual é o tamanho da dor? Ela é recorrente? Existe escala? É possível medir o resultado? Há barreira de entrada para o concorrente?

O Direito sempre teve respostas espetaculares para quase todas essas perguntas. O Brasil possui um dos maiores volumes processuais do mundo. A complexidade do contencioso trabalhista e cível das grandes empresas é gigantesca. A recorrência é estrutural, não é crise de mercado, é arquitetura do nosso sistema jurídico. A necessidade de tecnologia é evidente.

O problema nunca foi a dor. O problema era a linguagem.

Durante décadas, o mercado jurídico comunicou seu valor em termos que o capital não sabe ler: horas trabalhadas, número de advogados, anos de experiência, tradição do escritório. Esses marcadores fazem sentido dentro da lógica do setor, mas são quase ilegíveis para quem avalia empresas por múltiplos de receita, crescimento, churn, NPS e capacidade de expansão com menor custo marginal.

A Enter entendeu isso. Ela não foi a mercado dizer que tinha advogados experientes. Ela foi a mercado mostrar que tinha um modelo de agentes de inteligência artificial capaz de processar contencioso em escala, com previsibilidade de custo e rastreabilidade de resultado. Isso é uma linguagem que o capital entende.

Manifest OS e o fim do modelo que ninguém queria questionar

O caso da Manifest OS merece atenção especial porque ele não é sobre tecnologia jurídica no sentido instrumental, é sim uma ferramenta que advogados usam para trabalhar mais rápido. É sobre a reformulação do próprio modelo econômico da prestação de serviços jurídicos.

A empresa propõe escritórios de advocacia nativos de inteligência artificial, com precificação fixa por resultado e não por hora. A crítica ao modelo de horas faturáveis não é nova, mas é a primeira vez que ela chega com US$ 750 milhões de valuation e US$ 60 milhões em caixa para provar que o mercado financeiro acredita na disrupção.

Isso cria uma pressão que vai além do tecnológico. É uma pressão de modelo de negócio.

O cliente corporativo que hoje paga por hora começará, gradativamente, a perguntar por que não pode pagar por resultado. O gestor jurídico que hoje justifica budget (orçamento) por volume de horas contratadas terá que, cada vez mais, justificar por eficiência entregue. Esse deslocamento não acontece da noite para o dia, mas ele já começou, e os dados de investimento mostram que o mercado financeiro já tomou partido.

O que significa “falar com o capital” para um advogado ou para um departamento jurídico

Não se trata de aprender a fazer pitch ou de transformar escritório em startup. A imensa maioria dos profissionais jurídicos continuará exercendo advocacia da forma que sempre exerceu e isso é completamente legítimo.

Mas existe uma camada de compreensão que começa a se tornar necessária para qualquer profissional que queira entender para onde o setor está indo.

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A primeira é entender que eficiência passou a ser um argumento de valor, não de custo. Quando uma empresa jurídica demonstra que resolve determinada categoria de problema com mais velocidade, mais previsibilidade e menos variação de qualidade, ela está falando a língua que o capital e os grandes clientes corporativos aprenderam a valorizar. Isso não é ameaça à profissão, é expansão de repertório.

A segunda é compreender que dados são ativos. Escritórios e departamentos jurídicos acumulam, ao longo dos anos, um patrimônio informacional imenso: padrões de decisão judicial, estratégias de êxito em determinadas matérias, comportamento de contrapartes, perfis de risco por tipo de contencioso. Esse conhecimento, quando estruturado e analisado, tem valor econômico que vai muito além do que é cobrado na hora técnica.

A terceira (e talvez a mais difícil) é separar identidade profissional de modelo de entrega. O Direito tem uma identidade fortíssima, construída ao longo de séculos. Essa identidade não precisa ser abandonada para que o modelo de entrega evolua. A Enter não deixou de ser uma empresa jurídica porque usa inteligência artificial. A Manifest OS não deixou de fazer advocacia porque cobra de forma diferente.

Por que o Brasil tem uma posição privilegiada e o que pode desperdiçar

O Brasil é, simultaneamente, um dos maiores problemas e uma das maiores oportunidades da inteligência artificial jurídica no mundo. Nenhum outro país combina, na mesma medida, volume processual gigantesco, sofisticação dos grandes departamentos jurídicos corporativos, diversidade de matérias, instabilidade regulatória estrutural e um corpo de advogados com alto nível técnico.

Isso cria um laboratório sem equivalente global para desenvolvimento de soluções de IA jurídica. E isso não é retórica, é o argumento que está sendo usado, com sucesso, por fundadores brasileiros ao conversar com fundos internacionais.

Mas existe um risco real de desperdício.

O risco é o mercado jurídico continuar reagindo ao movimento externo como se ele fosse separado da sua própria realidade. Como se unicórnios de legaltech fossem um fenômeno de outro setor, de outro país, de outra lógica. Como se a disrupção do modelo de horas faturáveis fosse uma ameaça distante, irrelevante para o cotidiano da prática.

Não é. E a velocidade com que o capital está se movendo nesse espaço sugere que a janela de protagonismo não ficará aberta indefinidamente.

A pergunta que o setor precisa responder

Quando o capital olha para uma empresa e decide investir, ele está fazendo uma afirmação sobre o futuro: esse problema vai crescer, essa solução vai escalar, esse mercado vai amadurecer.

Ao atribuir valuation de US$ 1,2 bilhão à Enter e de US$ 750 milhões à Manifest OS, o mercado financeiro fez uma afirmação sobre o Direito. Disse que o setor jurídico é um dos próximos grandes mercados da inteligência artificial. Disse que existe valor econômico imenso nas ineficiências que o setor acumulou. Disse que quem resolver essas ineficiências de forma escalável vai capturar uma parte relevante desse valor.

A pergunta que cada profissional jurídico, cada gestor de departamento jurídico, cada sócio de escritório e cada fundador de legaltech precisa responder é simples e urgente: qual é o meu papel nessa construção?

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Não estou sugerindo que todos se tornem empreendedores ou investidores. Estou sugerindo que todos entendam que o setor em que trabalham está passando por uma reconfiguração de valor. E mais, que ignorar essa reconfiguração tem um custo que cresce a cada rodada de investimento anunciada.

O capital já aprendeu a falar com o Direito. Agora é a vez do Direito aprender a falar com o capital, não para abandonar o que o torna essencial, mas para garantir que esse valor seja reconhecido, precificado e preservado no novo ciclo que já começou.

*Priscila Spadinger é CEO Aleve LegalTech Ventures |  Professora de M&A e Venture Capital | Investidora Anjo | Mãe do Arthur e da Isadora.

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SÃO PAULO WEATHER